- Reflexões acerca da Vida Sobrenatural do cristão –
(Rodrigo Maria Antônio da Silva)
“Tantos trabalhos, tantos cuidados, tantos desvelos, tantas diligências (...) E por quê? Por alcançar a vaidade de um posto, de um lugar, de um título, de um nome, de uma aparência; e no mesmo tempo entra a velhinha por aquela igreja, toma água benta com piedade cristã, e adquire um grau de Graça, que pesa mais que todos os lugares, que todas as honras, que todos os títulos, que todas as dignidades do mundo, ainda que seja a dignidade de Mãe de Deus” (Vieira¹).
“O bem sobrenatural de um só indivíduo é maior que o bem natural de todo o universo” (S. Tomás de Aquino²).
Introdução
Daqui há algum tempo todos nós que vivemos agora neste mundo teremos morrido. Entretanto, poderão passar-se tantos milhões de séculos quantas são as gotas de água dos oceanos, e nós ainda continuaremos a existir. Nossa realidade teve um começo, mas nunca conhecerá um fim.
E como será a nossa vida daqui há, por exemplo, digamos, um mero milhão de anos? Será, pode-se responder, tal como a prepararmos agora, nesta vida terrestre. Simples, trágico, mas sumamente real: de morrermos em estado de Graça ou em estado de pecado dependerá irmos para o Céu ou para o inferno, por toda a eternidade. E dos méritos que levarmos para o Céu ou dos pecados que levarmos para o inferno, dependerá o grau de nossa glória ou desgraça eterna. Não há meio termo entre a vida da Graça, à qual segue-se o Céu, e a vida do pecado, à qual segue-se o inferno. Estamos nesse mundo para decidir entre uma ou outra opção.
“Saiba todo homem que está metido em um jogo do qual ou há de sair sumamente feliz, ou sumamente miserável. (...) Meio entre esses termos não há que esperá-lo” (Pe. Manuel Bernardes³).
E nesse jogo, cujo resultado depende em parte de Deus e em parte de nós, os elementos principais e mais decisivos são totalmente invisíveis aos nossos olhos.
O sobrenatural nos cerca, nos envolve, chega até a morar em nós, e não o vemos, ao menos enquanto a irmã morte não vem para retirar o véu que agora encobre tanto mistério. Se nós pudéssemos ver, porém...
Veríamos um espetáculo só comparável ao mesmo Deus, sempre que víssemos uma alma em estado de Graça, e veríamos cadáveres monstruosos andando pelas ruas, ao vermos os pecadores. Veríamos a Graça Atual cercando as almas e ferindo-as com suas setas, que ora assumem a forma de inspirações piedosas, ora a forma de livros espirituais, e ora, ainda, a forma de um bom amigo. Em meio a uma multidão saberíamos apontar com o dedo quem é ou não batizado, crismado ou sacerdote. Presenciar a justificação de uma alma nos daria a impressão de assistir ao nascimento de um novo sol, mil vezes mais belo do que esse que brilha lá em cima. Veríamos a comunhão dos Santos fazer rajadas de graças descerem dos Céus à terra e desta mesma saírem também outras, aos seus quatro cantos, e chegando até ao Purgatório. Veríamos, enfim, uma Mãe Imaculada a interceder ante o Tribunal de um Juiz irritado que ainda traz nas mãos as feridas que padeceu por amor duns ingratos que mesmo assim não cessam de Lhe atirar pedras...
Tudo isso e ainda mais veríamos se o sobrenatural nos fosse já visível. Um dia o será, para nossa alegria ou tormento eterno, visto que então o tempo de reunir riquezas imortais já terá passado, para sempre... Até lá, a Fé vai nos concedendo ao menos um conhecimento parcial dessas realidades, que nossas frágeis comparações e figuras de linguagem mais podem encobrir do que esclarecer...
Nas presentes páginas apenas tentamos dizer algo das realidades sobrenaturais, sempre infinitamente superiores ao que poderíamos dizer, ainda quando tivéssemos a inteligência de um querubim. Tentaremos a simplicidade de expressão, dispondo o texto sob a forma de explicações e reflexões, sempre muito resumidas em comparação do que poderia ser dito, e que versarão sobre: o Sobrenatural, a Graça Santificante, a Justificação, a Graça Atual e a Oração, o Mérito, as Virtudes Infusas, os Dons do Espírito Santo, o pecado, os Sacramentos e Sacramentais, a Comunhão dos Santos, a Predestinação e a Vida Eterna.
E para que não venha nos atrapalhar nenhum daqueles anjos perversos que, tendo perdido para sempre a Vida da Graça, morrem de inveja de nós ainda a podermos ter, recorramos Àquela que está tão mergulhada no sobrenatural que bem merece ser chamada de o “Mundo de Deus”4, a Mãe da Divina Graça: Ave Maria, cheia de graça...
1. O Sobrenatural
Há duas formas de sobrenatural5:
a). O Sobrenatural “Substancial”: é algo que em si mesmo excede tudo quanto uma criatura poderia, por si mesma, alcançar, exigir ou merecer. Tal é o caso da Graça Santificante, das Virtudes Infusas, dos Dons do Espírito Santo, da Visão Beatífica (“lumem gloriae”), que são nada menos do que algo de divino infuso na alma, e sobre que refletiremos neste trabalho.
b). O Sobrenatural “quanto ao modo”: tudo aquilo que, embora pertencendo, em sua essência, ao mundo da natureza, se produz, no entanto, de um modo sobrenatural, acima das forças ordinárias da natureza. Exemplo: a ressurreição de Lázaro devolveu-lhe, de modo sobrenatural, a mesma vida natural dos demais viventes desse mundo; o fogo do inferno, embora material, é produzido de modo sobrenatural e possuindo propriedades muito acima das do fogo comum.
O Sobrenatural Substancial vale infinitamente mais que o sobrenatural “quanto ao modo”, e é a ele que nos referimos ao falar de “Vida Sobrenatural” do cristão. Deixando, pois, de lado, o sobrenatural “quanto ao modo”, vamos nos concentrar neste trabalho sobre o Sobrenatural Substancial, isto é, a vida da Graça.
Com efeito, Deus quis que existissem duas vidas no homem: a natural e a sobrenatural.
A vida natural do homem é o conjunto de manifestações e atividades que brotam de seu ser natural, isto é, de seu corpo e alma: ver, ouvir, andar, falar, pensar, querer, etc. Já a Vida Sobrenatural, por sua vez, é o conjunto de elementos sobrenaturais substanciais (Graça Santificante, Virtudes Infusas e Dons do Espírito Santo) que Deus mesmo infunde na alma humana, no momento da justificação desta, como veremos, conjunto que deve desenvolver-se até à vida eterna, quando receberá a perfeição final ao ser completado com a Visão Beatífica.
Se Deus tivesse deixado o homem simplesmente na ordem natural das coisas, o homem, que possui uma alma naturalmente racional e imortal, teria ainda a possibilidade de, só pela razão, conhecer a existência de Deus, da lei moral natural e algumas outras verdades de fé, naturalmente descobríveis pela razão. Se o homem vivesse, então, de acordo com essas verdades, alcançaria, depois da morte física, um estado de felicidade eterna também natural, em que, porém, não veria a Deus. Isso seria a ordem meramente natural da vida humana.
Deus, entretanto, quis elevar a vida humana a uma ordem sobrenatural, isto é, quis possibilitar ao homem atingir não só uma felicidade natural após a morte, mas sim uma recompensa sobrenatural e impensavelmente maior: a Visão Beatífica no Céu. Destinando o homem a esse fim sobrenatural, Deus teve de possibilitar-lhe um meio também sobrenatural para atingir esse fim (visto que deve haver proporção entre meio e fim). Esse meio para os homens alcançarem a Visão Beatífica (o essencial do Céu) é o que chamamos de Graça Santificante (e sobre a qual já trataremos extensamente).
Nessa ordem sobrenatural já não bastaria ao homem aquilo que só com as luzes da razão se pode descobrir acerca de Deus e de Sua Lei, tornando-se necessário, pois, que Deus mesmo o instruísse revelando-lhe verdades que só pela razão não se descobririam. Esse conjunto de verdades reveladas está contido na Bíblia e na Tradição da Igreja Católica, que é a organização encarregada por Deus de ensiná-las aos homens e transmitir-lhes a Graça através dos Sacramentos, que são uns meios sobrenaturais instituídos por Cristo para tanto. Essa é a ordem sobrenatural da vida humana, e é a única em que, de fato, o homem sempre se achou, visto que, desde Adão, Deus já a impôs à humanidade. Nenhum homem pode, pois, contentar-se com um conhecimento meramente natural de Deus e uma observância apenas daquilo que, só pela razão, descobrir que está certo ou errado. É preciso algo essencialmente superior: crer nas verdades sobrenaturalmente reveladas por Deus, pertencer à única Igreja de Deus ( a Igreja Católica Apostólica Romana), cumprir as Leis divinas ensinadas pela Igreja, receber os Sacramentos e, em suma, possuir a Graça Santificante e morrer possuindo-a, para então alcançar aquela indizível felicidade sobrenatural eterna que Deus quis para os homens que O servissem nesta vida.
Deus poderia perfeitamente ter deixado o homem no nível da simples vida natural, mas isso nunca aconteceu. Desde a criação de Adão, Deus impôs ao homem um destino sobrenatural: deverá viver e morrer em estado de Graça e assim se salvar eternamente, ou então, se escolher o pecado e nele morrer, cairá no inferno, para sempre.
Adão e Eva receberam a Graça Santificante no mesmo instante de sua criação, e a teriam transmitido aos seus descendentes como uma herança, se não tivessem pecado, desobedecendo à ordem de Deus de não comerem o fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Perdida a herança da Graça, nem todos os esforços dos homens poderiam merecê-la de volta e, por isso, como no Céu não se entra sem a Graça Santificante, todos os descendestes de Adão fatalmente iriam para o inferno. Foi então que a Misericórdia Divina interveio e, encarnando-se a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ofereceu por nós, na Cruz, um Sacrifício perfeitamente expiatório de nossos pecados, merecendo assim, para os homens, a devolução da Vida Sobrenatural, isto é, do estado de Graça Santificante, que em Adão todos havíamos perdido. Desde então as almas podem receber o dom da Graça, através dos meios de justificação, como veremos neste trabalho.
2. A Graça Santificante
A Graça Santificante é o mais excelso, o mais valioso de todos os dons que Deus pode fazer a uma criatura, de tal modo que, superior à Graça Santificante, só a unidade substancial entre as naturezas humana e divina numa só Pessoa, o que é o caso unicamente de Jesus.
Ensina-nos o Papa São Pio X: “A Graça Santificante é um dom sobrenatural, que se faz inerente à nossa alma, e que nos faz justos, filhos adotivos de Deus e herdeiros do Paraíso” (Catecismo Maior de São Pio X, nº 526).
E um grande autor espiritual, o Padre Tanquerey, diz-nos que a Graça Santificante é “uma qualidade sobrenatural, inerente à nossa alma, que nos faz participar dum modo real, formal, mas acidental, da Natureza e Vida divinas”6.
Consiste, pois, a Graça Santificante, numa transformação que Deus opera na própria substância espiritual da alma, tornando-a, em sua essência, um ser sobremaneira especial a Seus divinos olhos, dotando-a, em seu mesmo ser, de uma perfeição e beleza sem comparação a qualquer outra coisa do universo.
Em outras palavras, a Graça Santificante é uma participação na Natureza Divina, como diz São Pedro Apóstolo: “Nos deu Deus tão grandes e preciosas promessas, a fim de que por elas vos torneis participantes da Natureza Divina” (II Pdr 1, 4).
A alma, pela Graça Santificante, torna-se tão semelhante a Deus, que um desavisado que a visse, julgaria estar vendo o próprio Deus. Como disse Bossuet: “Quem visse uma alma onde está Deus pela Graça [Santificante] (...), creria, de certo modo, estar vendo o próprio Deus, como também de certo modo se vê um segundo sol no límpido cristal onde, por assim dizer, penetra com seus raios o primeiro”7.
Assim como o ferro em brasa é transpassado pelo fogo ao ponto deste viver nele e fazê-lo extremamente semelhante a si, tornando-o quente, luminoso e flácido como se fosse fogo também, assim Deus, no mistério da Graça Santificante, penetra inteiramente a alma e torna o próprio ser desta tão semelhante a Si em dignidade, santidade e beleza sobrenatural, que é como se a alma se tornasse Deus também.
Como, porém, prosseguindo a comparação, o ferro em brasa, por mais semelhante e unido ao fogo que esteja, não perde sua natureza de ferro, a qual participa das qualidades do fogo mas sem deixar de ser ferro, assim também a alma em estado de Graça Santificante, apesar de imensamente semelhante e unida a Deus, não perde sua natureza criada, a qual participa então das perfeições de Deus, mas sem deixar de ser criatura. Deus e a alma em Graça estão unidos, mas não se confundem.
Como diz o Padre Schrijvers:
“Esta efusão da Graça Santificante, isto é, da Natureza Divina, em todas as almas [sobrenaturalmente] justas, não multiplica a Natureza Divina, por ser esta una e imutável.
A mesma Natureza Divina, possuída plenamente por cada uma das Três Pessoas Divinas sem ser multiplicada, se comunica de modo finito a todas as almas justas. Estas, qual puro cristal, vêem-se penetradas pela divina luz da Natureza Divina e transformadas à medida de sua pureza e transparência, sem que se possa dizer que a Natureza Divina, tão diversamente possuída [por Deus e pelas almas em Graça], se haja multiplicado ou empobrecido”8.
Como diz um piedoso autor, a Graça Santificante “é uma forma ou maneira de ser divina. Mas, em Deus, ela é a essência; em nós, acidente”9.
Pela Graça Santificante a alma, que antes era só criatura de Deus, é adotada como filha por Ele, mas numa adoção que não permanece só no nível legal, como nas adoções humanas, mas vai até à própria ordem do ser daquela alma, divinizando-a, mas sem ela chegar a ser outro deus. É como se numa adoção humana o casal adotante pudesse transformar o próprio código genético da criança adotada, fazendo-a realmente filha deles.
E como afirma um outro autor:
“Deus nos faz Seus filhos adotivos, não só com um ato jurídico, mas com uma mudança, com uma elevação da nossa natureza humana, com um dote que investe intrinsecamente a nossa alma, ultrapassando toda substância criada, e conferindo-nos o direito de chamar-nos e ser filhos de Deus, como diz S. João [cf. I Jo 3, 1]”10. E acrescenta, citando ainda um outro escritor: “Um filho de rei que não conhecesse nem a sua origem, nem os altos pensamentos que sua condição lhe exige: eis aí a imagem de grande número de cristãos”11.
São Leão Magno diz: “O dom que sobrepuja a todos os dons, consiste em que Deus chame ao homem Seu filho e o homem chame a Deus seu Pai”12.
Em si mesma a Graça Santificante é um dom estável, constituindo o homem num estado sobrenatural permanente de santidade, do qual força externa alguma o pode privar. Todavia, em razão de seu livre-arbítrio, o homem pode sempre, durante esta vida mortal, pecar gravemente e perder, assim, a posse da Graça.
Esse dom sobre todo dom, que é a Graça Santificante, Deus no-lo concede por pura Bondade Sua, e poderia muito bem não fazê-lo, sem cometer com isso qualquer injustiça para conosco, dado que a Graça não é nenhum direito da natureza humana (quer considerada antes do pecado original) e nem de qualquer natureza criada. “A Graça ultrapassa infinitamente o ser e as exigências de toda natureza criada ou criável, humana ou angélica”13.
A Santíssima Trindade mesma faz morada na alma em estado de Graça. Disse Nosso Senhor: “Se alguém me ama guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e Nós viremos a ele, e faremos nele morada” (Jo 14, 23).
A Graça Santificante constitui a alma num estado sobrenaturalmente agradável a Deus. Não é, pois, como pretendiam certos hereges, algo meramente exterior à alma, como uma espécie de “declaração de santidade”. Não; não é isso. A Graça Santificante é algo, uma coisa real, que Deus cria na alma no momento de sua Justificação, e que a torna realmente diferente, dotando a própria substância da alma de qualidades tais, que o Altíssimo passa a amá-la com o mais sublime amor: “Como és formosa, minha amiga, como és formosa!” (Ct 4,1).
O próprio ser da alma é que se torna diferente através da Graça Santificante, embora sem a alma perder a sua natureza humana, sem se tornar um outro Deus e sem ser absorvida pelo ser de Deus.
É como se um bloco de pedra bruta fosse esculpido e se tornasse uma estátua de rara beleza e perfeição. A pedra não perdeu, é claro, a sua natureza de pedra, mas recebeu tais qualidades que tornou-se uma obra-prima. Não vive, mas é uma obra-prima em seu gênero. Assim, pois, como a pedra, pela ação do homem, é belissimamente esculpida pela ação do homem, mas sem deixar de ser pedra e sem se tornar um ser vivo, assim também a alma, pela Graça de Deus, é inefavelmente divinizada, mas sem deixar de ser criatura e sem se tornar um deus. Todavia, simplesmente não há proporção possível entre a beleza de todas as obras-primas dos homens, e o esplendor sobrenatural de uma só alma em estado de Graça Santificante.
A Misericórdia Divina é que não permite que vejamos o aspecto maravilhoso das almas em Graça, para não sermos tentados a idolatrá-las, e para que não morramos de felicidade, como disse Santa Brígida que morreríamos se tivéssemos a ventura de uma tal visão.
“Meditando um dia Santa Catarina de Sena com grandes sentimentos de devoção sobre o amor que Nosso Senhor tem às almas, não compreendia como o Salvador pôde amar-nos e sofrer tanto por nós, miseráveis criaturas. Então lhe apareceu o Senhor e, mostrando-lhe a formosura e glória da alma adornada com a Graça Santificante, lhe disse: ‘Vê se não vale a pena viver, padecer e morrer por coisa tão formosa!’”14.
Para agradar a Deus e salvar-se eternamente, mais ainda do que fazer algo, é preciso possuir algo: a Graça Santificante. Tanto quanto uma alma possui a Graça Santificante, tanto ela agrada a Deus e torna-se semelhante a Ele.
E este tesouro magnífico que é a Graça, pode ser aumentado indefinidamente durante este vida mortal, através da digna recepção dos Sacramentos, da oração e demais boas obras, desde que feitas de modo meritório (como já explicaremos ao tratar do ‘mérito’). A todo instante e de modo relativamente fácil uma alma em Graça pode estar adquirindo mais e mais Graça. Por que, então, não sermos santamente gananciosos desse divino tesouro, sendo tantos outros gananciosíssimos das bobagens deste mundo? Não é uma verdadeira vergonha para nós que muitos homens, inúmeros mesmo, amem mais as tolices da terra do que nós amamos a Deus? Lutam tanto por umas ninharias que daqui há pouco terão de deixar do lado de cá de um túmulo, e nós, apesar de conhecermos a verdade, não nos esforçaremos por ajuntar bens sobrenaturais, divinos, eternos?
Loucura pior do que a de não procurar possuir mais Graça Santificante, só a de ainda perder o se tem de Graça, através do pecado. Sim, porque basta um pecado grave para perder toda a Graça Santificante e, portanto, para condenar-se eternamente, uma vez que sem a Graça não se entra no Céu. Quem comete um pecado grave (usar roupas indecentes, por exemplo), expulsa a Santíssima Trindade de sua alma e perde, pois, aquela união e amizade com Deus, em que consiste a Graça Santificante, trocando-a por alguma das vaidades deste mundo, e imitando, assim, a Esaú, que trocou toda a sua herança por um mero prato de lentilhas (cf. Gen 25, 27-34). A cegueira do pecador é tanta, porém, que este mais se lamentará se tiver perdido uma moeda, do que por ter perdido o seu Deus...
É importante, pois, entender bem o que não é a Graça Santificante: os sentimentos fervorosos experimentados na oração; a paz de consciência; o bem-estar psicológico; a honestidade; o hábito de fazer o bem aos outros, etc. – nada disso é a Graça Santificante. Esta é algo sobrenatural, que Deus infunde na alma através da Justificação (como já explicaremos), e que, salvo um grande milagre, não pode ser percebido pelos sentidos. Só no Céu é que a Graça Santificante já estará mais, para os Eleitos, entre o que não se vê. Por ora, mistério...
E ainda quando uma alma em estado de Graça Santificante seja, em suas ações, imperfeita e até cheia de pecados veniais, na ordem do ser, porém, isto é, em sua substância espiritual, ela possui a santidade essencial, que é a Graça. Por isso mesmo é que a Graça de que tratamos recebe o nome de “Santificante”, visto que ela faz com que a própria substância da alma se torne justa e santa aos olhos de Deus, restando à alma apenas o ir conformando as suas ações e sua vida com essa realidade, pelo exercício das virtudes.
Tão estimável é a Graça Santificante, que vale a pena fazermos todos os esforços possíveis não só para possuí-la nós mesmos, como também para que os outros a possuam. Importa, pois, que ensinemos aos demais o valor da vida da Graça e o modo como obtê-la e aumentá-la. Os bens sobrenaturais são de tal modo excelentes que, ainda quando, com nossos esforços de apostolado, não conseguíssemos mais que o resultado de ajudar uma só alma a obter um só grau de Graça a mais, já nos deveríamos dar por muito bem sucedidos, porque só esse único grau de Graça já significaria para Deus uma glória superior a tudo quanto todos os homens e anjos juntos, sem a Graça Santificante, poderiam oferecer a Deus durante toda a eternidade. E ajudar uma alma a adquirir ao menos um grau a mais de Graça, é fazer-lhe um beneficio maior e melhor do que se a enchêssemos de todos os bens e riquezas naturais do universo. O mínimo bem sobrenatural de um só individuo é infinitamente superior ao máximo bem natural de todas as criaturas juntas, como podemos aprender de São Tomás de Aquino (I-II, 113, 9, ad 2).
A Graça Santificante torna o que a possui, literalmente, digno do Céu, digno do amor de um Deus, o que por nós mesmo, está claro, nunca seríamos.
Compreende-se, pois, que diante da Graça Santificante desapareça qualquer riqueza, honra ou dignidade material ou mesmo espiritual, que não seja ela própria, assim, como diante da luz do sol desaparecem as estrelas, parecendo o céu deserto.
A mesma diferença, por assim dizer, que há entre o universo inteiro, e um grão de pó, é a que existe entre um mendigo leproso e abandonado, mas que possui ao menos um grau de Graça Santificante, e um rei servido pelo mundo inteiro, mas que não tem a mesma Graça.
Umas pedrinhas de areia frente a horizontes de ouro puríssimo a perder de vista; umas gotas de água suja e envenenada frente ao mais límpido e doce oceano – tais são as riquezas e os prazeres deste mundo em comparação com a Graça Santificante.
Para se avaliar o preço da Graça Santificante, tente-se calcular quanto vale o Sacrifício do próprio Deus pregado numa Cruz: a Sabedoria Eterna e Encarnada não achou demasiado derramar todo o Seu Sangue, do qual uma só gota vale mais que mil mundos, a fim de merecer que devolvesse aos homens o dom da Graça Santificante, a herança principal que Adão devia transmitir aos seus descendentes, mas perdera pelo pecado, e que nem o sacrifício de todas as criaturas juntas poderia merecer de volta – só o Sangue de um Deus vale o que vale a Graça Santificante:
Como diz o Padre Antonio Vieira:
“Sabeis quanto pesa [isto é, quanto vale] a graça de Deus? Pesa a Deus posto em uma cruz. Deus posto em uma cruz, é o preço e o peso justo da graça de Deus, e não há outro. O fim para que Deus se pôs em uma cruz, não há dúvida que foi para nos merecer a graça. Assim o ensina a fé e a teologia, a qual também ensina que podia Deus dar-nos a graça por outros modos. Pois se Deus nos podia dar graça por outros modos, porque no-la quis dar pondo-Se em uma cruz? (...) Para que posta de uma parte a graça que o homem perdera e doutra Deus inteiro que com preço da Sua Vida e do Seu Sangue lha comprava, entendesse o homem de quanto peso é a Sua graça. É de tanto peso, que só com Deus se pode contrapesar. Ponde naquela balança reinos, ponde coroas, ponde cetros, ponde impérios, ponde monarquias, ponde tudo o que pode dar a fortuna, ponde o mundo, ponde mil mundos, ponde o mesmo Céu com sua glória, nada disto faz pendor em comparação da graça, que tão facilmente perdemos. Posta em balança a graça, só Deus pode igualar as balanças. (...) Pesa muito a graça de Deus? Pois ainda há outra coisa no mundo que pesa mais que ela. E qual é? Qualquer dos vossos apetites. Nas balanças da cruz, pesa tanto a graça como Deus; nas balanças do juízo humano, qualquer apetite pesa mais que Deus e a Sua graça. (...) Ó homens, (...) como sois falsos nas vossas balanças! (...) É possível que Deus se há de dar a Si mesmo pela graça, para nos levar ao Céu, e que nós havemos de trocar Deus e a graça pelo pecado que nos leva ao inferno?”15.
Realmente, como são loucos os homens, que por um nada já se permitem perder a Graça Santificante pelo pecado mortal! Os Santos não pensaram dessa forma, mas sim, iluminados pela Sabedoria Eterna, prefeririam antes padecer mil mortes do que perder, ainda que só por um instante, o dom da Graça Santificante – o que bem se pôde ver nos suplícios dos Mártires.
E mesmo que esta não valesse tanto em si mesma, o fato é que a necessidade que temos dela para o bem de nossa eternidade é absoluta: sem a Graça Santificante nenhum bem que façamos terá qualquer recompensa na vida eterna e, se morrermos fora do estado de Graça, adeus Céu, para sempre...
De todas as obras da vida duma pessoa, só ficará e só permanecerá, só tem valor eterno, o quanto de Graça Santificante ela tiver com elas adquirido. De modo que mesmo as ações moralmente boas que uma alma fora do estado de Graça pratique, não podem ter qualquer mérito para a eternidade. Logo, mesmo que uma alma em pecado mortal ajude materialmente uma multidão de pobres, por nada disso ela receberá qualquer recompensa na eternidade, mas só no tempo.
Como dia um autor espiritual, “sem a Graça, as obras naturais mais heróicas não teriam absolutamente nenhum valor em ordem à vida eterna. Um homem privado da Graça é um cadáver na ordem sobrenatural, e os mortos nada podem merecer. O mérito sobrenatural supõe radicalmente a posse da vida sobrenatural. Este princípio é de um alcance incalculável na vida prática. Quanta dor, quanto sofrimento que poderia ter um valor extraordinário em ordem à vida eterna, fica completamente estéril e inútil por afetar a uma alma privada da Graça Santificante! Enquanto o homem esteja em pecado mortal, está radicalmente incapacitado para merecer absolutamente nada na ordem sobrenatural”16.
Por outro lado, a menor boa ação feita em estado de Graça vale muito mais do que toda uma vida de boas obras feitas sem a Graça Santificante. Passar oitenta anos, por exemplo, cuidando pessoalmente de dezenas de enfermos, jejuando e orando o mais possível, mas sem se estar em estado de Graça, vale menos do que um minuto passado em estado de Graça, e no qual só se faça um breve sinal da Cruz. Isso porque os atos de uma alma fora de estado de Graça são atos meramente humanos, enquanto que os atos duma alma em estado de Graça são atos também divinos, por assim dizer, visto que Deus, residindo pela Graça nessa alma, comunica um valor divino a todas as suas boas ações, até às mais pequeninas. Recolher uma palha do chão, por amor a Deus, em estado de Graça, vale infinitamente mais do que sofrer o martírio pela Fé, estando em pecado mortal.
Diante de Deus, tanto vale uma alma quanta Graça Santificante ela possua, e tanto mais Deus amará uma alma, quanto mais ela tenha a mesma Graça.
A própria Santíssima Virgem Maria não seria a criatura mais amada por Deus, se não fosse, também, a que mais possui Graça Santificante, e Deus mais estima a Virgem Imaculada pela Graça Santificante que Ela possui, do que por ser Ela a Sua Mãe (e este é, precisamente, o sentido atribuído pelos Santos à passagem de Lc 11, 27-28). Imaginemos, porém, o impossível de que a Mãe de Deus não possuísse a Graça Santificante: neste caso, qualquer pecador recém-convertido, ainda que só possuísse um grau de Graça, seria mais santo e mais amável aos olhos de Deus do que a própria Mãe de Deus. De modo que, se a Virgem Maria tivesse de escolher entre ser Mãe de Deus e possuir a Graça, nem por um instante Ela duvidaria em escolher a Graça. Querendo, pois, Deus, honrar a Sua Mãe Santíssima, nada de melhor Lhe podia conceder do que isto: ser Ela, realmente, a pura criatura mais “cheia de Graça”. (No número 17 das Notas Complementares ao final deste trabalho, inserimos uma página incomparável do Padre Vieira sobre as relações entre a Maternidade Divina e a Graça Santificante.)
A Visão Beatífica, a felicidade essencial dos Eleitos no Céu, não é mais do que a mesma Graça Santificante em sua plena manifestação. Quem tem, pois, a Graça Santificante, tem o Céu, o essencial do Céu em sua alma. A Graça é já um começo da Glória em nós, segundo São Tomás de Aquino (II-II, q. 28, a. 1 ad 3)18.
Entre a Graça Santificante e Glória essencial do Céu há uma diferença de grau, mas não de natureza, sendo ambas uma participação na Natureza Divina.
Imaginemos, porém, o caso (impossível na realidade, é claro) de uma pessoa que se visse na necessidade de escolher entre a Graça Santificante e a Glória Celeste: não há dúvida de que deveria escolher antes ficar sem a Glória do que sem a Graça, porque vale mais amar a Deus e ser por Ele amado (o que é efeito da Graça) do que ver a Deus (o que é efeito da Glória). Mais vale estar unido a Deus, pela Graça, do que estar contemplando a Deus, pela Glória. E Deus amaria mais um condenado do inferno que possuísse uma partícula de Graça Santificante, do que um bem-aventurado do Céu, repleto de Visão Beatífica, mas que não possuísse a Graça (claro que aqui estamos supondo um impossível).
Seria preferível, pois, ir para o inferno em estado de Graça, do quer ir para o Céu em estado de pecado.
Irmos para o Céu é irmos morar com Deus. Estarmos em estado de Graça é ter o mesmo Deus morando em nós.
Se um dia, pois, nos vermos pobres, na miséria mais completa, gravemente doentes, abandonados por todos e cercados de perseguições, desastres e perigos, lembremo-nos: se temos a Graça Santificante, temos tudo, temos o essencial, o mais precioso dos tesouros, que nada nem ninguém pode arrancar de nós sem nosso consentimento, e que nos possibilita adquirir, a todo instante, mais e mais recompensas indescritíveis e que nunca conhecerão um fim... Dando-nos a Graça, numa palavra, Deus nos dá Ele mesmo.
Como dizem dois autores, citados pelo célebre padre Tanquerey:
“A Natureza Divina é, verdadeiramente e no seu próprio ser, unida à substância da alma, por um laço especial, de maneira que a alma justa possui em si a Natureza Divina, como se lhe pertencesse, e, por conseguinte, possui um caráter divino, uma perfeição de ordem divina, uma beleza divina, infinitamente superior a tudo quanto pode haver de perfeição natural em qualquer criatura existente ou possível”19.
“Deus está, pois, real, física e substancialmente presente no cristão que possui a Graça; e não é simples presença material, é verdadeira posse”20.
Como descrever, então, a natureza e o valor da Graça Santificante? Apenas quem pudesse compreender totalmente o próprio Deus, é que poderia entender também a Graça Santificante. No silêncio de nossa alma adoremos, pois, o Deus infinitamente bom, que a tais alturas incompreensíveis quis elevar o pobre homem, feito do pó, e digamos com aqueles bem-aventurados espíritos que também foram eleitos para tal vida sobrenatural, os Anjos: Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos Exércitos, os Céus e a terra estão cheios de Vossa Glória! Glória ao Pai, glória ao Filho, glória ao Espírito Santo! 21
3. A Justificação
A Justificação é o processo pelo qual Deus infunde numa alma a Graça Santificante que ela antes não possuía.
Explica-nos um excelente autor:
“O termo ‘justificar’, tratando-se de Deus, quer dizer tornar justo, fazer a justiça aparecer num lugar em que não estava. ‘Justificação’, portanto, é o ato divino pelo qual são remitidos [isto é, apagados] os pecados, original e atuais se for a caso, e que traz os pecadores do estado de culpa ao estado de Graça e de justiça”22.
São dois os meios de Justificação: o Batismo e a Confissão.
O Batismo para livrar a alma do pecado original e conceder-lhe a Graça, que nunca teve. A Confissão para livrar a alma dos pecados cometidos após o Batismo, e reconceder-lhe a Graça se a tiver perdido por um pecado grave. Logicamente, falamos da recepção válida e digna destes Sacramentos.
Deus, porém, é tão misericordioso e a Graça é tão importante, que antes mesmo da recepção destes Sacramentos, a alma pode conquistar ou recuperar a Graça Santificante, mediante certas condições que lhe antecipam o efeito sacramental. Assim, o não-batizado, já com uso da razão, se crê em tudo quanto a Igreja ensina, basta que formule um sincero ato de Contrição, isto é, uma oração de arrependimento de seus pecados por amor de Deus, unido ao propósito firme de receber depois o Batismo, e já estará em Graça. E se um já batizado perder a Graça pecando gravemente, basta que formule um sincero ato de Contrição, unido ao propósito firme de depois confessar-se, e terá recuperado a Vida Sobrenatural, a Graça Santificante. Nestes dois casos, porém, subsiste o dever de receber depois o Sacramento cujo efeito se adiantou, mas, no caso da Confissão, não é necessário, para a validade do ato de Contrição, que a pessoa se confesse já na primeira ocasião depois de o formular, embora isso seja o mais recomendável. Ela pode esperar, por exemplo, até encontrar-se com um melhor confessor. Esse intervalo, é claro, não a deve impedir de cumprir o preceito da Comunhão Pascal (que pode ser cumprido com qualquer Comunhão digna na Quaresma ou no Tempo Pascal).
Como ato de Contrição pode servir esta fórmula:
Meu Jesus, crucificado por minhas culpas, eu me arrependo sinceramente de todos os meus pecados, por eu ter com eles ofendido a Vós, que sois infinitamente bom e digno de todo o amor. Peço-Vos perdão e faço também o firme propósito de nunca mais Vos tornar a ofender, de empregar os meios convenientes para evitar o pecado e de confessar-se depois. Meu Jesus, misericórdia!
Durante esta vida, ninguém pode, sem uma revelação particular de Deus, ter certeza de Fé de que se acha justificado, isto é, em estado de Graça23. Apenas se pode ter, e quando muito, uma certeza moral disso. (Certeza de Fé é aquela que se baseia na autoridade mesma de Deus, crendo porque Ele, que é Suma Verdade, o revelou. Certeza moral é a que se fundamenta nos raciocínios humanos e suas provas.)
4. A Graça Atual e a Oração
Graça Atual é uma ação de Deus com relação a uma alma, movendo-a ao bem ou afastando-a do mal.
“A Graça Atual é um dom sobrenatural que ilumina a nossa inteligência, move e fortalece a nossa vontade, a fim de que pratiquemos o bem e evitemos o mal” (Catecismo Maior de São Pio X, nº 530).
Devido ao enfraquecimento moral e às paixões desordenadas que o pecado original deixou em nós, temos uma necessidade absoluta do auxílio de Deus para podermos fazer boas obras e evitar o pecado. Por nós mesmos não somos capazes sequer de um bom pensamento (cf. II Cor 3,5). Esse auxílio divino a nossa fraqueza é o que chamamos de Graça Atual.
Quando Deus concede uma Graça Atual, concede-a para um desses três fins: preparar-nos para a Justificação (se nunca tivemos a Graça Santificante ou a perdemos); ajudar-nos a perseverar no estado de Graça Santificante, vencendo as tentações; ou ajudar-nos a progredir na posse da Graça Santificante, realizando boas obras e conquistando méritos sobrenaturais.
Vejamos alguns exemplos: alguém está no protestantismo, que é uma falsa religião inventada pelo diabo, e sente-se inspirado a voltar à Fé Católica – isso é uma Graça Atual. Outra pessoa costuma cometer o pecado mortal de usar roupas indecentes, e depara-se com um livro piedoso que a alerta sobre o inferno que tal culpa merece – isso também é uma Graça Atual. Um outro recebe de um amigo seu o conselho de rezar mais – outra Graça Atual. Agora mesmo, escrevendo essas linhas, é a Graça Atual que está usando-me para atingir quem nem imagino. Ou seja, sempre que recebemos algum auxílio espiritual, seja no nosso próprio interior, seja através de pessoas ou coisas, estamos recebendo uma Graça Atual.
Diferente da Graça Santificante, que diviniza a alma e nesta permanece enquanto um pecado grave não a expulsa, a Graça Atual é só um auxílio para a alma, e que vai e volta, segundo a Providência de Deus e a correspondência da alma. Esta fica sempre livre para não corresponder às Graças Atuais que recebe.
Sem a Graça Atual jamais conseguiríamos fazer um só ato sobrenatural (isto é, qualquer ação, pensamento ou palavra boa ou indiferente, motivada por alguma intenção sobrenatural), embora mesmo sem a Graça Atual possamos fazer obras naturalmente boas (isto é, ações moralmente boas, mas realizadas sem qualquer motivo sobrenatural). Ajudar os pobres só por amor à humanidade, por exemplo, é algo apenas naturalmente bom, que não precisa da ajuda da Graça Atual para ser feito, mas também não tem valor nenhum para a vida eterna. Já se ajudar os pobres por amor a Deus ou em expiação dos próprios pecados ou por outro motivo sobrenatural, isto sim é um ato sobrenatural, fruto da Graça Atual, e meritório diante de Deus. (Como se vê, pois, a intenção é realmente a ‘alma da ação’. As mesmas obras, feitas com intenções diferentes, têm também um valor diferente diante de Deus. Exceto, é claro, as obras más, as quais uma intenção boa não basta para torná-las boas.)
A todo ser humano Deus concede uma certa quantidade de Graça Atual que basta, se aproveitada, para ele fazer o bem, evitar o mal e salvar-se. Esta Graça Atual chama-se “Graça Atual Suficiente”, e se a aproveitassem como convém, todos se salvariam. Sucede, porém, que nossa natureza corrompida pelo pecado é tão fraca, que precisamos ainda de uma segunda Graça para podermos aproveitar a primeira. Esta outra Graça Atual, que vem ajudar-nos a conseguir aproveitar a “Graça Atual Suficiente”, chama-se “Graça Atual Eficaz”. Esta é tão decisiva que, sem ela, de nada nos serviria a Graça Atual Suficiente, que por nossa miséria não conseguiríamos aproveitar. A Graça Atual Suficiente é “suficiente” em si mesma, mas não para nós, em razão de nossa incapacidade de usá-la.
Todos recebem a Graça Atual Suficiente, mas nem todos recebem as mesmas Graças Atuais Eficazes. Estas dependem, em primeiro lugar, do mistério da divina Predestinação (sobre o que ainda falaremos) e, em segundo lugar, de nossa livre cooperação às Graças Atuais anteriores. Na ordem normal da Providência divina, a plena correspondência a uma Graça Atual gera, por sua vez, novas Graças Atuais, e este é o sentido daquelas palavras de Nosso Senhor: “Ao que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que julga ter” (Mat 25, 29).
“A Graça [Atual] é necessária não só porque estamos num estado decaído, que tem por conseqüência a ignorância, a dissipação e a fraqueza (...), mas ainda porque a qualidade essencialmente sobrenatural das obras da salvação exige indispensavelmente o socorro da graça. Para atingir um fim sobrenatural, são precisos meios sobrenaturais, méritos sobrenaturais. Ora, uma obra não pode ser sobrenatural senão com a condição de ser inteiramente feita de modo sobrenatural24”.
Diferentemente da Graça Santificante, que é uma qualidade que Deus cria na alma caracterizando-a em seu próprio ser, a Graça Atual é apenas uma ação de Deus sobre a alma, para levá-la ao bem sobrenatural. Esta ação, Deus a exerce sobre o próprio interior da alma, isto é, sobre sua inteligência e vontade (sem ferir-lhe o livre-arbítrio), embora muitas vezes Ele se utilize, para atingir essa alma, de instrumentos e meios exteriores (livros, imagens, outras pessoas, etc.). E outra diferença em relação à Graça Santificante, é que a Graça Atual não permanece permanentemente na alma, mas sim age a intervalos mais ou menos distanciados, segundo o plano de Deus para aquela alma (Predestinação) e a correspondência dela.
Para fazer Graças Atuais chegarem até nós, Deus se serve dos mais variados meios: “os benefícios como os castigos, as nossas alegrias e os nossos sofrimentos, os Anjos, os homens, todos os seres criados; tantos são os meios pelos quais nos fala, quanto os mensageiros da Graça. Umas vezes é frescura da ridente primavera que nos convida a adornar a nossa alma com obras de salvação; outras vezes é o silêncio da noite de insônia, que põe na consciência salutar perturbação; nalgum caso é perigo exterior, uma tempestade, a morte súbita de parente ou vizinho, que nos recordam da vaidade da ventura, da incerteza da vida; de outra vez será o encontro inesperado com algum homem de bem, uma boa leitura, uma palavra proferida como ao acaso. Mas, para falar ao nosso coração por intermédio dos sentidos, o Espírito Santo emprega especialmente as cerimônias da Igreja, as suas festas, os objetos do seu culto. Que fonte de santos pensamentos, de boas resoluções, de salutares emendas! Para os homens de má vontade, a proximidade da Igreja é importuna: sentem-se por toda parte assediados de bons pensamentos. Não é enternecedor o pensamento de que o Espírito Santo não quer abandonar-nos? Expulso de nosso coração, fica na vizinhança, e não cessa de nos convidar à reconciliação”25.
O principal meio para obtermos a Graça Atual é a oração. Há Graças Atuais que Deus nos concede sem as pedirmos: outros a mereceram para nós, como veremos ao estudar a Comunhão dos Santos. Mas a grande maioria das Graças Atuais que Deus desde toda a eternidade predestinou para nós, sobretudo as mais excelentes como a perseverança, a perfeição, uma morte santa, Deus as ligou à oração, a nossa oração pessoal. Quanto mais e melhor oração, mais e melhores Graças Atuais. E se alguém passa por algum problema na vida espiritual, é provável que na raiz dele esteja a falta de certas Graças Atuais de que teria necessidade, mas que Deus só lhe concederá mediante o recurso à oração prolongada, fervorosa e perseverante. Dizia Santo Afonso de Ligório: “Quem reza se salva; quem não reza se condena”. Sem oração, sem Graça Atual. Sem Graça Atual, sem força para resistir às tentações e vencer o pecado. Sem vencer o pecado, sem Graça Santificante. Sem Graça Santificante, sem salvação eterna...
“A necessidade da oração funda-se na necessidade da Graça Atual. É uma verdade de fé que, sem esta Graça, nos achamos em impotência radical de nos salvarmos (...). De nós mesmos, por melhor uso que façamos da liberdade, não podemos nem dispor-nos positivamente para a conversão, nem perseverar por tempo notável, nem sobretudo perseverar até à morte: ‘Sem Mim nada podeis fazer’, diz Jesus a Seus discípulos (Jo 15, 5); nem sequer ter um bom pensamento, acrescenta S. Paulo (II Cor 3,5), porque é Deus que opera em nós o querer e o fazer (Fil 2, 13). Ora, à parte a primeira graça, que nos é conferida gratuitamente, sem a pedirmos, pois que é o mesmo princípio da oração, é verdade constante que a oração é o meio normal, eficaz e universal pelo qual Deus quer que obtenhamos todas as Graças Atuais. Eis o motivo porque Nosso Senhor Jesus Cristo tão frequentemente nos inculca a necessidade da oração para alcançar a graça: ‘Pedi, diz Ele, e recebereis (...)’ (Mat 7,7). É como se dissesse, acrescentam quase todos os comentadores: se não pedirdes, não recebereis, se não buscardes não encontrareis. Esta necessidade da oração, Jesus inculca-a sobretudo quando se trata de resistir à tentação: ‘Vigiai e orai, para não cairdes em tentação; o espírito está pronto, mas a carne é fraca’ (Mat 26, 41). Donde conclui São Tomás que toda a confiança que não se funda na oração, é presunçosa, porque Deus, que não nos deve a Sua graça em rigor de justiça, não prometeu que no-la daria senão dependentemente da oração”26.
E essas tão acertadas reflexões, o padre Tanquerey as completa ainda com o seguinte aviso aos diretores espirituais, mas que nos ensina muito a todos: “Importa insistir nesta verdade [da necessidade absoluta da oração] com os principiantes; muitos, impregnados, sem o saberem, de pelagianismo ou semipelagianismo27, imaginam que com vontade e energia podem conseguir tudo. Dentro em breve, é certo, vem-lhes a experiência mostrar que as melhores resoluções ficam muitas vezes sem efeito, apesar de todos os esforços: o diretor tirará partido daí para lhes lembrar, sem nunca se cansar, que só pela graça [atual] e oração é que eles poderão chegar a cumpri-las” 28.
Segundo o padre Meschler, SJ, a oração “é mais necessária, sob um certo ponto de vista, do que os mesmos Sacramentos, porque os Sacramentos conferem-nos tal ou tal graça, enquanto que a oração pode obter-nos tudo; não se pode sempre receber os Sacramentos, mas sempre é possível recorrer à oração; sem a oração, em muitos caso se perdem as graças atuais a que os Sacramentos nos dão direito. O Concílio de Trento chega a dizer que a oração é tão necessária como a observância dos preceitos [divinos]: efetivamente, Deus pode fazer depender da oração as graças necessárias para observar os preceitos, conforme a palavra de Santo Agostinho: ‘Deus não ordena o impossível; mas, quando nos manda uma coisa, quer que façamos o que podemos e peçamos o que não podemos’. É portanto exato que em muitos casos não se podem guardar os preceitos, nem resistir à tentação, por não se sentirem forças para isso; é muito possível que não tenhais essa força, mas, pelo menos, tendes força para orar e por meio da oração alcançar a graça29”. Quer dizer: sem oração é impossível evitar o pecado, e impossível, pois, evitar a condenação eterna.
Diz também o Padre Schrijvers: “Não há correspondência à graça, sem contínuo novo auxílio de Deus.
Não há contínuo auxílio de Deus, sem incessante oração.
Engana-se, portanto, quem se contenta com esperar a perfeição e os meios para chegar a ela, se não põem esta condição necessária: orar, e orar o mais continuamente que possa.
Por não haver compreendido esta necessidade iniludível da oração, são numerosas as almas que nunca chegam à santidade de seu estado”.
“Toda a perfeição, como também a salvação, está pendente de um só fio. O que reza se salva e o que não reza se condena. Quem reza constantemente se santifica, e quem não reza senão a intervalos permanece imperfeito” 30.
Um erro, porém, na vida de oração, muito propagado hoje em dia, consiste naquilo que poderíamos chamar de “temporalismo”: coloca-se o objetivo da oração em coisas relacionadas à vida natural e não à Vida Sobrenatural, relacionadas à vida temporal e não à Vida Eterna. Preocupam-se muito, por exemplo, em rezar pela saúde física dos doentes, mas ficam indiferentes ao horroroso espetáculo das almas em estado de pecado mortal, ao passo que, diante de Deus, a humanidade inteira ser despedaçada por uma lepra, por exemplo, não é nada em comparação com um só casal fazer uso da pílula contraceptiva, pois isto é um pecado mortal, algo que ultraja infinitamente a Deus e leva as almas para o inferno, enquanto que a lepra, aceita com paciência, é até meio de expiação e santificação. Quer dizer: o que mais importa para Deus é a nossa Vida Sobrenatural, e não a nossa vida natural e, portanto, erram muito os que fazem da vida natural o principal objeto de suas orações. É muito mais urgente que supliquemos a graça de não irmos para o inferno, do que um emprego, por exemplo. Deus não nos criou para a felicidade neste mundo, mas no outro. Sem compreender isso não se compreende nada mais na vida espiritual31...
5. O Mérito
Sempre que algum mortal em estado de Graça Santificante realiza uma obra boa ou indiferente, motivado por alguma intenção sobrenatural, religiosa, essa pessoa está praticando o que se chama de um “Ato Sobrenatural”, o qual lhe dá direito diante de Deus a uma recompensa sobrenatural. Esse direito chama-se “mérito” e a recompensa dele é dupla: aumento de Graça Santificante já nesta vida e aumento de Glória no Céu. Quanto mais méritos alguém adquire, mais possui Graça Santificante e mais Glória possuirá no Céu, por toda a eternidade. E se se considera que a todo instante podemos adquirir méritos, se compreende então o valor do tempo: cada segundo meritoriamente aproveitado traz-nos tesouros inimagináveis e eternos...
Sucede porém que, para adquirir méritos para a eternidade, é indispensável estar em estado de Graça Santificante e agir por motivo sobrenatural.
Quem está em estado de pecado, por mais que faça boas obras, não receberá nenhuma recompensa por elas na eternidade, o que significa um prejuízo simplesmente sem medida. Isso porque “o ato de um homem tem valor humano; o ato do filho [adotivo] de Deus tem valor divino32”, e só são filhos de Deus os que possuem a Graça Santificante.
Diz um certo autor:
“Certa vez, li na secção de pequenas notícias de um jornal que um homem construiu uma casa para a sua família. Ele mesmo executou quase todas as obras, investindo todas as suas economias nos materiais. Quando a terminou, verificou com horror que se tinha enganado de propriedade e que a tinha construído no terreno de um vizinho. Este, tranquilamente, apossou-se da casa, enquanto o construtor não pode fazer outra coisa senão chorar o dinheiro e o tempo perdido.
Por lamentável que nos pareça a história deste homem, não chega a ter importância se a compararmos com a da pessoa que vive sem a Graça Santificante. Por nobres e heróicas que sejam as suas ações, não têm valor aos olhos de Deus. Se não recebeu o Batismo ou está em pecado mortal, essa alma separada de Deus vive os seus dias em vão. As suas dores e tristezas, os seus sacrifícios e bondades, tudo está desprovido de valor eterno, desperdiça-se diante de Deus. Não existe mérito no que faz” 33.
E quem, embora estando em estado de Graça, não tem uma intenção sobrenatural naquilo que faz, também não terá recompensa. Diz o Padre Meschler: Para nossas boas obras serem meritórias para a eternidade, “além do estado de Graça Santificante e do auxílio da Graça Atual, é necessário – e basta – uma intenção sobrenatural. Tal intenção é necessária a toda obra para ser meritória. (...) A razão disto é que motivo natural não pode produzir mérito sobrenatural” 34.
Exemplo: uma mãe desvela-se em cuidados pelo filho doente, não por um motivo sobrenatural, mas apenas por natural amor materno – tal mãe perde uma mina de tesouros para a eternidade. Agora, se a mesma mãe formulasse sinceramente, ao menos de vez em quando, um oferecimento, uma intenção sobrenatural para o que faz, declarando em suas orações, por exemplo, cuidar do filho por amor de Deus, ou para a maior glória de Deus, ou para expiar os próprios pecados, etc., então sim, suas ações seriam sobrenaturalmente meritórias, e tanto mais meritórias quanto mais perfeita for a intenção escolhida.
Mesmo ações indiferentes, isto é, comuns, como andar, comer, dormir, etc., podem ser meritórias, se feitas em estado de Graça e com alguma intenção sobrenatural, (a qual não precisa, porém, ser renovada a cada segundo). Donde a imensa importância do oferecimento do dia e de formularmos intenções santas no decorrer do dia, principalmente ao começar as tarefas principais, dizendo, por exemplo, “é por Vosso amor, meu Deus, que faço este trabalho”, ou “é em reparação de meus pecados que sofro esta dor”, etc.
Convém sublinhar bem isto: mesmo as obras mais virtuosas, se forem feitas apenas por motivos naturais, sem qualquer relação ao sobrenatural, não tem valor em ordem à salvação eterna. Iludem-se, pois, por exemplo, os que pensam que fazendo obras de caridade para com o próximo por amor ao ser humano, isto é, por filantropia, e não por amor a Deus, já cumprem o seu dever cristão.Veja o que diz sobre isso o Padre Emmanuel-André:
“Quando um cristão perde o amor sobrenatural do próximo, não perde, por causa disso, essa inclinação natural de amar seus semelhantes; e a ilusão consiste em se contentar com a inclinação natural, como se ela bastasse para cumprir com o dever de amar o próximo.
Essa nova ilusão não é tão rara quanto se pode acreditar. O sr. X era rico, absorvido por seus negócios, seu comércio, talvez seus prazeres, vivia alheio a Nosso Senhor Jesus Cristo e não dava nada a Deus. Mas era generoso para com os pobres. Morreu quase repentinamente e certamente não teve tempo de arrepender-se de uma vida tão pouco cristã. Ora! Ouviram-se vozes que lhe prometeram a vida eterna por suas obras beneficentes, fruto natural da inclinação natural que tinha por seus semelhantes.
A ilusão naturalista consiste em se contentar com as obras naturais, quando Deus pede obras sobrenaturais. (...) Assim, os cristãos não têm com que se enganar: devem fazer sobrenaturalmente as obras essencialmente sobrenaturais e, tanto quanto possível, elevar até um fim sobrenatural as obras que são naturais em si mesmas” 35.
Ouçamos também este comentário de Santo Afonso de Ligório sobre o valor de sobrenaturalizarmos as intenções de nossas obras:
“Nossas obras só serão perfeitas e santas quando praticadas com a intenção de agradarmos a Deus. (...) Compenetrado disso, dizia o Padre Rodríguez que a boa intenção é uma arte celeste de fabricar ouro, que transforma o ferro em ouro, pois as amais simples ações, como comer, dormir, trabalhar, recrear-se, etc., transformam-se no ouro da santa caridade, quando são executadas por Deus. (...) Esforça-te, pois, alma cristã, em referir a Deus, todas as manhãs ao despertares, todas as ações do dia, e a oferecer-lhas [a Deus] em união com o que o Divino Salvador praticou aqui na terra, porque assim tornam-se sumamente agradáveis a Deus. Deves também renovar essa boa intenção no começo de cada ação ou, ao menos, de cada obra importante, como quando queres te dar à oração ou à meditação, receber a santa Comunhão, ouvir a santa Missa, começar tuas ocupações, pôr-te à mesa e recrear-te, etc. Dize então, ao menos interiormente: Senhor, não quero com isto buscar minha satisfação própria, mas cumprir unicamente com Vossa Santa Vontade.
Narra o padre Saint-Jure, que um piedoso eremita tinha o costume de, antes de qualquer trabalho, levantar os olhos para o céu e permanecer assim por algum tempo. Perguntaram-lhe um dia o que fazia em tais momentos, e ele respondeu: ´Procuro assegurar-me de um bom tiro’. Queria dizer que, assim como o atirador visa bem o alvo para dar à seta a direção conveniente, assim também devemos dirigir, antes de nossas ações, nossa vista para Deus, para lhes assegurar seu valor sobrenatural” 36.
Como, porém, muitos homens são insensatos! Atravessam mares para conseguir um pouco mais de dinheiro, e não dão um passo para obter méritos para a vida que nunca acaba... Mesmo quando se salvassem, que diferença entre o Céu deles, que morreram com meia dúzia de méritos, e o Céu de um católico fervoroso, com milhares e milhares de méritos! Se se pensa que cada mérito dá direito a um novo grau de Glória, o que vem a ser um novo Céu, ou seja, uma nova plenitude de felicidade imortal, pode-se imaginar quanto Céu perdemos por, em nossa preguiça, não acumularmos mais e mais méritos... Ao trabalho, pois! “Lança o teu pão sobre as águas que passam, porque depois de muito tempo o acharás” (Ecl 11, 1): um pequeno mérito, obtido num rápido instante perdido nas correntezas do tempo, e daqui há um milhão de anos sua recompensa ainda estará só começando...
“Não queirais entesourar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consome, e onde os ladrões os desenterram e roubam, mas entesourai para vós tesouros no Céu, onde nem a ferrugem, nem a traça os consome, e onde os ladrões não os desenterram e roubam” (Mat 6, 19-20).
Muito embora, porém, todo ato sobrenatural praticado em estado de Graça Santificante nos mereça um aumento desta mesma Graça (e de sua correspondente Glória no Céu se nos salvarmos), todavia, esse aumento nem sempre ocorrerá instantaneamente após a obtenção do mérito, mas apenas quando praticarmos algum ato de amor a Deus mais intenso do que o habitual para nós.
Isso é explicado com ótimos argumentos por São Tomás de Aquino37, e podemos resumi-lo assim: a única virtude cujo exercício faz aumentar a Graça Santificante numa alma é a Caridade, ou seja, o amor a Deus. Os atos das outras virtudes serão mais ou menos meritórios à medida em que forem feitos por motivos mais ou menos em relação direta com a Caridade (amor a Deus). No entanto, os méritos adquiridos pela alma só produzirão nela o aumento real de Graça Santificante que merecem, quando houver nessa alma a disposição física (isto é, real) necessária para esse aumento. E tal disposição é exatamente o realizar um ato de Caridade (amor a Deus) mais intenso do que se estava habituado a fazer até aquele momento. Essa intensidade, porém, nada tem haver com os sentimentos: consiste, antes, na perfeição dos motivos do ato em questão. Se a pessoa morrer antes de produzir esse “ato mais intenso” de amor a Deus que o seu hábito até ali, aqueles méritos adquiridos por atos menos fervorosos ficam sem seu pleno efeito para a eternidade, mas ainda recebem no Céu outras recompensas que não uma maior Visão Beatífica, a qual é prêmio só dos graus de Graça Santificante.
Assim, por exemplo, uma certa pessoa, em estado de Graça, é fiel às suas orações diárias e pratica até algumas mortificações. Tudo isso é excelente, e lhe faz adquirir muitos méritos sobrenaturais, os quais, como explicamos, lhe dão direito a aumentos de Graça Santificante nesta vida e de Glória (Visão Beatífica) na outra. Esse aumento de Graça, porém, só ocorrerá no momento mesmo das referidas orações e penitências, se estas forem feitas então de modo mais fervoroso que o habitual dessa pessoa até aí. (Fervor aqui não significa sentimentos ardentes, mas motivos mais perfeitos e intenções mais puras). Já se essas orações e penitências de nosso exemplo, forem feitas com fervor apenas mediano, que não supere o já habitual para essa pessoa, então o seu aumento de Graça Santificante merecido só ocorrerá de fato em sua alma quando ela fizer alguma boa obra (que pode ser até uma brevíssima oração) com maior fervor que o seu habitual. (Claro que isso depende também de recebermos uma Graça Atual maior que a de costume, o que, segundo a Providência comum de Deus, depende das orações desta alma.) Nesse momento sim, se darão em sua alma, de uma só vez, todos os aumentos de Graça Santificante merecidos pelas boas obras de fervor mediano. Porém, se essa mesma pessoa morrer sem ter feito esse bendito ato mais fervoroso, que daria pleno efeito àqueles méritos adquiridos com atos menos fervorosos, o que acontece então é que estes ficarão para sempre sem produzir o aumento de Graça Santificante que lhes corresponderia, e assim não proporcionarão à alma também nenhum aumento de Visão Beatífica no Céu por eles, se ela se salvar. No Céu, estes atos feitos com fervor mediano e que não foram completados antes da morte com algum ato de fervor mais intenso, só serão recompensados com prêmios acidentais, ou seja, outros tipos de alegria celeste que não a Visão Beatífica, já que esta última é proporcional apenas aos graus de Graça Santificante realmente adquiridos pela alma na vida terrena.
De toda essa doutrina, aprendida de São Tomás de Aquino, devemos concluir a imensa importância de evitarmos ao máximo toda espécie de tibieza em nossa vida espiritual, e de procurarmos, portanto, fazer nossas boas obras com toda a perfeição, sobretudo interior, de que formos capazes, com o auxílio da Graça Atual. Senão, nos expomos ao grande risco de que nossas boas obras, por mais numerosas que sejam, não aumentem em nós a Graça Santificante, se morrermos antes de realizarmos algum ato de amor a Deus mais intenso que o nosso hábito. E quanto menos possuirmos Graça Santificante na hora da morte, menor também será a nossa Visão Beatífica por toda a eternidade (o que significaria uma perda imensa e irreparável). Fervor e perfeição pois, sejam a nossa meta no serviço dAquele que já nos avisou que a frouxidão e tibieza espiritual lhe causam nada menos que ânsias de vômito (cf. Apoc 3, 15-16).
Quando uma alma cai em pecado grave, perde com isso todos os méritos que havia adquirido até então, ficando tão pobre para a eternidade como se nunca tivesse feito a menor boa obra. Todavia, convertendo-se e confessando-se bem, a alma readquire os méritos perdidos, mas só os recupera totalmente se seu arrependimento, no ato de recobrar a Graça, for pelo menos tão intenso quanto o fervor espiritual que ela tinha até cair no pecado. E como é difícil que o pecador consiga isso debilitado como está pela culpa, segue-se daí que, na maior parte das vezes que uma alma cai em pecado grave, se se levanta depois, levanta-se então com menos méritos do que tinha acumulado antes: quantas perdas sobrenaturais de valor incalculável o pecado causa!
Convém notar, que é apenas nesta vida que se podem adquirir méritos para a eternidade. Passados os portões da morte, o que está feito, está feito, e o mérito que não se adquiriu, perdido ficou para sempre. Na outra vida já não há mais como adquirir novos méritos, nem no inferno (é claro), nem no Purgatório ou no Céu.
Diz-nos a Sagrada Escritura: “Filho, aproveita o tempo” (Ecl 7, 40).
“Virá a noite, em que ninguém poderá fazer mais nada” (Jo 9, 4).
E, segundo Santo Afonso:
“Afirma São Bernardino de Sena que um só momento vale tanto como Deus, porque nesse instante, com um ato de contrição ou de amor [a Deus], pode o homem adquirir a Graça divina e a Glória eterna.
O tempo é um tesouro que só se acha nesta vida, e não na outra, nem no Céu nem no inferno. É este o grito dos condenados: ‘Oh! Se tivéssemos uma hora!”... Por todo o preço comprariam uma hora a fim de reparar sua ruína; porém, esta hora jamais lhes será dada. No Céu não há pranto; mas se os Bem-Aventurados pudessem sofrer, chorariam o tempo perdido na vida mortal, o qual lhes poderia ter servido para alcançar grau mais elevado na glória; porém, já se passou a época de merecer. Uma religiosa beneditina, depois da morte, apareceu radiante de glória a uma pessoa, e lhe revelou que desfrutava plena felicidade, mas se algo pudesse desejar, seria unicamente voltar ao mundo para sofrer mais e assim alcançar maior mérito. Acrescentou que, de boa vontade, sofreria até ao dia do Juízo [Final] a dolorosa enfermidade que a levou à morte, contanto que [assim] conseguisse [ao menos] a glória que corresponde ao mérito de uma só Ave-Maria (...). Se nos cedessem a propriedade do terreno que pudéssemos percorrer em um dia, ou o dinheiro que pudéssemos contar em um dia, que de esforços não faríamos?! Pois, se podemos adquirir em um instante tesouros eternos, por que havemos de malgastar o tempo?” 38
E São João Maria Vianney, o padroeiro dos sacerdotes, diz-nos:
“Há que trabalhar neste mundo, há que combater. Teremos bastante tempo para repousar em toda a eternidade”. “Se compreendêssemos bem a nossa felicidade, quase poderíamos dizer que somos mais felizes do que os Santos no Céu. Eles vivem dos seus rendimentos, não podem mais ganhar [méritos], ao passo que nós podemos a cada instante aumentar o nosso tesouro” 39.
Por ora facilmente nos assustamos com o sofrimento. Entretanto, dia virá em que, no Céu, os Eleitos se queixarão, docemente, ao Cordeiro, apenas de uma coisa: de não terem mais neste mundo. Como diz o Padre Bernardes: “Quereria qualquer justo [no Céu] que toda a sua vida neste mundo houvesse sido cruzes, tentações, infernos [de sofrimento]. Um desprezo bem sofrido vale então um reino, e reino de Deus. Agora anda esta fazenda em leilão e dá-se de graça, ninguém lança sobre ela nada e todos fogem. É cegueira nossa, que temos o precioso por vil e o vil por precioso. Então veremos a verdade” 40.
E, se não pudermos com muito, não esqueçamos de que mesmo as mais pequenas boas obras, feitas em estado de Graça e por amor a Deus, são suficientes para nos acumularem tesouros inimagináveis. Continue a nos instruir, e termine este capítulo, o grande Padre Bernardes: “O Espírito Santo manda aos descuidados que aprendam da formiga: ‘Vade ad formicam o piger’ [‘Vai ter com a formiga, ó preguiçoso’ (Prov 6,6)], porque a formiga grão a grão enche o seu celeiro; não pode mais que um grão, mas esse com que pode, leva-o e aproveita-lhe. Pois esta a lição que devemos aprender os descuidados: que quando não possamos mais que com um grão, ao menos esse juntemos, que fazendo isso muitas vezes, teremos celeiro de boas obras” 41.
6. As Virtudes Infusas
A Graça Santificante nunca vem sozinha a uma alma. É sempre acompanhada, como rainha seguida por um cortejo, pelas Virtudes Infusas e pelos Dons do Espírito Santo.
As Virtudes Infusas são capacidades sobrenaturais que Deus mesmo infunde na inteligência e na vontade da alma juntamente com a Graça Santificante, tornando-a capaz de realizar atos sobrenaturais, isto é, atos com intenção sobrenatural, o que, apesar de parecer tão simples, a alma não conseguiria só com as suas forças naturais.
Deus, que não pode ser menos esplendidamente providente na ordem sobrenatural do que o é na ordem natural, assim como dota os seres físicos das capacidades de que necessitam para agir naturalmente, assim também dota a alma em estado de Graça das capacidades de que precisa para conservar e desenvolver sua Vida Sobrenatural. Essas “capacidades sobrenaturais” são as Virtudes Infusas e os Dons do Espírito Santo.
Dos Dons depois falaremos. Quanto às Virtudes Infusas, são sete as principais: Fé, Esperança, Caridade, Prudência, Justiça, Fortaleza, e Temperança. Todas essas virtudes se encontram em toda alma em estado de Graça, por exemplo, na alma da criançinha recém-batizada, não enquanto atos conscientes nesta, é claro, mas enquanto potencialidade, capacidade sobrenaturais que, um dia, utilizadas, permitirão àquelas crianças realizar suas ações com intenções sobrenaturais, ou seja, produzir atos sobrenaturais. Assim como, na ordem natural, precisamos da potência do entendimento para produzir pensamentos, assim também, na ordem sobrenatural, precisamos dessas potências infusas na alma, para produzir atos sobrenaturais.
Note-se, todavia, que as Virtudes Infusas não significam uma facilidade para fazer o bem sobrenatural, mas só a potência, a capacidade para fazê-lo, que não teríamos sem o auxílio divino. A facilidade vem com o exercício da Virtudes, à medida em que estas capacidades sobrenaturais vão sendo utilizadas na prática. O pecador que acaba de converter-se recebe sempre, com a Graça Santificante, todas as Virtudes cristãs, enquanto potências sobrenaturais infusas em sua alma, mas ainda poderá ter, a princípio, dificuldades no exercício de uma ou outra virtude, visto a plena facilidade só vir com o tempo, com a repetição dos atos que caracterizam essas virtudes.
Uma alma que nunca possuiu a Graça Santificante também pode, é verdade, realizar atos sobrenaturais, sob o influxo da Graça Atual, que supre então as Virtudes Infusas, mas será sempre um estado violento, anormal, de operação, visto que nesse caso Deus acaba tendo de fazer atos sobrenaturais saírem das potências (capacidades) puramente naturais da alma, o que significa uma tremenda desproporção. Já quando a alma possui a Graça Santificante, possui também, com esta, as Virtudes Infusas, capacidades sobrenaturais acrescentadas às suas capacidade naturais, e que permitem à Graça Atual agir na alma de modo proporcionado, harmonioso, fazendo com que os atos sobrenaturais desta sejam produzidos por potências (capacidades) também sobrenaturais.
Perdendo-se a Graça Santificante pelo pecado grave, perdem-se também todas as Virtudes Infusas, exceto a Fé e a Esperança (se o pecado não for diretamente contra estas), voltando a alma, para o exercício de atos das outras Virtudes, àquele estado violento de desproporção absoluta entre suas capacidades naturais e a produção de atos sobrenaturais, apuro que seria insolúvel sem a intervenção da Graça Atual. E, por outro lado, quanto mais aumenta numa alma a Graça Santificante (pelos Sacramentos e atos meritórios), mais aumentam nela as Virtudes Infusas, isto é, o poder, a capacidade sobrenatural de realizar os atos próprios daquelas Virtudes.
Como dizíamos, são sete as principais Virtudes Infusas. Três delas (Fé, Esperança e Caridade) são chamadas de “Virtudes Teologais”, por se destinarem a regular as relações diretas da alma com Deus, e as outras quatro (Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança) recebem o nome de “Virtudes Morais”, e se destinam a ajudar a alma a empregar os meios convenientes para alcançar o bem sobrenatural. E há ainda outras Virtudes Infusas, ligadas às Virtudes Morais.
Vejamos ao menos um pouco de cada Virtude. Após as sete principais, seguem outras que são como que anexas às Virtudes Morais. Evidentemente, muito mais haveria a dizer sobre cada Virtude, mas, por brevidade, daremos apenas as noções principais delas:
-Fé: é crer em tudo quanto Deus revelou e nos ensina por meio da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, Sua única Igreja, e crer precisamente pelo motivo de que foi Deus, a Suma Verdade, que não pode se enganar nem enganar a nós, que o revelou. É uma aceitação e convicção intelectual das verdades reveladas por Deus e transmitidas pela Igreja.
-Esperança: é confiar que, pelos méritos de Jesus, não nos faltaram as Graças Atuais de que temos necessidade para a salvação eterna, embora conscientes de que fica sempre o perigo de nós mesmos não correspondermos a essas Graças e nos perdermos.
-Caridade: em seu grau básico e indispensável à salvação, é estar disposto a antes perder tudo, até a própria vida, que ofender a Deus com um pecado grave.
-Prudência: escolher com acerto os meios a empregar e os obstáculos a remover para obter os bens sobrenaturais, isto é, para obter a vitória sobre as tentações, o perdão dos pecados, a perseverança na Graça, o progresso nas virtudes, muitos méritos para a eternidade, etc.
-Justiça: cumprir as obrigações para com os outros e respeitar os legítimos direitos destes, e isso por motivo sobrenatural.
-Fortaleza: resistir aos ataques dos inimigos de nossa salvação e atacá-los também, combatendo o pecado e insistindo na busca dos bens sobrenaturais, apesar de qualquer dificuldade.
-Temperança: ser moderado e equilibrado quanto aos alimentos e bebidas, e guardar a castidade própria de seu estado, por causa de Deus.
-Religião: prestar a Deus o culto particular e público que Lhe é devido.
-Dulia: prestar aos Anjos e Santos do Céu, principalmente à Santíssima Virgem Maria, a veneração que Lhes é devida por Sua proximidade e união com Deus.
-Humildade: reconhecermos o nosso próprio nada diante de Deus e aceitarmos, inclusive, ser maltratados pelos outros, como sempre o merecemos por nossos pecados.
-Pobreza: ser desapegado dos bens materiais, renunciando a gastos e luxos desnecessários, e isto por razões sobrenaturais.
-Castidade: fazer uso da sexualidade apenas no contexto do Matrimônio, e mesmo então sem jamais recorrer a qualquer forma de contracepção.
-Obediência: executar fielmente as ordens de nossos legítimos superiores na Igreja e na sociedade, exceto se a ordem dada envolver algum pecado para ser obedecida.
-Paciência: sofrer com calma as dores e dificuldades da vida presente, aceitando-as por alguma intenção sobrenatural (por amor a Deus, para expiar os próprios pecados, para imitar a Jesus Crucificado, etc.).
-Zelo: procurar ajudar as outras almas na obtenção dos bens sobrenaturais, de todas as maneiras que se possa.
-Mortificação: impormo-nos a nós mesmos, por razões sobrenaturais, privações ou dores (por exemplo, jejuar, abster-se de certos alimentos, dormir menos, chicotear-se, ficar ajoelhado longo tempo, etc.).
-Magnanimidade: fazer grandes coisas por Deus e pelas almas, sem contentar-se com a mediocridade e a tibieza.
-Magnificência: não recear fazer gastos financeiros notáveis para a realização de boas obras.
-Estudiosidade: procurar adquirir conhecimentos, principalmente religiosos, para empregá-los no serviço a Deus e para ajudar nossa própria vida espiritual e a dos outros.
-Diligência: aproveitar bem o tempo, empregando-o na prática de boas obras, na aquisição de méritos para a eternidade.
-Mansidão: tratar o próximo com bondade, por causa de Deus.
-Veracidade: nunca mentir e ser fiel à palavra empenhada, em respeito ao oitavo Mandamento.
-Piedade: amar e respeitar os pais e a Pátria, não por mero afeto natural, mas por obediência a Deus, que o manda.
-Compaixão: compadecer-se dos que sofrem e procurar ajudá-los, por Deus.
-Perseverança: persistir na Vida Sobrenatural (isto é, em viver em estado de Graça Santificante e progredir pela prática das Virtudes) até ao fim da vida natural.
O que distingue essas Virtudes Sobrenaturais das outras virtudes naturais que às vezes lhes são correspondentes é o fato de serem elas infusas por Deus mesmo na alma junto com a Graça Santificante (como acima explicamos) e referirem-se todas e sempre ao bem sobrenatural e a razões, motivos também sobrenaturais. Assim, por exemplo, pagar as dívidas por simples honradez é praticar um ato natural de justiça. Já pagar as dívidas por amor a Deus é um ato sobrenatural de Justiça Infusa. Exteriormente os dois atos podem ser iguais, mas a sua motivação, ou seja, o que não se vê, faz toda a diferença diante de Deus.
Exercitar-se nessas Virtudes Sobrenaturais é o vale diante de Deus, e não o ter habilidades meramente naturais. E se temos Fé, é isso também o deve contar na nossa apreciação das coisas. Conta-nos o Padre Alonso Rodríguez, SJ, que São Fulgêncio abade, “quando via que alguns de seus religiosos eram muito trabalhadores, e que não paravam o dia inteiro de servir e ajudar em casa, mas via, por outro lado que nas coisas espirituais não eram tão diligentes (...), a estes não os amava nem estimava tanto, nem lhe pareciam que eram dignos disso. Mas quando via algum muito afeiçoado às coisas espirituais e muito cuidadoso de seu aproveitamento [espiritual], ainda que por outro lado não pudesse fazer nada em casa, nem servir de nada por ser fraco e enfermo, a estes disse que lhes tinha particular amor e os estimava muito” 42. Afinal, foi a mesma Suma Verdade que ordenou: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a Sua justiça [isto é, a santidade], e todas estas coisas [necessárias à vida natural] vos serão dadas de acréscimo” (Mat 6, 33).
Todo o esforço que tivermos de fazer para exercitar-nos nas Virtudes, vale inteiramente a pena. Bossuet, aquele famoso orador francês, disse: “Para chegar à montanha, à Santa Sião, cujo caminho é tão íngreme e tão reto, aos que se não esforçam por subir sempre, arrasta-os o declive e precipita-os o próprio peso. De tal modo que, na estrada da salvação, quem não corre, torna a cair; quem esmorece, logo perece; quem não faz tudo, nada faz; caminhar, enfim, a passo lento, o mesmo é que tornar inevitável a queda” 43.
E Santo Afonso explica:
“O reino dos Céus se alcança à viva força e só os que a empregam é que o arrebatam (cf. Mat 7, 14; 11, 12). Quem não fizer violência a si mesmo, não se salvará. Isso é imprescindível, porque, se quisermos praticar o bem, teremos que lutar contra a nossa natureza rebelde. É particularmente necessário violentarmo-nos no princípio para extirpar os maus hábitos e adquirir os bons. Formado o bom costume, torna-se fácil e até doce a observância da Lei Divina. O Senhor disse à Santa Brígida que, na prática das virtudes, os espinhos se mudam em rosas quando, com valor e paciência, sofremos as primeiras dores desses espinhos” 44.
Não pensemos que seja triste e melancólica esta vida virtuosa. Antes, muito pelo contrário, como bem o testemunhou o mesmo Santo Afonso: “Ó meu Deus! Os pecadores desprezam a vida espiritual sem tê-la experimentado. Vêem somente, diz São Bernardo, as mortificações que sofrem os amigos de Deus, e os deleites de que [estes] se privam; mas não consideram as inefáveis delícias espirituais com que o Senhor os cumula e acaricia. Ah! Se os pecadores provassem a paz de que desfruta a alma que só ama a Deus! ‘Experimentai e vede – diz David – quão suave é o Senhor’ (Sl 33, 9). (...) Provai e vereis. Quem não experimentar não poderá compreender o quanto Deus sabe contentar uma alma que O ama” 45. Amar a Deus, porém, e ficar ocioso na vida espiritual, são coisas incompatíveis. “As obras são a prova do amor”, como já dizia São Gregório Magno46.
E Nosso Senhor leva extremamente a sério os nossos esforços em exercitarmo-nos na Virtude por amor d’Ele. À Santa Teresa de Ávila, o Senhor disse: “Aguardo o dia do Juízo para fazer ver aos homens o quanto Me amaste” 47.
Podemos exercitar-nos nestas Virtudes até simplesmente formulando, na oração, declarações referentes a elas. Assim, por exemplo, quando se diz: “Senhor, eu me reconheço um miserável pecador, digno de mil infernos”, se está fazendo um ato da virtude da Humildade. No número 48 das Notas Complementares ao final deste trabalho, inserimos os atos das três principais Virtudes: Fé, Esperança e Caridade, atos cuja formulação freqüente é mais do que necessária a todo cristão que queira ser fervoroso.
De modo algum nos preocupemos com o que o mundo disser de nós se nos dedicarmos à prática das santas Virtudes. Diz-nos o Padre Bernardes: “O mundo há de ser vosso juiz, ou Cristo? O mundo há de vos salvar ou Cristo? O mundo há de perdoar-vos os pecados, ou Cristo? Pois [então] tratai vós de agradar a Cristo, com quem esperais viver eternamente, e zombai do mundo, onde não sabeis se vivereis até amanhã” 49. E ainda: “Singularidade viciosa e repreensível é a do não é bom entre os bons, e não a do que é bom entre os maus, ou entre os bons melhor” 50.
7. Os Dons do Espírito Santo
Todas essas riquezas que representam as Virtudes Infusas em nossa alma se ela está em Graça, nós as possuímos, porém, imperfeitamente, no sentido de não sermos capazes de utilizar plenamente essas potencialidades sobrenaturais. Mesmo com a ajuda da Graça Atual, só podemos exercitar as Virtudes Infusas de um modo humano, limitado e imperfeito pois. Para suprir esta limitação, Deus mesmo infunde na alma, no momento da Justificação, juntamente com a Graça Santificante e as Virtudes Infusas, aquilo que a Igreja chama de Dons do Espírito Santo.
Os Dons do Espírito Santo são potências, isto é, capacidades sobrenaturais, infusas na alma em Graça, e que possibilitam a essa alma ser exercitada na prática das Virtudes de modo sobrehumano.
Enquanto que as Virtudes Infusas são capacidades sobrenaturais que Deus dá à alma deixando a esta o trabalho de utilizá-las, os Dons são capacidades sobrenaturais que Deus infunde na alma para Ele mesmo agir através delas. A alma é ativa quanto ao exercício das Virtudes Infusas, e passiva quanto ao exercício dos Dons do Espírito Santo. É o Espírito Santo mesmo que, na hora em que quer, faz o Dom entrar em atividade, bastando a alma não se opor. E como é o próprio Espírito Santo que está em ação quando um Dom se manifesta, por isso os atos que daí decorrem são marcados por uma perfeição sobrehumana, ao contrário de quando nós mesmos exercitamos as Virtudes com nosso modo humano e imperfeito. É sob a ação dos Dons que a alma poderá vir a exclamar, com São Paulo Apóstolo: “Eu vivo, já não eu, mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20).
Os mestres da vida espiritual comparam os Dons do Espírito Santo às asas da ave e às velas do navio: assim como a ave é mais rápida e desenvolta voando do que andando, e o navio é mais veloz com velas do que com remos, assim também a alma é santificada com mais prontidão e facilidade pela ação dos Dons nela, do que por seus próprios esforços no exercício das Virtudes (os quais são também, todavia, absolutamente indispensáveis).
Como diz o Padre Meschler em sua excelente obra sobre o Espírito Santo: “Os Dons permitem-nos praticar o bem com facilidade, prontidão e deleite. (..) Tornam-nos dóceis, ágeis, flexíveis aos movimentos do Espírito Santo. (...) A influência dos Dons torna possíveis atos para os quais não bastam virtudes ordinárias. (...) Por eles a alma se eleva facilmente aos altos cumes da perfeição” 51. E não se pense que buscar a perfeição, isto é, a santidade, seja um luxo e algo de que podemos dispensar-nos facilmente. Como explica o Cônego Ribet: “Demasiado importa a salvação, para a não garantir o mais possível, e é grosseira imprudência querer alguém cingir-se apenas ao estritamente indispensável” 52.
Normalmente, os Dons só agem de modo habitual na alma após ela ter se purificado completamente do pecado e ter se exercitado muito na prática das Virtudes, isto é, após ela ter passado pelos estágios “purgativo” e “iluminativo” da vida espiritual. Entra a alma, então, no estágio “unitivo”, onde é o próprio Espírito Santo quem toma as rédeas de sua vida espiritual, fazendo atuar nela, de modo constante, os Seus 7 Dons53.
Quando isso ocorre, dizemos que a alma chegou ao estado místico da vida espiritual. Místico, portanto, é um católico que, após ter vencido todos os pecados em sua vida e exercitado-se perfeitamente em todas as virtudes, passa a ter os Dons do Espírito Santo em atividade plena e constante na sua alma, caracterizando-se então a sua vida por um modo sobrehumano de santidade. Enquanto não chegamos, porém, a este estado, os Dons só agem em nós aos poucos, de acordo com o grau de nossa correspondência.
Não somos capazes por nós mesmos de fazer os Dons entrar em atividade, o que podemos e devemos, todavia, é pedir ao Espírito Santo que atue em nós através de Seus Dons, e prepararmo-nos para essa atuação, evitando o pecado e exercitando as Virtudes Infusas como pudermos, a espera da hora em que os Dons completarão o que nossos esforços não conseguirem.
São sete os Dons do Espírito Santo: Sabedoria, Entendimento, Ciência, Conselho, Fortaleza, Piedade e Temor de Deus 54. Vejamos ao menos algo de cada um deles.
-Sabedoria: Dom que possibilita à alma um modo sobrehumano de amar a Deus. Provoca na alma uma espécie de conhecimento experimental de Deus, através de consolações espirituais inefáveis, fazendo a alma conceber um tal apreço por Deus e pelas coisas sobrenaturais, que ela passa a amar todas as outras coisas apenas enquanto sejam úteis à vida sobrenatural. É este Dom que causa nas almas aquela espécie de instinto divino que desconserta o mundo, amando a alma, por Deus, todas as coisas que o mundo rejeita (pobreza, cruzes, humilhações, etc.) e rejeitando tudo o que o mundo aprecia (riquezas, prazeres, honras, etc.). loucuras de amor a Deus o Dom da Sabedoria provoca nas almas, enchendo-as de luz em sua inteligência e calor em sua vontade, extremando-lhes a virtude da Caridade. Veja-se até onde este Dom levou os Santos...
-Entendimento: Dom que possibilita à alma uma espécie de conhecimento intuitivo das realidades sobrenaturais, que ela capta sem precisar recorrer ao raciocínio, mas num instante. Como por efeito duma luz instantânea. Sem chegar a cair o véu do Mistério, é como se a alma, sob a ação do Dom do Entendimento, visse o que não se vê. Essa profunda compreensão das verdades reveladas que nela surge, tem como resultado uma Fé indescritivelmente pura e firme: fé pura, pois mais que nunca crê só por ter sido a Verdade Suprema que o revelou, sem precisar de outro argumento; e fé firme, inquebrantável, ao ponto de que a alma morreria mil vezes pela fé, se preciso. Dois efeitos admiráveis desse Dom são também a facilidade e clareza para falar das coisas sobrenaturais, inclusive servindo-se de comparações e exemplos, e a grande destreza que confere à alma para identificar e refutar erros doutrinários, destreza que São Clemente Hofbauer chamava de “o faro católico”, aliás tão necessário em nossos dias...
-Ciência: Dom que possibilita à alma um modo sobrehumano de valorizar as diversas coisas criadas. Provoca na alma idéias acertadas acerca do valor das diferentes criaturas, em relação ao bem sobrenatural. Enquanto que o Dom de Sabedoria faz a alma querer e gostar ou não das coisas, de acordo com estas serem ou não úteis à vida sobrenatural, o Dom da Ciência faz a alma compreender, discernir intelectualmente o quanto e como cada criatura pode ajudar ou não a mesma vida sobrenatural. A alma, sob ação do Dom da Sabedoria, tem gostos diferentes dos do mundo. E sob a ação do Dom da Ciência tem idéias diferentes das do mundo. Para ela, como dizia Santa Teresa d’Ávila: “A vida é apenas uma noite que se passa em uma péssima hospedaria”. Esse Dom faz a alma ver o sentido, o significado sobrenatural oculto nas criaturas. Tudo lhe lembra o sobrenatural. Assim é que, por exemplo, a vista de uma flor fazia Santa Maria Madalena de Pazzi exclamar, com toda a profundidade de sua santa alma: “Meu Senhor pensou em criar esta flor, por meu amor, desde toda a eternidade”. E São Luis Gonzaga, diante das vaidades e preocupações humanas, costumava dizer: “E de que serve isto para a eternidade?” Ao passo, pois, que o mundo tem em alta conta as honras, por exemplo, e delas gosta muito, o Dom de Ciência fará a alma ter como nada as honras e ter em alta conta as humilhações, e o Dom de Sabedoria, pra completar, ainda a fará ficar triste e enojada com as honras, e contente e feliz com as humilhações, e tudo pelas mais perfeitas razões sobrenaturais. Pelo que se vê ser impossível uma conciliação entre o espírito do mundo e os Dons do Espírito Santo: o mundo só dá valor ao natural, enquanto que o Espírito Santo e Seus servos só almejam, como fim principal, o sobrenatural...
-Conselho: Dom que possibilita à alma um modo sobrehumano de tomar decisões práticas. Provoca na alma uma espécie de santa esperteza em se tratando de obter os bens sobrenaturais. Se o mundo ensina a ser esperto em conseguir riquezas materiais, o Dom do Conselho torna a alma esperta em acumular méritos para a eternidade. O mundo procurará maneiras de se distrair e divertir, e essa alma já terá encontrado maneiras de se recolher e mortificar. O Dom de Conselho indicará à alma modos concretos de evitar o pecado, exercitar as virtudes, ajudar as outras almas, etc. A Virtude Infusa da Prudência também faz isso, mas de modo lento, ponderado, através de raciocínios e sempre cercando-se de cautelas. Já o Dom de Conselho age de modo instantâneo, derramando directivas práticas na inteligência, sem a alma ter de raciocinar para ver o que fazer, concebendo propósitos totalmente orientados para a Vida Sobrenatural, os quais podem chegar a exigir tais heroísmos, que só o Dom da Fortaleza para realizar o que o Dom de Conselho ditou.
-Fortaleza: Dom que possibilita à alma um modo sobrehumano de praticar atos difíceis. Provoca na alma nada menos do que o heroísmo na Vida Sobrenatural. Como diz o Padre Lallemant, S.J. (+1653), “este dom é uma disposição habitual que põe o Espírito Santo na alma e no corpo, para fazer e sofrer coisas extraordinárias, para empreender as ações mais difíceis, para expor-se aos danos mais temíveis, para superar os trabalhos mais rudes, para suportar as penas mais horrendas, e isto constantemente e de uma maneira heróica” 55. Era este Dom que estava agindo quando um São Francisco Xavier enfrentava perigos e sofrimentos desumanos para converter os pagãos, ou quando uma Santa Verônica Giuliani rasgava o peito com um canivete para escrever o Nome de Jesus em sua própria carne, ao preço de um banho de sangue56... Não sabemos até onde o Dom de Fortaleza nos levará, mas sob sua ação podemos vencer todas as tentações e levar ao heroísmo a prática de todas as virtudes. E que proporção, por sinal, pode haver, entre os sacrifícios do cristão nesse mundo e a glória que um dia recompensará cada um deles, pelos séculos sem fim?
-Piedade: Dom que possibilita à alma um modo sobrehumano de cultuar a Deus e ajudar o próximo. Provoca na alma grandes desejos de agradar e honrar a Deus e de ser caridoso para com o próximo. É o Dom de Piedade que leva a alma a uma intensa vida de oração, à prática das devoções católicas, à delicadeza de consciência, ao exercício das obras de misericórdia corporais e, sobretudo, espirituais. É o Dom de Piedade que abrasa as almas de amor para com a Santíssima Virgem Maria, que lhes enche de devoção aos Anjos e Santos, bem como de zelo em sufragar as Almas do Purgatório. É ainda o mesmo Dom que nos move à compaixão pelas almas dos pagãos, hereges, cismáticos e pecadores de toda espécie, levando-nos a fazer o impossível para não se perderem essas almas que custaram o Sangue do Redentor. Várias Virtudes Infusas destinam-se também a esses efeitos, mas o Dom de Piedade os realiza com uma perfeição especial, heróica, sobrehumana, como vemos na vida dos Santos, cujas orações, por exemplo, eram sobremaneira fervorosas, atentas, prolongadas, perseverantes, e cujas virtudes todas eram marcadas por uma constante atenção até aos menores detalhes, e tudo pelas mais perfeitas intenções sobrenaturais. Até os objetos empregados no culto divino público ou particular vêm a ser cercados de veneração sob a influência do Dom da Piedade. Ah! Dom bendito! Quanto fostes afastado de certas “liturgias” de nossos ímpios tempos!...
-Temor de Deus: Dom que possibilita à alma um modo sobrehumano de respeitar a Deus. Provoca na alma uma espécie de terror sagrado ante a Majestade e a Justiça do Altíssimo, e um indizível horror ao pecado. A alma, pelo Dom do Temor, é repleta do sentido da gravidade das coisas sobrenaturais: se os mesmos Anjos tremem diante do Santo dos Santos (cf. Jó 26, 11), como não tremerá a alma do pobre pecador? O Dom do Temor concede à alma uma humildade incrível, uma espécie de percepção do abismo que a separa essencialmente de Deus. E vendo que há ofendido a esse Onipotente Senhor, e que ainda pode vir a perder-se eternamente, a alma, mais que nunca, se esforça por sua salvação “com temor e tremor” (Fil 2, 12), quase que sentindo o inferno aberto sob seus pés e a espada da Justiça Divina pendente sobre sua cabeça. A vida presente, é verdade, ainda é sempre tempo de Misericórdia, mas o “Dia da Ira” depressa chega, e não há palavras para descrever o que se passa na alma sob a ação do Dom do Temor, ante a possibilidade real de vir a ser separada de Deus, para sempre. Acresce a tudo isso a consideração do pecado em si mesmo que, como veremos no próximo tópico deste trabalho, representa o que de mais horrendo e odiável pode haver. É então que, após essas considerações e sentimentos sobrehumanos, a alma se lança a esforços também sobrehumanos para evitar o pecado e o inferno, empregando todos os meios, até os mais heróicos. O Dom do Temor representa, pois, o oposto perfeito daquela nefasta tendência à presunção, que se vem espalhando cada vez, e em conseqüência da qual multidões de contemporâneos nossos acham que basta-lhes ter sentimentos humanitários no coração para se salvarem... Como estava longe de tal atitude um São Luis Beltrão, por exemplo, que em muitas noites não conseguia conciliar o sono, de tanto terror que lhe inspirava a possibilidade de ainda ir para o inferno...
8. O Pecado
Esse organismo sobrenatural que Deus infunde na alma no momento de sua justificação – Graça Santificante, Virtudes Infusas e Dons do Espírito Santo – pode ser ferido, adoecer e até morrer, como efeito daquilo a que chamamos de pecado. Este é qualquer transgressão voluntária e consciente da Lei de Deus.
Primeiramente, importa distinguir, pois, entre pecado original e pecado atual.
O pecado original é uma mancha sobrenatural na alma, com a qual são concebidos e nascem todos os descendentes de Adão, em castigo do pecado com que este primeiro pai e chefe da raça humana rompeu sua amizade com Deus no paraíso terreal. Adão, que recebera, junto com a vida natural, também uma Vida Sobrenatural, e que devia legar esta como herança a todos os seus descendentes, perdeu-as, porém, pelo pecado e, em conseqüência, todos nós, descendentes de Adão, nascemos privados dessa preciosa herança, a qual incluiria, além da Graça Santificante, os vários dons magníficos que Adão possuía e perdeu pelo pecado: a imortalidade do corpo, a ausência de todo sofrimento, o perfeito domínio da razão sobre a sensibilidade, etc. Isso tudo significa que o pecado original é um estado de privação: os filhos de Adão somos concebidos e nascemos privados da Graça Santificante e demais benefícios sobrenaturais que todos receberíamos, no mesmo instante inicial de nossa vida, se Adão tivesse sido fiel a Deus. Desta maldição lançada sobre todo o gênero humano, só foram preservados Jesus, por ser Deus, e Maria, pelo privilégio de ter sido eleita para Mãe de Deus Humanado. E, graças ao Sangue do Redentor, também nós podemos, pelo Batismo, ser libertos da parte principal desta maldição: a perda da Graça Santificante.
O pecado original é, pois, algo que herdamos de nossos primeiros pais, e não uma culpa pessoal nossa. Já os pecados atuais são aqueles que nós mesmos cometemos no decorrer de nossa vida. Subdividem-se, por sua vez, em pecados graves (mortais) e pecados leves (veniais).
O pecado venial é uma transgressão da Lei de Deus em matéria leve ou em matéria grave mas sem se saber que o que se fazia era grave. Diferentemente do pecado grave, o pecado venial não expulsa a Santíssima Trindade da alma, não faz perder o estado de Graça Santificante e não leva a alma para o inferno. No entanto, o pecado venial também é uma ofensa à Infinita Majestade de Deus e, por isso, é ainda um mal maior do que todos os males naturais juntos. Aos olhos de Deus, o universo inteiro ser aniquilado seria um mal menor do que o cometimento do mais pequeno pecado venial. Além disso, o pecado venial predispõem a alma para o pecado mortal, afasta dela muitas Graças Atuais e acarreta-lhe penas temporais a serem sofridas neste mundo ou entre as cruéis chamas do Purgatório. Logo, é do nosso maior interesse evitarmos ao máximo também os pecados veniais. Como exemplos destes podemos citar: a irreverência e distrações voluntárias na oração, pequenas mentiras, pequenas perdas de paciência, comer ou dormir em verdadeiro excesso, etc.
Já se a transgressão for em matéria grave, cometida de modo voluntário e sabendo-se que era algo grave, comete-se então um pecado mortal.
Exemplos de pecados graves: duvidar de alguma das verdades ensinadas pela Santa Igreja; não cumprir o jejum nos dias preceituados pela Igreja para tanto; profanar um domingo ou dia santo com trabalhos servis não urgentemente necessários; vestir-se indecentemente; beijos durante o namoro ou noivado; assistir algo imoral na TV, como, por exemplo, novelas; ir a um culto protestante; evitar a concepção por meios artificiais (pílula, laqueadura, etc.); consentir em que os filhos vão a festas mundanas, etc. Toda pessoa que, livremente, comete algum desses pecados, sabendo que é pecado grave, peca, pois, gravemente. Repare-se, contudo, que estes são apenas alguns exemplos de pecados mortais, podendo-se citar muitos outros. Os pecados contra a castidade, por sinal, são todos mortais, se cometidos livremente e sabendo-se de sua gravidade, mesmo os maus pensamentos consentidos.
O pecado mortal é nada menos do que a maior desgraça do universo, literalmente falando, a tal ponto que somente a aniquilação da Santíssima Trindade (o que é impossível) seria mal maior que um pecado mortal.
Cometendo o pecado mortal, a alma perde:
a). O próprio Deus, que é assim expulso dela;
b). A Graça Santificante, rompendo-se toda união e amizade entre a alma e Deus;
c). As Virtudes Infusas todas, que desaparecem da alma (à exceção da Fé e da Esperança, se o pecado em questão não for diretamente contra estas);
d). Todos os Dons do Espírito Santo, o qual abandona a alma cheio de repugnância pela podridão do pecado;
e). Inúmeras Graças Atuais, que a alma receberia se permanecesse fiel;
f). Todos os méritos adquiridos em sua vida até então, e que tornam-se nulos;
g). A própria capacidade de adquirir méritos para a eternidade: por mais boas obras que a alma faça estando em pecado, por nada disso receberá qualquer recompensa no Céu, mesmo que depois se converta e se salve;
h). A verdadeira paz de consciência: começam em vida os sentimentos que serão sua companhia eterna no inferno, se assim morrer;
i). A permissão de receber os Sacramentos, que seriam para ela fonte de ainda maior condenação se ela ousasse recebê-los em pecado, exceptuando-se a Confissão, a qual só valerá, porém, se significar um verdadeiro rompimento com o pecado;
j). Grandíssima parte do influxo sobrenatural da Comunhão dos Santos (a qual ainda veremos neste trabalho);
l). A capacidade de ganhar Indulgências tanto para si quanto para os falecidos;
m). O Céu, enfim, que jamais, por toda a eternidade, a alma alcançará, se morrer com um pecado mortal...
Sim; um só pecado mortal basta para produzir todos esses danos à alma. É nada menos do que um verdadeiro suicídio espiritual (e daí o seu nome de “pecado mortal”). Pecando gravemente, a alma torna-se inimiga de Deus e escrava de satanás, o qual adquire então sobre ela poderes que nem imaginamos, de modo que mais nos devemos admirar do que um pecador não fizer de mal. Do que daquilo que fizer, tendo ele um tal guia...
“O pecador tem horror à virtude, [mas] não tem [horror] à sua condenação; foge da imitação de Cristo, [mas] não foge da imitação do demônio; abraça as imundícies e vilezas do mundo, tendo-as por delícias, [mas] rejeita as delícias de Deus, reputando-as como coisas aéreas e sonhadas; governa-se pelos olhos e mais sentidos, e põe de parte o lume da razão e da fé; orgulha-se do que envergonhá-lo. (...) Como cuidará do remédio de seus males quem os têm na conta de suas felicidades?” 57
“Lembra-se o homem do corpo, esquece-se da alma; cuida e trata da vida presente, descuida-se da eterna; trata de como livrará a sua capa da chuva, não trata de como livrará a sua alma e o seu corpo do fogo eterno; sonha em como adquirirá mais dinheiro, [mas] nem por sonhos lhe passa de como não perderá a Graça de Deus e o reino do Céu. Ó Fé, quão inutilmente te plantou o Filho de Deus, tanto à Sua custa, nos corações da maior parte dos homens!” 58
O pecado mortal deixa a alma sobrenaturalmente tão feia e repugnante, que compará-la a um cadáver em putrefação é pouco. Um dos tormentos do inferno é, precisamente, os condenados terem de se ‘contemplar’ uns aos outros. Santos houve, inclusive, que, por um dom especial de Deus, podiam sentir o mau odor das almas em pecado. Assim, por exemplo, Santa Catarina de Sena, acostumada a cuidar de leprosos repugnantes, e que no entanto desmaiou de nojo na presença de certa dama elegante; São Filipe Néri, que sentia levantar-se o mau odor sobrenatural de cidades longínquas; a Beata Ana Maria Taigi, atormentada dia e noite pelo odor pestilencial vindo dos pecadores de toda parte.
São João Bosco descreve que, tendo-lhe aparecido, em 06/12/1875, seu aluno Já falecido, São Domingos Sávio, este lhe apresentou uma lista de almas em estado de pecado mortal. Dom Bosco afirma que: “Quando abri a lista, espalhou-se à volta um cheiro tão insuportável, que me vi assaltado por fortíssimas dores de cabeça, de angústias e vômitos tais que pensei que morria. Aquele mau cheiro penetrou nas paredes, impregnou-se na minha roupa, de tal modo que muitos dias depois ainda me parecia sentir aquela peste. Mesmo agora, quando me lembro, vêm-me vômitos, sinto-me sufocar e o estômago revoltado” 59.
Também Santa Teresa de Ávila nos conta seu testemunho: “Sei de uma pessoa [ela mesma] a quem Nosso Senhor se dignou mostrar como fica uma alma quando peca mortalmente. Diz ela que, segundo lhe parece, se todos o entendessem não haveria um só homem capaz de pecar, ainda que tivesse de sujeitar-se aos maiores trabalhos para fugir das ocasiões”. “Não há trevas mais densas, nem coisa tão escura e negra: a tudo excede em escuridão” 60.
Que espetáculos de horror não veríamos nós hoje em dia, pois, se o estado sobrenatural das almas em pecado não estivesse também entre o que não se vê?...
Se os Anjos pudessem chorar, chorariam amargamente a tragédia da alma caída em pecado mortal. Mas a tristeza é que onde os Anjos chorariam, o pecador nem se importa...
E se tudo ainda parasse, pelo menos, em um único pecado mortal, seria ainda menor a tragédia. Mas a verdade é que, na maioria das vezes, como “um abismo atrai outro abismo” (Sl 41, 8), as almas vão multiplicando seus pecados mortais em número maior que o de cabelos da própria cabeça, e nesse estado de morte espiritual continuam por muito e muito tempo, até que a morte corporal vem para sepultar no inferno aquelas criaturas que um Deus havia amado desde sempre e ao ponto de derramar todo o Seu Sangue por elas...
E tenhamos certeza absoluta de que este Deus infinitamente justo e bom, jamais puniria com tanto rigor o pecado mortal, se este não fosse realmente um mal incalculável, o sumo mal. Todavia, os teólogos explicam, com São Tomás de Aquino, que o próprio inferno ainda é uma punição misericordiosa para o mal que é o pecado...
Onde achar palavras para expressar o que é o pecado mortal? Somos obrigados a parafrasear o Apóstolo e dizer que os ouvidos jamais ouviram, os olhos jamais contemplaram, e coração algum jamais imaginou o que seja um pecado mortal em si.
O próprio Verbo Encarnado, o Filho Amadíssimo do Pai, quando quis assumir sobre si os pecados do mundo, não pode ser poupado do mais doloroso suplício corporal e espiritual jamais experimentado nesta terra, e teve de morrer no mais tremendo abandono por parte do Pai Celeste, que, no entanto, O amava infinitamente, mas não podia ter piedade dEle vendo-O coberto dos nossos pecados. Jesus Crucificado: viva imagem do quanto Deus odeia o pecado com um ódio tão mortal, que nem a Humanidade do Verbo escapou de ser destroçada por ele...
Um só pecado mortal, ou mesmo que seja só venial, ofende tanto a Deus e é um mal tão grande, que os Santos se consideravam bem sucedidos em seus imensos esforços de apostolado desde que conseguissem impedir o cometimento de um pecado que seja. Santo Inácio de Loyola, por exemplo, sendo já superior geral da Companhia de Jesus, empreendeu com o maior zelo uma obra de regeneração de prostitutas. Disseram-lhe, porém, que ele perdia seu tempo e trabalho com isso, pois eram muito pouco perseverantes as conversões de tais mulheres. Ao que respondeu o Santo: “Não tenho eu por perdido este trabalho, antes vos digo que, se eu pudesse, com todos os trabalhos e cuidados da minha vida, fazer que alguma destas [mulheres] quisesse passar uma só noite sem pecar, os teria todos por bem empregados, em troca de que [ao menos] naquele breve tempo não fosse ofendida a majestade de meu Criador e Senhor” 61.
Diz-nos Santa Catarina de Gênova: “Não posso compreender como não caí morta quando, numa visão, o Senhor me fez conhecer que coisa é a sombra de uma ofensa a Deus. Então disse a mim mesma: - Já não me admiro que o inferno seja possível, pois que é a pena do pecado. Por temíveis que sejam os seus tormentos, penso que, apesar de tudo, não estão em relação com o horror da culpa, e parece-me que Deus ali também usa de Sua misericórdia. Creio que, se alguém pudesse ver o pecado com os seus próprios olhos, morreria de dor; pois eu, ainda que a minha visão sobre isso tenha sido imperfeita, contudo teria morrido se tivesse durado mais tempo; foi tão grande a minha aflição que estive a ponto de morrer”. “Tenho por certo que, se de um lado estivesse um mar de fogo, e do outro um pecado mortal, não haveria ninguém que, conhecendo a malícia do pecado, não se atirasse logo a nadar naquelas chamas, sem pensar em voltar à margem, para não estar perto de tão horrível monstro” 62.
“Se por um lado visse aberto o inferno e por outro me viesse encontrar um pecado, escolheria antes atirar-me e arder nas chamas do abismo que manchar-me com tão horrível abominação. Antes entrar com inocência na Geena, do que com pecado subir ao Céu” (Santo Anselmo de Cantuária) 63.
E, sendo cada pecado algo tão ruim como é, os demônios também não perdem de vista que qualquer pecado a mais que eles consigam levar uma alma a cometer, já representa um triunfo em sua maligna guerra contra Deus. Não poupam esforços, portanto, para fazer com que se cometa um pecado que seja. Os pecadores são as armas usadas pelos demônios para ferir a honra do Altíssimo.
Com efeito, o pecado não diz respeito apenas à própria alma, mas atinge, em certo sentido, o próprio Deus.
Desrespeito, desobediência, desprezo, ingratidão, injúria, infidelidade, desamor – tudo isso o pecado mortal representa para Deus, o qual fica como um rei destronado e exilado de sua pátria, ao ser expulso da alma que peca, preferindo esta as ninharias da terra ao amor do Eterno. O melhor dos pais, a quem o filho mais querido desprezasse e perseguisse de morte, ainda não seria imagem adequada do Pai Celeste ao ser ofendido gravemente por uma alma. Se a Santíssima Trindade pudesse morrer, um só pecado mortal bastaria para fazê-lA morrer de desgosto, repugnância e ódio a esse pecado.
Que pensará o bom Jesus ao ver uma alma por quem Ele derramou todo o Seu Sangue, do qual uma só gota vale mais que todo o universo, e que pelo pecado se entrega ao demônio, ao inimigo que nunca fez nada por ela e que só quer levá-la para o abismo? Pecando, a alma renuncia ao Sangue de seu Deus e às riquezas do Céu, para entreter-se com as feras do inferno e a lama do mundo.
A alma, que recebera de Deus tantos e tantos benefícios, ei-la aí, agora, a cuspir na Face d’Aquele que a tirou do nada... Isso é o pecado.
“Ouvi, ó céus; tu, ó terra, escuta (...) Filhos criei e engrandeci, mas eles me desprezaram” (Is 1,2).
Se se compreende, pois, que o pecado mortal é uma injúria feita a um Deus Infinito, compreende-se então também que o pecado mortal traga consigo uma culpa infinita, merecedora de um castigo infinito (e compreende-se então porque nem o inferno é punição suficiente do pecado, pois embora o inferno seja infinito na duração, todavia não é infinito na intensidade).
“Não vos enganeis: de Deus não se zomba. Aquilo que o homem semear, isso também colherá” (Gl 6, 7).
Teve, alguém, pois, a infinita desgraça de cair em pecado mortal? Levante-se imediatamente, fazendo um sincero ato de contrição, unido ao propósito de confessar-se depois, e terá recobrado a Graça Santificante. Não adie nenhum minuto a sua conversão: um instante pode ser tempo suficiente para a morte fazer cair sobre a alma uma noite que nunca conhecerá aurora... Se, porém, não quiser se converter imediatamente, e escolher o risco insano e injustificável de adiar a conversão para um depois que pode nunca chegar, nesse meio tempo, pelo menos não deixe de fazer boas, como rezar, jejuar, dar esmolas, etc., oferecendo tudo isso por sua própria conversão, porque, muito embora as boas obras feitas em estado de pecado mortal, não terem nenhum mérito para a eternidade, todavia – é bom sabê-lo – elas ainda têm os seguintes efeitos:
a). Atraem sobre o pecador a graça de sua própria conversão;
b). Afastam do pecador os castigos temporais (isto é, os que sofreria nesta vida);
c). Obtêm ao pecador graças e recompensas temporais (pois todo o bem feito em estado de pecado não é recompensado na eternidade, mas no tempo mesmo);
d). Diminuem o domínio do diabo sobre o pecador;
e). Ajudam o pecador a não cair em culpas ainda piores;
f). Movem a Virgem Maria e os Santos a intercederem mais por aquele pecador;
h). Movem Deus a atender em prol daquele pecador as orações feitas no mundo pela conversão dos pecadores (visto ser mais justo que essas orações beneficiem antes os pecadores mais dignos, isto é, os que têm mais boas obras, do que os pecadores piores e mais necessitados);
i). Formam ou mantêm bons hábitos no pecador, facilitando sua conversão.
Por tudo isso se vê que, mesmo para em estado de pecado de mortal, as boas obras são de extrema utilidade, e conseguir levar um pecador a pelo menos rezar, já é pô-lo no caminho da conversão. Claro está, porém, que o ideal, o melhor e incomparavelmente mais seguro, é não adiar um segundo sequer a conversão, pois, como dizia Santo Agostinho, Deus prometeu o perdão para o arrependimento, mas não prometeu o amanhã para arrepender-se...
“Que temeridade seria se um se pendurasse de um delgado fio, dentro da boca de um poço profundíssimo? Pois dize-me, homem desatinado, que fio pode haver mais quebradiço e fraco que o da vida humana? Ou que poço mais profundo que o do inferno?” 64
No entanto – e é de tremer só o considerar tal hipótese –, se alguém já estiver decidido a ir para o inferno, e não quiser mesmo converter-se de jeito nenhum, nem na hora da morte, ao menos um conselho lhe damos: uma vez que cada pecado mortal é punido com um grau a mais de tormento no inferno, pelo menos evite então os pecados mortais que puder, para sofrer um pouco menos do outro lado do túmulo...
9. Os Sacramentos e Sacramentais
Nosso Senhor Jesus Cristo confiou pessoalmente à Sua única Igreja sete meios fundamentais para transmitir a Vida Sobrenatural aos homens. Esses meios são os Sacramentos: Batismo, Crisma, Eucaristia, Confissão, Extrema-Unção, Ordem e Matrimônio. Cada um deles é “um sinal sensível e eficaz da Graça Divina”, ou seja, cada Sacramento é, ao mesmo tempo, símbolo e realidade: sua cerimônia essencial representa aos nossos sentidos aquilo que a mesma cerimônia opera invisivelmente. Os Sacramentos são, pois, uns ritos que não apenas significam o sobrenatural, como de fato realizam efeitos sobrenaturais na alma. Muito haveria a dizer sobre os Sacramentos, mas, por razões de brevidade, concentraremo-nos quase que tão só nos efeitos sobrenaturais de cada Sacramento.
O Batismo é o primeiro e mais necessário dos Sacramentos que Nosso Senhor instituiu, sendo por ele que principia na alma a Vida Sobrenatural. Antes do Batismo a alma é propriedade de satanás pelo pecado original, e no Batismo ela é liberta, redimida pelo Sangue de Cristo de tão horrível escravidão, apagando-se nela, também, todos os outros pecados que tiver além do original, a até as penas devidas a estes, plenamente. É através do Batismo que Deus infunde na alma a Graça Santificante, com seu magnífico cortejo de Virtudes Infusas e Dons do Espírito Santo, assinalando também a alma com uma espécie de marca sobrenatural inapagável, um verdadeiro selo impresso misteriosamente na alma: o Caráter Sacramental de Filho de Deus. Antes do Batismo, o homem é só criatura de Deus, e no Batismo é que ele se torna filho adotivo de Deus (logo, os pagãos, por exemplo, os budistas, muçulmanos ou judeus, não são filhos de Deus). Com o Batismo começa, por assim dizer, a aventura sobrenatural daquela alma, que um dia será coroada por Deus no Céu, ou esmagada sob os pés do demônio no inferno, dependendo isso dela morrer ou não em estado de Graça Santificante – mas, sem o Batismo, não se entra no Céu65. Pelo Batismo a alma recebe de Deus um direito diante de Deus às graças atuais que lhe forem necessárias para conservar sua pureza espiritual e nunca vir a cair em pecado mortal e perder sua condição de Templo Vivo da Santíssima Trindade, em que o Batismo a constituiu. Só os já batizados podem receber validamente os outros Sacramentos. É também no Batismo que a alma se torna Membro da Igreja Católica, entrando, pois, no mistério da Comunhão dos Santos (que explicaremos mais adiante), o que só por si lhe assegurará todo um influxo de Graças Atuais vindas dos quatro cantos deste e do outro mundo. Nada de melhor, portanto, podem os pais oferecer aos seus filhos do que tratar de batizá-los o mais logo possível, enchendo a alma destes daquela Vida Sobrenatural da qual a mais pequenina parcela vale infinitamente mais que mil mundos, pois vale o mesmo Deus...
Tão grande é, de fato, a necessidade do Batismo para a salvação eterna, que Nosso Senhor concede a qualquer pessoa, mesmo aos simples leigos e até aos não-católicos, poderem batizar validamente o seu próximo, desde que tenham a intenção de fazer o que a Igreja faz ao batizar e empreguem água e as palavras corretas. Como, pois, a qualquer hora podemos nos deparar com um desses casos de batismos de emergência (por exemplo, estando em presença duma criança não-batizada agonizante), em que, não havendo um sacerdote, nós mesmos é que teremos de batizar imediatamente a pessoa, convém então saber o que fazer num caso desses: tendo a intenção de fazer o que a Igreja faz ao batizar, derrame água na cabeça do que vai ser batizado (ou em outra parte do corpo se não for possível na cabeça) e, ao mesmo tempo, diga as palavras essenciais do Batismo: “Eu te batizo em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Crianças em perigo próximo de morte podem e devem ser assim batizadas, mesmo contra a vontade de seus pais66, ainda que seja preciso fazê-lo rápida e secretamente. E mesmo que o que lhes possa administrar o Batismo tenha de, para tanto, pôr a sua própria vida física em risco, deverá batizá-las assim mesmo, pois vale mais a vida eterna alheia do que a vida temporal própria67. E peca mortalmente aquele que, podendo batizar uma criança agonizante, não o faz, para não opor-se à vontade dos pais da criança ou por outro motivo qualquer.
Os pais que demoram muito para levar seus filhos ao Batismo também pecam mortalmente. Aliás, “por que hão de retardar os pais o Batismo de seus filhos, consentindo que estejam suas almas feias e disformes e em poder dos demônios, podendo tão facilmente procurar-lhes a antecipação da formosura da graça e a filiação de Deus? Se uma mosca se pôs ao rosto da criatura, logo a abanam; e deixam estar tantos dias na sua alma Belzebu, que é o príncipe das moscas, como a Escritura lhe chama? Se se lhe mancharem as mãos ou pés, logo os lavam; e só na alma não importa que se detenha a feíssima mancha da culpa original?” 68.
A Crisma, também chamada Confirmação, é o Sacramento que Nosso Senhor instituiu para fazer dos Seus cristãos mártires em potencial. Para isso, a Crisma marca a alma do crismando com um sinal, um selo sobrenatural inapagável, o Caráter Sacramental de Soldado de Cristo. Como se sabe, a vida cristã é uma vida de luta, de guerra contra o pecado e seus agentes: os demônios, a carne e o mundo, os quais sem cessar armam ciladas e ataques às almas. Foi para fortalecer, a nossa Vida Sobrenatural nesse seu aspecto combativo, que Nosso Divino Comandante nos deixou esse Sacramento destinado a fazer dos católicos nada menos que guerreiros espirituais, pois, afinal, como dizia um grande autor espiritual, “que é a Igreja, senão uma conspiração divina contra o mundo?” 69 Assim sendo, a Crisma, além de aumentar na alma a Graça Santificante, também lhe confere um direito às Graças Atuais de que precisar para testemunhar publicamente a Fé e vencer em suas lutas sobrenaturais. Concede também à alma um aumento especial dos Dons do Espírito Santo, relembrando o mistério de Pentecostes, em que o Espírito Santo, manifestando-Se visivelmente, transformou os medrosos e tímidos Apóstolos em valentes e destemidas testemunhas, que não hesitariam em derramar o próprio sangue pela Fé Católica – coragem que também não faltará à alma que corresponda às graças de sua Crisma.
A Eucaristia é o mais sublime dos Sacramentos: sob as humildes aparências do Pão e do Vinho consagrados, oculta-se o próprio Jesus, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, com Seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, tão vivo e real quanto no Céu. Depois da Consagração não existe mais nem pão nem vinho no Altar, mas sim Jesus, escondido sob as meras aparências do pão e do vinho que antes ali existiam.
Há três aspectos principais nesse admirável Sacramento:
a). O Sacrifício: na Missa, através da Consagração se renova no Altar o mesmo Sacrifício que Nosso Senhor ofereceu a Seu Pai, na Cruz, imolando-Se em expiação dos pecados do mundo. Trata-se duma renovação mística do Sacrifício da Cruz, sem novo sofrimento físico para Jesus, mas na qual o mesmo Sacerdote (Jesus) oferece a mesma Vítima (também Jesus), sendo pois o mesmo Sacrifício. A Missa não é, pois, uma “festa”, um “banquete fraterno”, uma “ceia” ou uma simples “celebração da alegria pascal”, mas sim o mesmo Sacrifício Expiatório oferecido no Calvário, em que um Deus morreu de dor pelos nossos crimes (diante do quê, com certeza, não convêm pulos e aplausos, mas lágrimas e súplicas de arrependimento...). Cada Missa presta a Deus uma glória infinita, visto que nela o Seu próprio Filho (através do sacerdote ordenado) se Lhe oferece num Sacrifício que vale tanto quanto Ele mesmo. Cada Missa renova, pois, diante da Justiça Divina o perfeitíssimo pagamento de nossas dívidas de pecadores, efetuado pelo Sangue do Redentor, e nos possibilita, assim, inúmeras graças, que receberemos em maior ou menor escala segundo nossas disposições, nossa correspondência e fervor.
b). A Comunhão: em Seu Amor e Misericórdia infinita, Nosso Redentor quis unir-Se às almas da maneira mais perfeita possível: fazendo-Se um Alimento. Isso seria um absurdo, impossível de se imaginar seriamente, se não fosse Ele mesmo, a Suma Verdade, quem o revelou. Assim como a propósito da Graça Santificante, só há uma palavra para descrever o que uma Comunhão realiza na alma: divinização. Não podendo Deus criar outros “Deuses” no sentido pleno da palavra, quis então criar esse “pequeno deus” que é a alma em estado de Graça e, em grau maior ainda, aquele que acabou de comungar. Entenda-se bem: Deus e a alma não se confundem num mesmo ser (o que é impossível), mas, pela Graça e pela Comunhão, se unem tanto, que a alma se torna semelhante a Deus, adquirindo características divinas em seu ser, embora sem deixar de ser só uma criatura. Precisamente isso é o que a Graça Santificante realiza na alma, mas a Santa Comunhão o realiza em grau ainda mais intenso: a Divindade de Cristo se une de modo especial ao comungante, e além dela, também o Corpo, o Sangue e a Alma Humana de Cristo unem-Se à alma do comungante – e até ao corpo deste, visto que a Comunhão é também um ato físico. E o Pai e o Espírito Santo, por Sua vez, vendo Deus Filho naquela alma, olham-na com um amor inconcebível, e vêm também a ela de modo especial. A Santa Comunhão completa, assim, tanto quanto é possível nesta vida, a divinização da alma em seu ser, em sua substância espiritual (que recebe caracteres, acidentes divinos, mas sem se tornar Deus – insistimos). Só no Céu a alma receberá, com a Visão Beatífica, uma divinização de natureza mais perfeita que a Santa Comunhão. Isto quanto à ‘divinização’ da substância da alma; já quanto à ‘divinização’ dos atos, da vida daquela alma, isso é próprio da ação progressiva dos Dons do Espírito Santo, os quais, porém, se tornam cada vez mais presentes na alma a cada Santa Comunhão, visto que os Dons, bem como as Virtudes Infusas, crescem junto com Graça Santificante, e a Santa Comunhão sempre aumenta a Graça Santificante na alma, em maior ou menor grau, dependendo da preparação e disposições da alma. Impossível, pois, descrever os benefícios sobrenaturais que uma Santa Comunhão traz à alma. É como se Deus, querendo reparar do modo mais absoluto a mentira que o demônio disse a Eva (“se comerdes desse fruto não morrereis, mas sereis como deuses”), a transformasse simplesmente em verdade no mistério da Eucaristia: eis o Pão da Vida Eterna, a soberana divinização do homem70.
c). O Prisioneiro do Tabernáculo: fora da Missa e da Comunhão, Nosso Senhor ainda permanece entre nós com Seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Fica continuamente em Seu Santíssimo Sacramento, enquanto subsistam as aparências do Pão e/ou do Vinho consagrados. Ali, pois, no silêncio de nossos Tabernáculos, uma Vida Divina, Infinita, palpita, mais valiosa que a existência de todas as criaturas juntas: o mesmo Deus ali se esconde. Aquele Verbo que antes de todos os tempos o Pai gerava e que feito uma criança no tempo uma Virgem o reclinava em Belém; Aquele mesmo que pregava pelos caminhos da Judéia, operando os mais esplêndidos milagres; Aquele que numa sexta-feira inesquecível pagou com Seu Sangue as dívidas de nossos pecados, fazendo-Se nosso Redentor, e que um dia será também nosso imparcial Juiz, Ele está ali, na solidão do Sacrário, inteiramente à nossa disposição, para tratarmos agora com Ele, antes do Juízo, o grande negócio de nossa salvação. Se não nos interessamos por passar sequer uns minutos junto d’Ele, como quereremos que nos conceda então uma eternidade para só adora-l’O (afinal o Céu é isso)? Anjos cercam o Seu Sacrário em adoração, mas não foi para os Anjos e sim para os filhos de Adão que Ele quis ficar. Desde ali intercede a Seu Pai por nós, e Lhe oferece Seus méritos em reparação de nossos pecados. Se O visitamos piedosamente, Ele une nossas orações às Suas, de valor infinito, resultando daí uma imensa glória para Deus, inúmeras Graças Atuais para nós e um terníssimo consolo a Seu Coração Divino-Humano, incessantemente injuriado pelos pecados dos homens.
A Confissão (ou Penitência) é, por sua vez, o Sacramento que Nosso Senhor instituiu para perdoar os pecados que, por desgraça, acabássemos cometendo mesmo depois de batizados. Assim, por mais graves e numerosos que sejam os pecados de um cristão, ele pode sempre encontrar a Misericórdia Divina na Confissão sacramental, até o último instante de sua vida. Além de perdoar os pecados graves, devolvendo assim a Graça Santificante ao pecador, a Confissão também perdoa os pecados veniais, aumenta a Graça Santificante na alma que já a possuía, devolve os méritos passados perdidos pelo pecado grave e confere à alma um direito às Graças Atuais de que precisar para corrigir sua vida. Mesmo os pecados já confessados no passado, se forem novamente confessados com sincero arrependimento, recebem um novo perdão e ficam mais bem reparados diante da Justiça Divina. O arrependimento, por sinal, é a principal condição para confessar-se bem, mas note-se que não basta um arrependimento por motivos naturais, humanos (por exemplo, pelas conseqüências materiais desastrosas do pecado, pelas confusões que ocasionou, etc.), mas é indispensável um arrependimento por motivo sobrenatural, por exemplo, por ter perdido o Céu, por ter merecido o inferno, por se ter cometido algo que é sobrenaturalmente feio e abominável em sumo grau, por se ter ofendido a Deus que é infinitamente bom e digno de ser amado, etc. A propósito, por sinal, do arrependimento por amor de Deus (chamado Contrição), vale lembrar, como explicamos ao falar da Justificação, que ele é de tal valor diante de Deus, que antecipa na alma o efeito da Confissão, restituindo-lhe a Graça Santificante, se a tiver perdido pelo pecado grave (razão pela qual sugerimos insistentemente a quem quer que seja que tenha tido a desgraça de pecar gravemente, que, sem tardar sequer um momento, coloque-se novamente na amizade com Deus, formulando sinceramente um ato de Contrição, unido este ao propósito firme de confessar-se depois). Mesmo na Confissão, tanto mais plena será a purificação da alma e maiores as graças que ela obterá, quanto maior e mais sobrenatural for o seu arrependimento (este será tanto mais “sobrenatural” quanto mais for motivado só por razões sobrenaturais). Claro está, porém, que não é válido o arrependimento de quem não rompa com o pecado, prometendo não mais pecar e empregar diligentemente os meios para vencer o pecado. A Confissão, enfim, é, por assim dizer, um verdadeiro banho sobrenatural de nossa alma no Sangue de Jesus Cristo, que, como um dia o viu Santa Maria Madalena de Pazzi, desce sobre a alma junto com a absolvição sacerdotal dignamente recebida71.
A Extrema-Unção é o Sacramento onde, pelas orações do sacerdote e unção com óleo-santo, a alma do cristão enfermo é preparada para a morte. Como ensina a Igreja, a perseverança final, isto é, a graça de morrer precisamente num momento em que se esteja possuindo a Graça Santificante, é um benefício tão grande de Deus ao homem, que não pode ser merecido estritamente falando, mas apenas implorado à Misericórdia Divina. Ora, é a Extrema-Unção que, recebida dignamente, confere à alma uma espécie de direito diante de Deus a que tenham eficácia as súplicas que ela fizer para obter uma morte santa, ou que outros fizerem por ela. Não se trata, pois, de curar o corpo do doente ou consolá-lo psicologicamente (embora isso também possa ocorrer), mas de prepará-lo para comparecer ante o Tribunal da Justiça de Deus. A Extrema-Unção confere à alma, além de um aumento de Graça Santificante, também um direito às Graças Atuais de que necessitar para sofrer com paciência suas dores e enfermidades e para vencer as tentações que o maligno lhe infringir na hora final (que é uma hora extremamente arriscada, visto que basta consentir num pensamento mau, por exemplo, e morrer logo em seguida, para se se perder eternamente). E outro efeito da Extrema-Unção, também altamente desejável, é o apagamento das penas temporais devidas aos pecados daquela alma, isto é, a liquidação das dívidas sobrenaturais que ela teria de pagar em reparação dos seus pecados (visto que não basta confessar os pecados, mas é preciso ainda expiá-los), o que livrará essa alma de passar pelo Purgatório, se ela obtiver plenamente esse efeito purificador da Extrema-Unção, o que dependerá do grau de sua preparação, de suas disposições espirituais ao receber esse Sacramento.
Ordem é o Sacramento que Nosso Senhor instituiu para perpetuar em Sua Igreja a Santíssima Eucaristia e demais Sacramentos. A Ordem, que é, por sinal, o maior dos Sacramentos depois da Eucaristia, confere à alma uma maca sobrenatural inapagável, o Caráter Sacramental de Ministro do Altíssimo, o qual é imprimido na alma em três etapas, progressivamente: Diaconato, Sacerdócio e Episcopado, que são como três graus dentro do mesmo Sacramento da Ordem, sendo que apenas o terceiro grau, o de Bispo, é que possui a plenitude do Caráter Sacerdotal. Junto com esse Caráter, a Ordem confere à alma do ordenado vários poderes sobrenaturais: o Diácono receber o poder de abençoar, o que lhe possibilita administrar os Sacramentais (sobre os quais logo falaremos); o Padre recebe o poder de oferecer o Sacrifício da Missa pela consagração do pão e do vinho, além do poder de absolver os pecados na Confissão e de administrar a Extrema-Unção; e o Bispo, por sua vez, recebe o poder de transmitir o Sacerdócio, ordenando Diáconos, Padres e mesmo outros Bispos. Cada grau superior da Ordem supõe e mantém os poderes sobrenaturais do grau anterior. A Ordem também aumenta a Graça Santificante na alma do ordenado, e concede a este um direito especial às Graças Atuais de que necessitar, no decorrer de sua vida daí em diante, para cumprir as obrigações que esse Sacramento lhe impõe. Sim, porque o Sacramento da Ordem impõe àquele que o recebe nada menos do que uma vida santa, como convém a um Ministro do Altíssimo, Oferecedor do Divino Sacrifício e Administrador dos Sacramentos (o que todo Sacerdote o é, essencial e irrevogavelmente). Os Sacerdotes são, por assim dizer, como que portas de ligação entre o mundo sobrenatural e a nossa pobre terra – importa, pois, que toda a vida deles esteja tão embebida do Sobrenatural, que só de vê-los as almas sejam movidas à santidade.
Já o Matrimônio é o Sacramento que Nosso Senhor instituiu para santificar a perpetuação da raça humana. Deus quis que a vida humana, por ele destinada a um Fim Sobrenatural, pudesse ter também um começo envolvido pelo Sobrenatural. Para isso, exige dos noivos um compromisso sagrado e irrevogável pelo qual se concedem um ao outro direito sobre o próprio corpo, em ordem ao ato gerador da vida, obrigando-se também a criarem e educarem os filhos e a viverem unidos e fiéis um ao outro até à morte. E sobre este contrato sagrado entre um homem e uma mulher, Deus envia Sua Benção, aumentando neles a Graça Santificante e concedendo-lhes um direito a receberem as Graças Atuais de que precisarem no cumprimento de seus deveres de esposos e pais. O Matrimônio constitui os esposos num estado indissolúvel: nem o Papa teria poder para desfazer o casamento deles e permitir que se casem com outros – é sobrenaturalmente impossível. E a finalidade primeira e essencial do Matrimônio, importa muito não esquecê-lo, é a procriação, a geração de novos seres humanos, futuros Filhos adotivos de Deus e Membros da Igreja pelo Batismo e futuros Eleitos do Céu, se morrerem em estado de Graça. A tal ponto isso é essencial no Matrimônio que, se um casal de noivos estivesse resolvido a não ter filhos, o casamento deles seria inválido e sacrílego, e viveriam como amasiados.
Esses são os 7 Sacramentos que Nosso Senhor instituiu, Ele mesmo, como o sabemos pela Sagrada Escritura e pela Sagrada Tradição. São como sete canais por onde a Graça de Deus chega até a nossa alma, e nunca poderíamos agradecer suficientemente ao bom Jesus por ter nos facilitado tanto o acesso à este bem de valor inestimável, que é a Sua Graça, ligando-a a meios humanamente tão simples – que mais simples, por exemplo, que a água derramada sobre a cabeça enquanto umas poucas palavras se pronunciam? E, todavia, isso é o Batismo quanto ao que vemos exteriormente, mas o que não se vê supera ali tudo o que há de mais grandioso no universo natural...
É extremamente lamentável, porém, como a gigantesca maioria das pessoas trata os Sacramentos: indiferenças, desprezos, sacrilégios, tibieza, heresias, incredulidade – na maior parte das vezes, essas são as respostas das almas à infinita Misericórdia com que Deus lhes oferece os Santos Sacramentos.
Comete-se um sacrilégio, isto é, uma grave profanação do que é sagrado, sempre que se recebe um dos seguintes Sacramentos em estado de pecado mortal: Eucaristia, Crisma, Extrema-Unção, Ordem e Matrimônio. Estes cinco Sacramentos requerem necessariamente que aquele que os recebe já esteja livre de pecado mortal e que possua, portanto, a Graça Santificante. Batismo e Confissão são os Sacramentos que se destinam precisamente aos pecadores, para admiti-los na amizade com Deus, mas mesmo aí, os que vão ser batizados já tendo uso da razão e todos os que vão se confessar, precisam, indispensavelmente, crer em tudo quanto a Igreja ensina, arrependerem-se de seus pecados ao menos por temor do inferno e prometerem não mais pecar gravemente, comprometendo-se também a empregar os meios convenientes para vencer o pecado.
E também é sacrilégio receber mais de uma vez os Sacramentos do Batismo, Crisma ou Ordem, porque estes Sacramentos conferem à alma um Caráter que não pode nem precisa ser renovado ou recebido de novo. Este “Caráter” é uma espécie de marca sobrenatural que Deus mesmo infunde na alma no momento de seu Batismo, sua Crisma ou sua Ordenação. Essa marca é impressa misteriosamente na própria substância da alma, tornado-a diferente, portanto, de todas as outras almas que não tenham sido assim assinaladas. Durante esta vida mortal não podemos ver este sinal sobrenatural, mas os anjos e as almas que já estão na eternidade podem vê-lo perfeitamente, de modo que um anjo (bom ou mau), saberia distinguir só com um olhar, no meio de uma imensa multidão, quem é ou não batizado, crismado ou ordenado. Ser Batizado, Crismado ou Sacerdote, não é simplesmente possuir um título a mais, mas é possuir na alma uma marca real, substancial, distinguindo essa alma de todas as outras que não tenham recebido esses Sacramentos. E esse Caráter, essa marca sobrenatural na alma, é inapagável, não podendo ser destruída nem mesmo pelo pecado mortal ou pela condenação eterna, de modo que até no inferno se distinguirá quem recebeu em vida o Batismo, a Crisma e/ou a Ordem.
Importa muito sublinhar que o aspecto principal dos Sacramentos é, precisamente, sobrenatural. Seus efeitos essenciais são todos sobrenaturais, ainda que, porventura, possam ter também algum efeito natural. Assim, por exemplo, na Confissão, o essencial é o perdão dos pecados, e não obter alguma espécie de alívio psicológico. Observa um autor que “não é raro o caso de encontrarmos cristãos que consideram os Sacramentos, isto é, os canais da Graça, sob o ponto de vista de um mero naturalismo. Para esses, a Confissão é uma ótima escola educativa, devido à humilhação que impõem, ao conforto e conselho que oferece. O Matrimônio é um meio excelente para dar solenidade ao juramento de mútua fidelidade dos esposos. A Eucaristia é o delicado símbolo da união de todos os irmãos, reunidos ao redor da mesa comum. Desta maneira se despojam os Sacramentos da sua característica divina, se desconhece a sua sobrenaturalidade, não se dá importância ao efeito principal e essencial para o qual Cristo os instituiu. Isto equivale a dizer que se despreza ou pelo menos não se aprecia a Graça...” 72
Os Sacramentais, por sua vez, são certas coisas ou ações que a Igreja instituiu como, por assim dizer, símbolos da Graça Atual e meios para as almas obterem-na pelas preces da Igreja. Diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, as preces oficiais da Igreja têm um valor muito alto, pois nelas Ele ouve nada menos que a voz de Sua Esposa Única e Imaculada, que é a mesma Igreja. Além disso, o poder de transmitir as bênçãos divinas é um dos poderes sobrenaturais concedidos por Nosso Senhor aos Seus ministros no Sacramento da Ordem. Ora, para transmitir aos seus filhos, em seu dia-a-dia, os efeitos de suas preces e bênçãos, a Igreja estabeleceu, instituiu uns sinais e ritos determinados, chamados Sacramentais. Há vários Sacramentais: água-benta, velas-bentas, imagens bentas, etc. A Igreja possui todo um livro de bênçãos: o “Ritual Romano”. Receber uma benção ou fazer uso duma coisa abençoada pela Igreja, significa adquirir, diante de Deus, um maior direito a receber algumas Graças Atuais (essa é, precisamente, a essência duma “benção). Esse direito será maior ou menor e essas Graças Atuais afluirão em maior ou menor intensidade, de acordo com o fervor e devoção daquele que receba (ou administre) a benção ou que use o objeto bento. Diferentemente dos Sacramentos, que foram instituídos por Cristo e produzem alguns efeitos sobrenaturais por si mesmos, os Sacramentais, que são de instituição da Igreja, não produzem nenhum efeito por si mesmos, mas dependem sempre do fervor pessoal de quem faz uso deles.
Uma das Graças Atuais especialmente produzidas pelos Sacramentais, segundo inúmeros testemunhos dos Santos e da história da Igreja, é garantirem às almas uma maior proteção contra a ação dos demônios. Com efeito, sabendo como são valiosas para Deus as almas em estado de Graça Santificante, os demônios, por ódio contra Deus, fazem de tudo para seduzir os homens ao pecado e levá-los à perdição eterna, além de tentarem prejudicar os homens até materialmente73. Os demônios, porém, apesar de serem numerosos e dotados de forças sobrehumanas, só nos podem atacar na medida em que Deus lhes permite. É assim que, quando usamos devotamente um Sacramental, diminuem com isso as licenças que os espíritos malignos tinham para nos atacar. Não é de estranhar, portanto, que esses malditos inimigos detestem os Sacramentais e tentem afastar as pessoas do uso devoto destes. Certa vez, Santa Francisca Romana estava a acender uma vela benta, e um demônio apareceu-lhe e tomou-lhe a vela, jogando esta ao chão. A Santa então perguntou-lhe por que tinha feito isso, e o monstro respondeu: “Porque as bênçãos da Igreja me desagradam sobremaneira!” 74 Os Sacramentais constituem, pois, um excelente complemento dos Sacramentos, embora sejam muito inferiores a estes, e usar piedosamente tanto daqueles como destes será para nós ocasião de inumeráveis Graças Atuais.
Deve-se observar também que cada um dos 7 Sacramentos confere à alma um direito especial, diante de Deus, a receber as Graças Atuais relacionadas com aquele Sacramento. Isso não significa, de jeito nenhum, que basta a alma receber os Sacramentos para as Graças Atuais afluírem a ela sem ter de se esforçar; antes, muito pelo contrário, significa que os esforços que ela fizer obterão especiais auxílios de Deus. Os Sacramentos não dispensam, antes exigem os nossos esforços na vida espiritual. Alguns dos efeitos sacramentais se realizam pelo Sacramento mesmo, bastando este ser conferido validamente. Outros, porém, dependem da preparação que a pessoa fizer para receber o Sacramento em questão, dependem das disposições espirituais com que a alma se apresentar para receber o Sacramento, e esse é o caso do “direito às Graças Atuais” de que falamos. Mesmo depois de recebido o Sacramento e se ter, pois, conquistado nele esse direito às Graças Atuais, estas só afluirão sobre a alma se esta rezar e fizer a sua parte no exercício das virtudes. Donde estarem muito enganadas, por exemplo, as pessoas que, por exemplo, pensam que só o comungar com freqüência baste para santificá-las: a Comunhão, como qualquer dos Sacramentos, para produzir plenamente seus efeitos, requer a prática da oração, da mortificação, e demais virtudes cristãs, antes e depois de sua recepção, segundo as possibilidades da pessoa. Os Sacramentos são uma fonte inesgotável de Graças Atuais, mas o vaso com o qual é preciso ir buscar as Graças nessa fonte chama-se fervor pessoal, não no sentido de sentimentos fervorosos (o que nem sempre está em nosso poder), mas no sentido de esforços reais por rezar, penitenciar-se e exercitar-se nas virtudes, e, para consolo daqueles que, por razões materiais de distância, saúde, etc., se vêem privados da recepção freqüente dos Sacramentos, devemos dizer que, afinal de contas, é esse fervor o que mais conta na salvação e santificação de uma alma, e não tanto o número de vezes que se comungou...
10. A Comunhão dos Santos
Nosso Senhor Jesus Cristo fundou, durante Sua vida mortal, uma associação para a glorificação de Seu Pai e a salvação das almas: a Igreja Católica Apostólica Romana. Esta é a Sua única Igreja, e a ela é que Ela confiou a Sua doutrina, para ser ensinada, e os Seus Sacramentos, para serem administrados, até o fim dos tempos. E, embora a Igreja neste mundo seja uma sociedade visível, ela não se reduz, todavia, a essa organização jurídica, mas sim engloba toda uma realidade sobrenatural: a Igreja é o Corpo Místico de Cristo, quer dizer, há uma cadeia de laços sobrenaturais unindo os membros da Igreja com Cristo e entre si, à semelhança dos órgãos de um corpo unidos entre si e com a cabeça.
O laço essencial que une as almas a Cristo é a Graça Santificante, com seu cortejo de Virtudes e Dons, visto que foi Cristo que nos conquistou esse tesouro, merecendo-o para nós com o Sacrifício da Cruz. E é interessante notar que a Graça Santificante que as almas recebem em sua Justificação, é, precisamente, uma participação da Graça Santificante que há na Santíssima Alma Humana de Jesus, de modo que é como se Jesus houvesse reunido um tesouro incalculável e dele fosse repartindo conosco, sem diminuí-lo porém75.
Outra riqueza inesgotável que o Redentor nos oferece, no mistério da Comunhão dos Santos, são os Seus Méritos considerados em si mesmos. Sendo Jesus o Deus Infinito feito homem, todas as Suas ações, palavras, pensamentos, e até o menor de Seus gestos, tinham todos um mérito, um valor infinito, como atos da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Esses méritos Jesus os foi acumulando durante toda a Sua vida, desde o primeiro instante no seio materno da Virgem Maria, e sobretudo na Sua Paixão e Morte, cujo valor uma eternidade inteira não bastará aos eleitos para acabar de compreender. Em Sua Bondade, Jesus permite e deseja que aproveitemo-nos de Seus méritos como se fossem propriedade nossa, oferecendo-os ao Pai Eterno em expiação de nossos pecados, para suprir a adoração que Deus merece receber de nós mas que somos capazes de oferecer, em agradecimento pelos benefícios recebidos, para obtermos as graças de que necessitamos, etc. Esse humilde oferecimento dos méritos de Jesus foi recomendado por Ele mesmo à Santa Matilde76. A Igreja oficialmente apela aos méritos de Cristo em suas preces públicas ("... Per Christum Dominum nostrum...") e ao conceder as Santas Indulgências (que já explicaremos).
Quis a Providência Divina, contudo, que não apenas entre Cristo e as almas houvessem os mais fortes laços sobrenaturais, mas também entre as próprias almas que formam o Seu Corpo Místico, que é a Igreja, como num organismo vivo, em que os membros, embora diferentes, se auxiliam uns aos outros, e o bem de um beneficia também todos os demais.
A Igreja, em sua totalidade, é composta por três partes (que são, por assim dizer, como três estados de uma mesma nação): Igreja Militante (a da terra), Igreja Padecente (a do Purgatório) e Igreja Triunfante (a do Céu).
Os três estados da Igreja não estão isolados uns dos outros, senão que se ajudam mutuamente. No Céu, os Santos oram por nós e pelas almas do Purgatório, e os Anjos, além de orarem por nós, ainda nos protegem diretamente, sobretudo os Anjos que a Providência Divina destinou ao cuidado de cada um de nós: os Anjos da Guarda, que são como irmãos espirituais ao nosso lado77. Os Anjos também visitam e consolam as almas do Purgatório, e intercedem por elas, como nós podemos e devemos fazer, oferecendo orações, boas obras e indulgências por elas. As almas do Purgatório, por sua vez, nada podem fazer em beneficio de si mesmas, mas oram por nós, que ainda peregrinamos neste mundo de pecado. E nós, por fim, com nosso culto aos Santos e Anjos, aumentamos a glória acidental dos mesmos (cuja glória essencial é a Visão Beatífica), como que ajudando a recompensá-los também neste mundo, e entre nós mesmos ajudamo-nos, mediante orações, bons exemplos, apostolado, etc., a alcançarmos o fim sobrenatural para que fomos criados: o Céu. É, pois, realmente intensa a interatividade entre a Igreja do Céu, do Purgatório e da terra. Se pudéssemos ver78...
Na terra, pertencem à única Igreja de Cristo os que são batizados, crêem em tudo quanto a Igreja ensina e professam submissão ao Sumo Pontífice Romano (validamente eleito). Não pertencem, pois, à verdadeira Igreja, os pagãos (isto é, todos os não batizados), os hereges (que são aqueles que negam ou duvidam de uma ou mais verdades da Fé Católica), os cismáticos (que são os que recusam estar em comunhão com o Papa e os demais bispos unidos a ele) e os excomungados (ou seja, os expulsos da Igreja por causa de algum crime). Outras espécies de pecadores são tolerados na Igreja, de modo que esta vem a compôr-se, na terra, tanto de bons católicos quanto de maus católicos: aqueles são seus membros vivos e estes os seus membros mortos. Fora da Igreja não há salvação79, bem como também não se salvam os que, apesar de pertencerem à Igreja, morrem em pecado mortal.
Quando falamos de "Comunhão dos Santos", estamos nos referindo a uma espécie de união sobrenatural que Deus instituiu entre os membros da Igreja na terra, no Purgatório e no Céu, pela qual eles como que põem em comum entre si os bens sobrenaturais que alcançaram. Embora a salvação eterna ocorra de modo individual, e não de modo coletivo, todavia os membros da Igreja se ajudam mutuamente na obtenção da glória celeste, através daquilo que se chama de reversibilidade dos méritos.
Não podemos repartir diretamente com os outros a parte do nosso mérito chamada "de justiça", ou seja, nossos graus de Graça Santificante e de Glória Eterna são intransferíveis. No entanto, a realidade é que quanto mais Graça Santificante possuirmos, tanto mais poderemos ajudar as outras almas. Isso porque Deus se agrada tanto mais em derramar Graças Atuais eficazes através de uma alma, quanto mais esta estiver unida a Ele pela Graça Santificante, visto que, diante dEle, uma pessoa vale tanto quanto possui de Graça Santificante, nem mais nem menos. É essa a explicação do fato, registrado inúmeras vezes pela história da Igreja, de que até a simples presença de um Santo converte e eleva mais almas do que os esforços de todos os pregadores pouco santos. As mesmas coisas, ditas às mesmas almas, por quem possua muita Graça Santificante, produzem muito mais efeito do que quando ditas por um cristão medíocre e pouco rico sobrenaturalmente. (Pelo que se vê quanto estão iludidos os que esperam produzir frutos de apostolado sem estarem mergulhados na vida sobrenatural: somente o sobrenatural que transborda numa alma é que atinge decisivamente as outras almas80.) O bem é, por sua natureza, difusivo, e, assim, o Bem Sobrenatural presente numa alma em estado de Graça, tende a difundir-se, a espalhar-se, a beneficiar as outras almas, a começar por aquelas que estiverem próximas. Quanto mais Graça Santificante uma alma possua, mais Deus olha para ela com amor e, por causa dela, espalha Graças Atuais à sua volta. E se uma alma em estado de Graça Santificante atrai as Graças Atuais a seu ambiente, uma pessoa em pecado mortal, pelo contrário, as afasta daí, e tanto mais quanto mais numerosas ou piores forem as culpas que traz na alma. Exercemos influências sobrenaturais de que nem suspeitamos...
Nossas boas obras, contudo, além do mérito propriamente dito (o mérito "de justiça", e que é um direito a possuir mais Graça Santificante nesta vida e mais Glória na outra), têm também um valor impetratório e um valor propiciatório81.
'Valor Impetratório', isto é, nossas boas obras são premiadas por Deus com a concessão de Graças Atuais para nós e para os outros por causa de nós.
'Valor Propiciatório', isto é, nossas boas obras servem como expiação direta dos nossos pecados e podem servir também para pagar as dívidas das almas do Purgatório e reparar, indiretamente, os pecados das outras pessoas deste mundo.
Quando uma pessoa em estado de Graça reza, por exemplo, o Rosário, ou faz um dia de jejum, essa sua boa obra, além de lhe adquirir méritos para a eternidade, expiar parte de seus pecados e obter-lhe novas Graças Atuais, ainda alcança Graças Atuais para outras pessoas ao redor do mundo, afasta castigos (sobretudo espirituais) que os pecadores mereceriam, e pode mesmo ajudar a libertar almas do Purgatório. Esse terço, pois, que alguém reza aqui, pode estar sendo decisivo para que um pagão se converta lá na China, ou para que um católico não se torne protestante lá na Inglaterra, bem como esta inspiração de fazer mais penitência que alguém aqui teve, pode ser fruto das orações de uma alma que ele nunca viu na vida. Assim, Deus reverte o valor de nossas boas obras em benefício de almas que nem imaginamos, como também faz chegar até nós graças nascidas das boas obras de pessoas que também nem sonham com a nossa existência. E isso não apenas nas dimensões do espaço, mas também nas do tempo: Deus pode reverter os méritos impetratórios e propiciatórios de uma pessoa do século XIII, por exemplo, em benefício de outra do século XX, ou vice-versa, de modo que a Comunhão dos Santos garante um entrelaçamento sobrenatural entre os méritos das almas, superando as categorias de espaço e tempo. Sirva essa verdade de estímulo para jamais nos cansarmos de fazer boas obras em prol das almas, ainda quando não vejamos nenhum fruto aparente de nosso zelo. Pois, como diz-nos o Padre Scrijvers, numa página memorável:
“o serviço que os homens prestam à causa divina não é, geralmente o que se vê. O reino de Deus, ainda que exista neste mundo, não é deste mundo: é espiritual e, portanto, oculto. Muito do que julgamos ver em volta de nós não passa de aparência. Muitos dos personagens que neste mundo parecem ocupar um lugar importante, dirigir os negócios, favorecer ou combater interesses, são meras sombras que passam um instante para dar lugar a outras sombras. Mas o pano não se levanta e a peça principia sem que os verdadeiros atores se mostrem. E este cenário é imenso. Circunscritos entre horizontes limitados, apenas percebemos alguns detalhes. Como, pois, nestas condições, julgar do papel que Deus reserva a cada um? Porque só Ele distribui os papéis, e os adapta ao conjunto, e os faz convergir para um fim, só dEle conhecido.
Como nos enganamos supondo a nossa vida sem utilidade e estéreis os nossos esforços, só porque o êxito não os veio coroar!
Há homens eminentes votados ao serviço do bem, quer no mundo quer no claustro, cujos empreendimentos aparentemente goraram. (...) Contudo, ninguém triunfou tanto como esses homens sempre derrotados, ninguém teve um êxito tão real como esses heróis sempre vilipendiados, sempre derrubados pela violência, ninguém prestou tantos serviços à causa da verdadeira civilização e da Fé como esses eternos vencidos. (...)
Aquele que se julga destinado a um perpétuo insucesso, é quem mais vitórias conta aos olhos de Deus; aquele que se tem por incapaz de grandes feitos é, sem que o saiba, escolhido pelo Mestre Soberano para lançar as bases das Suas obras mais belas; aquele que se lamenta em segredo da inutilidade da sua vida torna-se instrumento de salvação para milhares de pecadores; aquele cujos empreendimentos são contrariados, cujas intenções são condenadas, cuja existência é despedaçada como um torrão que se esmaga, torna-se a rocha inquebrantável, a pedra angular, sobre a qual Deus levantará o edifício da Sua glória.
Sem dúvida, esses homens e mulheres nem sempre serão as felizes testemunhas desse triunfos, os espectadores agradecidos dessas ressurreições. Deixarão talvez esta terra esmagados sob o peso dos seus reveses e desilusões, mas Deus vela e acolhe os seus esforços. Virá um dia em que recompensará os seus sacrifícios e o tempo em que fará que a semente produza fruto centuplicado. (...)
A oração, o exemplo, os atos de um coração simples, produzem uma irradiação de graças cujos efeitos se comunicam a um número de almas cada vez maior, alargando sempre o seu círculo à medida que se afastam do foco donde promanam.
As relações das almas entre si, a sua dependência recíproca, a influência que exercem continuamente umas sobre as outras, são-nos quase inteiramente desconhecidas. Apenas sabemos, por alto, que Deus as santifica umas pelas outras, que concede às almas imperfeitas, fracas ou pecadoras, luzes e forças em atenção aos méritos daquelas que Lhe são caras, que aceita o sacrifício de certas almas para converter determinado pecador, afastar um flagelo da Igreja, apressar a conversão de uma nação. Mas os pormenores destas permutas misteriosas, destas influências secretas e desta solidariedade ficam para nós na penumbra” 82.
Não é em vão que a própria Virgem Maria, em Sua aparição de agosto de 1917, em Fátima – Portugal, disse aos pastorinhos:
“Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas” 83.
E São João Maria Vianney disse:
“Os pobres pecadores! Os pobres pecadores!... Há alguns que estão em suspenso. Um Pai-Nosso e uma Ave-Maria bastariam para fazer pender a balança... Quantas almas podemos converter pelas nossas orações!” 84
À Santa Gema Galgani, Nosso Senhor assim se expressou: “Minha filha, tenho necessidade de vítimas (...). Preciso de almas que expiem pelos pecadores e pelos ingratos com os seus sofrimentos e tribulações. Oh! Se Eu pudesse fazer compreender o quanto meu divino Pai está irritado contra o mundo ímpio!... Já nada retém a Sua Justiça, e um espantoso castigo está iminente sobre todo o universo” 85.
E Santa Verônica Giuliani, devido às suas vigílias de oração e penitência pelos pecadores, teve de ouvir dos demônios: “Maldita tu! Maldita tuas penitências! (...) Nos roubas almas: no-las pagarás!” 86.
Como dissemos, quanto mais Graça Santificante possuirmos, tanto mais nossas preces e sacrifícios terão eficácia para socorrerem o próximo. No Céu, a Igreja Triunfante, ou seja, os Anjos, os Santos e todos os Bem-Aventurados, oram incessantemente pelos membros da Igreja Militante (nós) e pelos membros da Igreja Padecente (as almas do Purgatório). E mesmo a intercessão de cada uma das almas habitantes do Céu é tanto mais eficaz quanto mais Graça Santificante ela tiver acumulado em vida e, por conseguinte, quanto mais glorioso for no Céu.
Assim sendo, quem poderá calcular o valor das preces da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, Ela que é a pura criatura que mais Graça Santificante possui? Realmente, Nossa Senhora é a “Onipotência Suplicante”, como A chamam os Santos, visto que tudo pode obter de Deus com Seus rogos, e Medianeira de todas as Graças, o que significa que todos os benefícios que nos vem do Pai Eterno, após passarem pela mediação de Jesus, o Verbo Encarnado, passam depois, e sempre, pela intercessão/mediação de Maria, de tal forma que, mesmo quando outros Santos intercedem e obtêm uma Graça, esta não deixa de passar por Maria. Nada melhor para nós, portanto, se quisermos obter muitas Graças Atuais, para nós e para os demais, do que sermos devotíssimos da Virgem Imaculada, a qual é como um grande, imenso reservatório onde o bom Deus concentrou o oceano ilimitado de Suas Graças. Como acima dissemos, quanto mais uma pessoa possui Graça Santificante, mais ela cativa o Coração de Deus e atrai Graças Atuais a um ambiente até só com sua simples presença. Aplique-se isso à Virgem Maria e se verá como tinha razão São Luís Maria de Montfort ao dizer que Nossa Senhora é, por assim dizer, um ímã ao Espírito Santo, atraindo-O irresistivelmente para junto dos devotos dEla87. Uma dica, portanto, que oferecemos aos nossos leitores, extraída dos escritos dos Santos, é que, na sua vida espiritual, insistam, de modo todo especial, nas duas devoções que mais próprias a atrair a Graça Atual: a devoção à Paixão de Cristo e a devoção à Virgem Maria, porque, afinal, o que moveria mais o Pai Celeste à piedade, do que a voz do Sangue de Seu Dileto Unigênito, cravado numa Cruz, e as súplicas dAquela a quem quis constituir Mãe de Seu Filho?
Essa riqueza inesgotável, constituída pelos Méritos infinitos de Cristo, pelos Méritos imensos da Virgem Imaculada e pelos Méritos de todos os Santos, foi confiada por Cristo à Sua única Igreja como um Tesouro Espiritual, do qual ela tira esses recursos inestimavelmente valiosos que são as Indulgências88.
A Confissão perdoa as nossas culpas e a correspondente pena eterna que elas mereceriam se foram graves, mas deixa ainda as penas temporais devidas a elas, isto é, deixa a alma ainda com dívidas sobrenaturais a pagar, em expiação dos pecados que cometeu. Essas dívidas temporais são como uma comutação, uma substituição das penas eternas merecidas pelo pecado: a perfeita Justiça Divina exige que seja satisfeita ao menos uma parte do castigo infinito que o pecado merece. Neste mundo, essa satisfação à Divina Justiça pode ser prestada através de orações, penitências e toda espécie de boas obras (constituindo a parte “propiciatória” dos nossos méritos) ou no Purgatório, através de dores sobrenaturais provocadas na alma.
A reparação, com efeito, que cada pecado, mesmo perdoado na Confissão, é bem mais grande do que comumente se imagina. Requer-se muitíssima oração e penitência para pagar a dívida de um só pecado mortal, mesmo já confessado (o que, contudo, ainda não é nada em comparação do inferno de que se escapou). Uma alma, então, que tivesse cometido muitos pecados graves, mesmo depois de confessá-los teria pouca probabilidade de conseguir expiar neste mundo as penas temporais devidas aos seus pecados, porque suas forças e sua vida seriam curtas para a intensidade de penitência que teria de fazer, e então necessitaria ainda, apesar de todos os seus esforços, de passar pelo fogo terrivelmente cruel do Purgatório.
Foi pensando nessas grandes dificuldades em que tantas almas se encontrariam, de expiar seus pecados já confessados, que Nosso Senhor confiou à Sua Igreja o poder de perdoar também as penas temporais devidas aos pecados já perdoados quanto à culpa. Isto, pois, é o que a Igreja faz concedendo uma Indulgência a alguém: ela oferece à Justiça Divina o seu Tesouro Espiritual, constituído pelos méritos infinitos de Jesus e pelos méritos da Virgem Maria e de todos os Santos, em reparação dos pecados daquela alma, com o que a dívida destes fica paga.
A Igreja, com a autoridade que Deus lhe conferiu, aplica o seu Tesouro Espiritual às dívidas daquela alma: se essa aplicação for sem limites, paga-se então, necessariamente, toda e qualquer dívida (uma vez que o Tesouro é infinito), e a isto dá-se o nome de Indulgência Plenária. Já se for uma aplicação limitada, pagar-se-ão, pois, só as dívidas que a quantia de méritos disponibilizada baste para cobrir, e a isto dá-se o nome de Indulgência Parcial.
Para, digamos, contudo, não facilitar demasiadamente a vida dos pecadores convertidos, a Igreja decidiu só conceder Indulgências sob o cumprimento de certas condições89. Podemos lucrar Indulgências para nós mesmos ou para as almas do Purgatório (acerca das quais trataremos ao falar da Vida Eterna), mas não para outras pessoas deste mundo, pois destas, que ainda podem se socorrer, Deus exige que por si mesmas aproveitem estes recursos para saldar suas dívidas sobrenaturais.
Pois bem; todas essas múltiplas riquezas espirituais, proporcionadas pela Comunhão dos Santos, a qual põe em comum, até certo ponto, os méritos dos membros do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja, essas riquezas são perdidas pelos que não pertencem à Comunhão dos Santos ou que dela participam imperfeitamente. Estão fora da Comunhão dos Santos aqueles que estão fora da Igreja, a saber: os pagãos, os hereges, os cismáticos e os excomungados. As outras almas em estado de pecado mortal, ou seja, os maus católicos, participam, mas apenas muito imperfeitamente, da Comunhão dos Santos, visto que, apesar de terem perdido a essência da Vida Sobrenatural, que é a Graça Santificante, todavia, como se conservam no número dos filhos da Igreja, ainda têm algum direito ao influxo sobrenatural de Graças Atuais provocado pelos méritos dos outros membros da Igreja, seus irmãos na Fé. Já os pagãos, hereges, cismáticos e excomungados, não sendo membros da Igreja de Cristo, não têm qualquer direito a mais mínima participação nos méritos destes, embora também recebam Graças Atuais, mas só a título de esmola, por assim dizer, as quais apenas por misericórdia se lhes dispensa, tendo em vista a sua conversão. Se queremos, pois, nos beneficiar plenamente do mistério da Comunhão dos Santos, tratemos de ser sempre católicos, e bons católicos, unindo a Fé e as Boas Obras, a pertença à Igreja e a posse da Graça Santificante.
11. A Predestinação
Por nós mesmos, sem o auxílio da Graça Divina, nunca seríamos capazes de fazer nem a menor boa obra em ordem à salvação eterna e, portanto, todos nós, descendentes de Adão, fatalmente iríamos nos perder. Devido ao pecado original e aos pecados atuais, todos os seres humanos viriam a ir para o inferno.
Para manifestar Sua Infinita Misericórdia, Deus decidiu impedir a perdição eterna de ao menos uma parte desta grande massa de condenados. Assim, desde toda a eternidade, Deus, que já previa todo o desastre que o pecado iria causar no gênero humano, escolheu, nominalmente, dentre todos os homens, quais os indivíduos que Ele levaria à salvação eterna através de Suas Graças Atuais eficazes, embora sem tirar-lhes o livre-arbítrio.
Quer dizer: só se salvam eternamente as pessoas que Deus, escolheu para serem salvas, e que somente Ele sabe quais são distintamente. As outras pessoas, Deus simplesmente, para manifestação de Sua Justiça, permite que sigam seu caminho (seu mau caminho) e se condenem.
Como ensina o Magistério da Igreja: “Deus onipotente criou o homem justo, sem pecado, com livre-arbítrio, e o pôs no paraíso, e quis que permanecesse na santidade da justiça. O homem, usando mal de seu livre-arbítrio, pecou e caiu, e se converteu em ‘massa de perdição’ (...). Mas Deus, bom e justo, elegeu, segundo Sua Presciência, da mesma massa de perdição, aos que por Sua Graça predestinou à vida, e predestinou para eles a vida eterna; aos demais, no entanto, que por juízo de Justiça deixou na massa de perdição, soube por Sua Presciência que haveriam de perecer, mas não os predestinou a que perecessem; mas, por ser justo, lhes predestinou uma pena eterna” (Concílio de Quiersy, em 853, sob o papa Leão IV (847-855): Denzinger, nº 316).
A predestinação ao Céu (que é a única que existe, não havendo predestinação para o inferno), não significa que Deus tire a liberdade humana de Seus Eleitos. Quando uma pessoa se salva, se salva porque Deus predeterminou que ela, atraída pelas Graças Atuais, livremente quereria salvar-se, de modo que Deus e ela são responsáveis por sua salvação. Já quando uma alma se condena, se condena porque ela mesma escolheu livremente o pecado e nele morreu, sendo que Deus apenas permitiu, tolerou que ela seguisse seu caminho para o abismo, sem Ele intervir decisivamente.
Todos os seres humanos, devido ao pecado original e aos outros pecados, iriam se perder eternamente. Para impedir uma tão universal desgraça, o Verbo Eterno se fez homem e morreu na Cruz por todos os homens, mesmo por aqueles que Ele já previa que se perderiam, para poder, com Seu Sangue, abrir novamente as portas do Céu aos filhos de Adão. Mas a maldade e fraqueza destes é tão grande, que sem uma intervenção especial de Deus mesmo da Redenção de Cristo não se aproveitariam jamais. Em Sua Providência Divina, cuja Sabedoria supera infinitamente a nossa, Deus escolheu, então, intervir na vida de determinadas pessoas, para salvá-las, enquanto que as outras não receberão essa intervenção. Assim é que Deus, desde toda a eternidade, decretou que, dentre a massa de condenados que seria todo o gênero humano, tais e tais pessoas determinadas receberiam graças especiais, que as levariam a, livremente, se salvarem. Aos outros, excluídos desse decreto, simplesmente não se concederão essas graças especiais e se se permitirá que sigam a estrada da perdição, se o quiserem (o que é certo que quererão, devido à corrupção que o pecado original deixou na natureza humana, ao ponto de que esta, sem um socorro quase milagroso de Deus, só se inclina para o pecado).
E ninguém acuse Deus de ser injusto não distribuindo as mesmas graças para todos, pois Ele é absolutamente livre na distribuição de Seus bens, não devendo nada a ninguém a não ser aquilo que já tiver prometido que concederá. Além disso, essas desigualdades na obra da Criação contribuem todas, de várias maneiras, para a finalidade suprema e geral do universo: a Glória de Deus. Assim, Deus escolhe salvar uns e permite, tolera que outros pequem e se condenem, para manifestar nos primeiros a Sua Misericórdia, e nos segundos a Sua Justiça. E faz tudo de tal forma que ninguém é obrigado a salvar-se ou, menos ainda, a perder-se: os Eleitos são atraídos de modo especial à salvação, e os não-eleitos simplesmente não recebem essa atração especial.
A liberdade humana e a Divina Predestinação não se contradizem porque cada uma opera, por assim dizer numa esfera, num plano diferente. A liberdade humana é a causa próxima de nossas escolhas, pelas quais somos inteiramente responsáveis, pois nós mesmos quisemos isto ou aquilo. Já o decreto eterno da Predestinação é causa remota de nossas escolhas. Assim, portanto, é que Deus, desde toda a eternidade, decidiu levar os Seus eleitos, a decidirem-se, livremente, por cada uma dessas boas obras que fazem: coroando os méritos destas, depois, estará coroando Seus próprios dons. Quando, porém, alguém escolhe o pecado, a culpa é toda dele mesmo, e não de Deus, que apenas decidiu tolerar essa maldade, sem nunca a querer ou aprovar.
Uma pessoa, por exemplo, recebe dignamente a Santa Comunhão num certo dia. O mérito é dela, porque ela mesma quis livremente realizar esta boa ação. Todos, a começar por ela, podem ver que ninguém a forçou a ir comungar. Mas, o que não se vê, embora realíssimo, é o decreto eterno pelo qual desde toda a eternidade Deus tinha determinado que aquela comunhão aconteceria, porque Ele mesmo se encarregaria de cercar aquela alma de todas as condições materiais e graças espirituais necessárias para ela querer e poder comungar no dia tal e no lugar tal.
Uma outra pessoa, pelo contrário, resolve cometer o gravíssimo pecado de se tornar protestante. Deus, que odeia infinitamente o protestantismo, jamais poderia querer uma tal desgraça para um filho adotivo seu. Todavia, Ele tolera que esse pecado ocorra, para daí tirar algum bem maior na ordem do universo, que se destina essencialmente à maior Glória de Deus. E aqui nossa curiosidade deve se contentar com, no máximo, conjecturas, pois os “porquês” das escolhas e permissões de Deus são segredos que só nos serão revelados naquele último dia da história humana, quando o Juiz Supremo reunir diante de Seu Trono todos os vivos e os mortos... É verdade que, como dizia um pensador brasileiro90, “o mistério das permissões divinas nos traz vertigens”, mas, no dia final, veremos claramente o que agora firmemente cremos: Deus sempre age com perfeita Sabedoria, Justiça e Amor.
Nenhuma alma adquire em sua vida mais Graça Santificante nem mais méritos do que aquela quantidade que Deus predestinou que ela livremente obterá. Todas as nossas boas obras são, pois, fruto próximo de nossa liberdade ajudada pela Graça, e fruto remoto da Divina Predestinação a nosso respeito. Se Deus predestinou uma alma, portanto, a uma santidade de grau x, essa alma necessariamente receberá as Graças Atuais exatas para vir a tomar livremente as decisões que a conduzirão àquele grau de santidade a ela predestinado. De modo algum, porém, isso significa que ela poderá cruzar os braços e esperar que a Predestinação faça tudo. Antes, muito pelo contrário, predestinando os fins, Deus, que se compraz em agir através de causas segundas, predestina também os meios. Predestinando São Francisco de Assis, por exemplo, para ser o Santo que foi, predestinou também que os meios para tanto seriam a pobreza, as humilhações, as cruzes de toda espécie, a oração, o jejum, etc., meios que Francisco abraçaria livremente, porque Deus decidiu, desde sempre, que a liberdade de Francisco assim escolheria.
Deus move a nossa liberdade a querer livremente o bem que Ele decidiu, desde toda a eternidade, que deveria, necessariamente, ser feito por nós, no dia tal, no lugar tal, e nas circunstâncias tais. O decreto predestinatório, portanto, sempre se cumpre, infalivelmente, mas sem chocar-se com a natureza livre de nossa vontade.
Deus nunca predestina, porém, o mal sobrenatural, isto é, o pecado e o inferno, para ninguém. Quem não foi predestinado para o Céu, simplesmente não é então predestinado para nada em relação à eternidade. Deus apenas o deixará seguir seu caminho livremente, sem Ele intervir (o qual, entretanto, só pode acabar mal, visto que, sem a intervenção especial e decisiva de Deus em sua vida, o homem, corrompido pelo pecado original, acaba sempre seguindo, por sua vontade, o caminho do mal).
Em relação a estes não-predestinados ao Céu, Deus marca, porém, o limite de tolerância que usará com eles. Para cada um dos não-eleitos Deus marcou uma medida para suportá-lo, preenchida a qual, imediatamente ele é lançado no inferno. Para um, o limite será de 100 pecados mortais, para outro de mil, e para um terceiro, será um único pecado mortal. Preenchida esta medida e atingido este limite predeterminado, antes que a tal pessoa torne a cometer um outro pecado mortal, já estará no inferno. Como nenhum de nós sabe se é ou não predestinado ao Céu e, se no caso de não sermos, não sabemos então qual o limite de tolerância que Deus decretou usar conosco, abstenhamo-nos, pois, de todo pecado grave, pois pode ser um só pecado mortal a mais já baste para completar a nossa medida e nos precipitar numa noite eterna... Sempre pode ser que o próximo pecado, seja também o último, o fatal, o eternamente decisivo...
Afirma Santo Afonso de Ligório, Doutor da Igreja:
“Deus espera o dia em que se completa a medida91 dos pecados, e depois castiga. (...) Ora, a medida dos pecados não é igual para todos. A um perdoa Deus cem pecados; a outro, mil; outro, ao segundo pecado, se verá precipitado no inferno. A quantos condenou após o primeiro pecado! Refere São Gregório que um menino de cinco anos, por ter proferido uma blasfêmia, foi lançado no inferno. Segundo revelou a Santíssima Virgem à Bem-Aventurada Benedita de Florença, uma menina de doze anos fôra condenada por seu primeiro pecado. Outro menino, de oito anos de idade, também morreu com o primeiro pecado e se condenou. Lemos no Evangelho de São Mateus que o Senhor, a primeira vez que achou a figueira sem fruto a amaldiçoou, e a árvore secou (Mat 21, 19)” 92.
Com efeito, ninguém sabe se é ou não predestinado ao Céu, e disso devem resultar as mais graves conseqüências para nós.
Em primeiro lugar, humildade, extrema humildade. Neste mesmo instante em que uma pessoa é elogiada por suas virtudes aqui, pode ser que lá no inferno um lugar já a esteja esperando, na qualidade de não-escolhida para salvar-se... Sempre pode ser que venhamos a cair no inferno. Por mais boas obras que tenhamos feito em nossa vida, basta, por exemplo, consentir em um pensamento gravemente pecaminoso e morrer logo depois, e tudo estará perdido para nós. Em verdade, é facílimo ir para o inferno: nossa natureza é extremamente frágil e inclinada ao mal; nossos inimigos espirituais nos cercam a toda hora e por toda parte; basta um pecado mortal em pensamento para perdermo-nos; a Justiça Divina é rigorosíssima; e, para completar, a qualquer instante podemos morrer... Realmente, é louco ou ignorante quem acha que com certeza irá se salvar! Quase se pode arriscar um cálculo que, de cada três possibilidades acerca de nossa eternidade, duas são de que nos percamos... Existem, pois, probabilidades reais, tremendamente reais de que o Céu não tenha sido feito para mim e/ou para ti, e que, por nossa culpa, fiquemos fora dele, para sempre (claro que advertindo disso não queremos levar ninguém a perder a Esperança). Como orgulharmo-nos portanto? Como julgar-nos seguros quanto à nossa salvação eterna? Como pensar-nos já suficientemente bons para ganhar o Céu? E como desprezar, pois, o nosso próximo, mesmo que ele esteja no pecado e nós no serviço a Deus, sabendo-se que esses papéis podem sempre, até o nosso último suspiro, se inverter? Lembremo-nos de que, se não fosse a intervenção de Deus em nossa vida, não há crime algum que não fossemos capazes de cometer também. Humildade, humildade... De nós mesmos temos só o nada e o pecado.
E uma segunda conseqüência que devemos tirar do fato de não sabermos se somos ou não predestinados ao Céu é o fervor no serviço a Deus. Quem tivesse a salvação garantida talvez pudesse descansar. Mas nem de longe é esse o nosso caso: o Céu só será nosso se o arrebatarmos à força de boas obras93. Como dissemos, predestinando os fins, Deus predestina também os meios, as causas segundas que entrarão em jogo para a obtenção daquele fim. E o Céu, Deus o predestinou para ser conquistado com a espada de nosso esforço pessoal. E sendo a Divina Predestinação apenas causa remota de nossas escolhas, é então ao nosso livre-arbítrio que, como causa próxima, compete determinar-se ao trabalho pela salvação: oração, penitência, recepção dos Sacramentos, uso dos Sacramentais, obras de misericórdia para com próximo, santificação das atividades comuns por meio de intenções sobrenaturais – eis aí o material com que se confecciona no Céu a coroa dos Eleitos.
Claro, porém, que, para tanto, essas boas obras pressupõem a Fé Católica na alma que as realiza, visto que “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hbr 11, 6). As boas obras feitas pelos não-católicos (e também as feitas pelos católicos em estado de pecado mortal) têm apenas um valor indireto em relação à eternidade, servindo para atrair sobre os que as fazem a graça da própria conversão, mas sem obterem qualquer recompensa na vida eterna. Como nos explica o Padre Manoel Bernardes: “Um homem que quer tratar da sua salvação, que é o que deve fazer? Duas coisas: bem crer e bem obrar. Bem crer, porque sem fé divina é impossível agradar a Deus. Bem obrar, porque a fé sem obras é morta. Por falta de fé se condenam os infiéis, ainda que porventura façam obras moralmente boas. Por falta de obras se condenam muitos cristãos, ainda que tenham fé94”.
As boas obras são predestinadas por Deus para serem causa da salvação eterna dos Eleitos. Quanto mais boas uma pessoa faz, por conseguinte, mais pode ter esperança (não certeza) de pertencer ao número dos Eleitos. Já quem não tem boas obras, isto é, não reza, não faz penitência, recusa os Sacramentos, etc., não espere ganhar o Céu a troco de nada. Só as crianças batizadas mortas antes do uso da razão é que, por uma Predestinação especial, alcançam o Céu sem esforço pessoal. Os mais, só com Fé e Obras podemos nos salvar.
O leitor compreenda que, embora uma boa obra só aconteça se tiver sido predestinada por Deus a ser feita, e se foi predestinada infalivelmente ocorrerá, isso não afeta minimamente o livre-arbítrio daquele que foi predestinado para fazê-la, pois este foi então predestinado para fazê-la livremente.
A Predestinação e a liberdade agem, por assim dizer, em esferas, planos, dimensões diferentes de realidade, donde ser cada uma absoluta em sua realidade e ação, mas deixando intacta a realidade e ação da outra. Não há colisão, mas sim, interpenetração entre ambas. Assim, toda boa obra realizada é fruto tanto da liberdade humana que a quis fazer, quanto do decreto eterno pelo qual Deus determinou conceder a graça dela ser feita por aquela pessoa. A Predestinação age através de nossa liberdade, e não contra ela.
Na prática, portanto, quem vive uma vida cheia de Fé e Boas Obras, vive uma vida de predestinado ao Céu e só se abandonar tal vida é que se perderá. E já quem leva uma vida de pecado, leva, por sua vontade está claro, uma vida de não-predestinado ao Céu. Conclusão: já que, na prática nossa salvação depende de nós, à luta pois! Se formos predestinados, nossos méritos vencerão; e se não o formos, e por nossa culpa então não perseverarmos, ao menos teremos amado ao bom Deus durante uma parte de nossa existência e acumulado méritos que, se Deus prevê que não poderá recompensar na outra vida, recompensá-los-á então nesta. Nossas boas obras jamais ficam sem recompensa: esta virá na eternidade, se formos do número dos Eleitos, ou no tempo, se Deus prevê que por nossa culpa nos perderemos. Temos, pois, sempre, o máximo interesse em fazer muitas boas obras (isto é, muita oração, muita penitência, etc...), e loucura maior que a de não fazer obras sobrenaturalmente boas, só a de fazer obras sobrenaturalmente más, ou seja, pecar.
Com efeito, a terceira conseqüência que devemos tirar de não sabermos se somos ou não predestinados ao Céu, é a de não pecar de jeito nenhum. Como dissemos, não existe predestinação ao pecado. Se pecamos, a culpa é toda nossa. Deus marcou para cada não-eleito um limite de tolerância para usar com ele, atingido o qual vem um castigo de morte levá-lo para o inferno. Entretanto, o não-leito não é de modo algum obrigado a preencher essa medida, e nem sequer a começar a preenchê-la. Donde ninguém, mesmo que seja um não-eleito ao Céu (e como saber se se é ou não?), pode alegar ser obrigado a pecar.
É do máximo interesse, tanto para os Eleitos quanto para os não-eleitos, evitar o pecado. Os Eleitos, quanto mais pecados cometerem, mais retardarão sua chegada ao Céu, mais acumularão penas a expiar neste mundo ou no Purgatório, menos farão o bem neste mundo e menos prêmios receberão no Céu, para sempre (pois se tivessem resistido à tentação obteriam com isso um mérito a mais para a eternidade). Os não-eleitos, quanto mais pecados cometerem, mais apressarão sua queda no inferno, mais acumularão castigos a padecer lá eternamente (visto que cada pecado é punido no inferno com um mais novos graus de dores infernais, para sempre) e menos recompensas temporais obterão nesta vida (desgraçando assim até a sua vida neste mundo).
Como não sabemos se somos do número dos Eleitos ou dos não-eleitos, logo em todo o caso o melhor é não pecar.
Os não-eleitos, por sinal, se pudessem saber que são não-eleitos, seriam especialmente estúpidos se pensassem em mergulhar na lama do pecado para aproveitarem a vida enquanto não caem no inferno, pois o inferno deles será tantas vezes pior quanto mais houverem pecado aqui, e só um louco pensaria que vale a pena ser eternamente mais atormentado em troca de uns míseros e passageiros prazeres. De dois males o menor: antes ser queimado a um milhão de graus do que a 500 bilhões de graus... Ó se os homens soubessem o que lhes custará na outra vida o que nesta se permitem!
A maldade humana, porém, é tão grande, que, apesar da falsa esperança tão espalhada hoje em dia, pela qual inúmeras pessoas acham que o inferno é uma possibilidade muito remota de acontecer, o que sabemos através dos Santos e místicos da Igreja é que muitas, muitíssimas almas caem no fogo eterno. Certa vez, por exemplo, o Beato Antonio Baldinucci, S.J., pregando ao povo debaixo duma árvore, disse: “Vêde, vêde como caem almas no inferno: assim como caem as folhas de uma árvore agitada pelo vento”. E no mesmo instante a multidão presenciou um fenômeno estranho: caíram por si mesmas praticamente todas as folhas da árvore sob a qual se pregava95... Visões tidas por servos de Deus falam de muitas, realmente muitas almas caindo no inferno, quase como caem os flocos de neve numa nevasca podemos acrescentar...
“Segundo certa revelação, que referem alguns autores críticos, quando morreu São Bernardo, morreram no mesmo instante trinta mil pessoas por todo o mundo. Estas trinta mil almas, sendo julgadas por Jesus Cristo, só duas delas foram logo para o Céu, qual foi a de São Bernardo e a de outro Santo, e três para o Purgatório: todas as mais baixaram ao inferno! Oh! Caso espantoso para nós e para todos! De trinta mil almas só se salvaram cinco! Se nesse tempo, em que florescia tanto a Religião em virtudes e bons costumes; se nesse tempo, em que os claustros estavam cheios de religiosos e religiosas, os desertos e as solidões de penitentes, as cidades, vilas e aldeias cheias de cristãos fervorosos, se salvaram tão poucas almas, que será agora, quando a Religião tem perdido tanto do seu lustre, quando os conventos estão vazios, os desertos despovoados de penitentes, e o mundo todo cheio de maldade?” 96
“São muitos os chamados, e poucos os Eleitos” (Mat 20,16), disse o mesmo Verbo Encarnado aos Seus Apóstolos.
Salvo revelação particular, jamais saberemos durante esta vida se somos ou não predestinados ao Céu97. Podemos, contudo, ter alentada a nossa esperança através dos sinais de predestinação. Estes são certos sinais que indicam, mas não infalivelmente, que aquele que os possui está incluído no decreto eterno da Predestinação e, portanto, receberá a graça de morrer na amizade com Deus. A este respeito, ouçamos o Padre Faber, um dos maiores autores de espiritualidade no século XIX, e morto ele mesmo com fama de santidade:
“Em matéria espiritual, Deus se compraz em instruir Sua Igreja por meio dos Seus Santos (...). Ora, os Santos mencionam sete coisas às quais chamam: os sinais da Predestinação. (...) Estes sinais são: a imitação de Cristo, a devoção a Nossa Senhora, as obras de caridade, o amor à oração, a falta de confiança em si, o dom da Fé e as misericórdias passadas que o Senhor nos concedeu” 98.
Sem dúvida, outras coisas também poderiam apontar-se como sinais de Predestinação, assim como, por exemplo, a devoção à Paixão de Nosso Senhor, extremamente recomendada por vários Santos. Se percebemos atualmente em nós algum, vários ou todos esses sinais, agradeçamos sem cessar a Deus por Sua Misericórdia para conosco, e imploremos-Lhe muito a graça da perseverança, visto que também não adianta para a eternidade começar bem e acabar mal, pois, como disse Nosso Senhor: “Aquele que perseverar até o fim, este será salvo” (Mat 24, 13).
E se, pelo contrário, o que vemos em nossa vida é pecado, então armemo-nos de coragem e, com o socorro da Graça Atual, entremos na luta por nossa salvação, que bem pode ser que essa guerra seja o caminho predestinado para chegarmos ao Céu. Como diz São Bernardo de Claraval: “Não há cautela excessiva quando periga a eternidade” 99.
Todavia, se quisermos apontar um sinal de não-predestinação ao Céu, devemos apontar então o bom êxito material dos pecadores. Não se trata, é claro, de um sinal infalível e certeiro, mas o fato é que Deus, quando prevê que uma alma vai se perder eternamente, paga-lhe então nesta vida o que porventura tiver feito de bom, e paga-lhe concedendo-lhe saúde, vida longa, riquezas, prosperidade nos negócios, alegrias na família, etc. Por isso, dizia Santo Ambrósio: “Eu tremo quando vejo o pecador feliz” 100, e São Jerônimo afirmava: “Considerai que é grande a cólera de Deus quando não castiga os pecadores” 101. O mundo não compreende esta verdade, mas a cruz, o sofrimento é a marca comum dos Eleitos: neste mundo, Deus açoita àqueles que ama, e castiga os que tem por filhos (cf. Hbr 12, 6).
Confiemos na Misericórdia Divina. Desejar ardentemente a salvação e brigar realmente por ela, é sinal claro de que a Graça vai nos arrastando livremente ao Céu... Confiança, pois! Certeza não podemos ter, mas esperança sim, e temos mesmo a obrigação de exercitar-nos nessa virtude, sempre tão agradável a Deus. Entre o desespero e a presunção, que são pecados graves, o que devemos ter é a Esperança102, com seu tranqüilo confiar e com seu enérgico lutar. Firmemo-nos nessa espera, que Deus não decepciona os bons esforços de ninguém. E depois? Voltando com nosso pensamento lá no início de tudo, ouçamos mais uma vez o Padre Faber:
“Depois, parece que somos arrancados de nós mesmos, levados para longe, e encontramo-nos entre montanhas desertas, banhadas por um mar sombrio, cujas ondas coléricas despertam ecos eternos. Estamos no meio da predestinação eterna do Entendimento divino. É o cenário onde se desenrola o primeiro ato de Deus para conosco. Quão imenso e potente é esse ato! Que de conseqüências não traz consigo sob qualquer ponto de vista em que se o considere! Que profundo mistério o envolve! Assim como os raios solares não mancham as nuvens, assim também este ato não prejudica de modo algum o nosso livre-arbítrio. Quão terrível, todavia, é o simples fato de que o destino que nos preparamos é já conhecido d’Aquele que nos marcou um ludar. Em certa parte da criação uma morada está pronta e desocupada; pertence-nos. Mas, onde?” 103 ...
12. A Vida Eterna
Um quadro, pintado pelo próprio Santo Afonso de Ligório, e exposto no refeitório dum de seus conventos, retratava uma significativa imagem: um homem morto, estendido no chão, já em decomposição. Sobre ele, um relógio de areia já parado e uma inscrição: “A sua hora passou”.
Dia virá em que nós seremos esse cadáver, e os que olharem para nosso túmulo talvez se lembrem de que ali jazem os restos mortais de uma alma para quem todo o tempo acabou.
A nossa hora... A hora de nossa vida, tão rápida e irrepetível, o tempo que agora nos é dado, acabará, passará, e nossa existência, que nunca terá fim, apenas colherá eternamente os frutos dessa jornada, nem mais nem menos. Só temos esta chance de preparar o nosso futuro eterno. Depois, tudo estará acabado, ou antes, fixado, perpetuamente fixado no que escolhemos. Compreendemos a gravidade, pois, de tudo quanto se passa nessa nossa vida terrena? Cada segundo vivido tem ressonâncias de eternidade...
Deus nos criou precisamente para que nós O conheçamos, sirvamos e amemos, e assim salvemos a nossa alma. Não estamos neste mundo para outra coisa. O sentido de nossa existência terrena é prepararmos a nossa eternidade. O negócio de nossa salvação deve ser, pois, o interesse central de nossa vida.
“Se um rei enviasse um embaixador a uma grande cidade, a fim de tratar de um negócio importante, e esse ministro, em vez de ali dedicar-se à missão que lhe fôra confiada, só se ocupasse de banquetes, festas e espetáculos, de modo que por negligência fracassasse a negociação, que contas poderia dar ao rei à sua volta? Do mesmo modo, ó meu Deus, que conta poderá dar ao Senhor no dia do Juízo aquele que, colocado neste mundo, não para divertir-se, nem enriquecer, nem adquirir honras, senão para salvar a sua alma, infelizmente a tudo atendeu, menos à sua alma?
(...) Não se trata de uma casa, de uma cidade, de um emprego; trata-se, – diz São João Crisóstomo, – de padecer uma eternidade de tormentos e de perder um paraíso de delícias. E este negócio, que tanto te deve importar, queres arriscá-lo por um ‘talvez’? ‘Quem sabe – dizes, – se me condenarei? Espero que Deus mais tarde me há de perdoar’. (...) Por acaso te atirarias a um poço, dizendo: ‘Talvez escape da morte’? – Não, de certo. Como podes [pois,] expor a tua salvação numa tão frágil esperança, num ‘quem sabe’? Oh! Quantos, por causa dessa maldita falsa esperança, se perderam!” 104
Uma sentença já está decretada: morreremos. Cada passo e cada minuto nos aproxima mais daquele momento em que o tempo de Misericórdia acabará para nós e teremos de acertar nossas contas com a Justiça Divina. Como, porém, será a nossa morte? Onde será? E, sobretudo, quando será? Não o sabemos. Hoje mesmo pode bem ser o último dia de nossa vida. Morre-se com tanta facilidade... pode ser, pois, que quando menos pensarmos nos encontremos diante do Tribunal Divino.
Como diz a Escritura: “Que é vossa vida? É vapor que aparece por um instante” (Tgo 4, 14).
“Em cada século as casas, as praças, as cidades enchem-se de novos habitantes. Os antecessores estão no túmulo. Assim como para estes passaram os dias da vida, assim virá o tempo em que nem tu nem eu, nem pessoa alguma das que vivemos atualmente, existirá na terra. Todos estaremos na eternidade, que será para nós, ou intérmino dia de alegria, ou noite eterna de tormentos. Não há aqui meio termo” 105.
Então, ao saímos deste mundo, tudo quanto fizemos nesta vida estará bradando à nossa consciência: “Somos a tua obra, e não te deixaremos. Acompanhar-te-emos à outra vida, e contigo nos apresentaremos ao Eterno Juiz” 106.
“Compara-se a nossa morte ao eco, que como este responde à voz, assim a morte responde à vida” 107.
Na morte, a alma se separa do corpo e, imediatamente, passa pelo Juízo Particular. É o grande momento da verdade a respeito de nós mesmos. Cristo Juiz infundirá na alma uma luz de conhecimento que lhe fará lembrar-se com exatidão de toda a sua vida, e enxergar qual a apreciação que a Justiça Divina faz de todos e cada um dos pensamentos e palavras, atos e omissões de toda esta mesma vida. Num instante, veremos a mais completa verdade sobre nós mesmos e o que merecemos. O estado de nossa alma, maravilhosamente adornada pela Graça Santificante, ou terrivelmente desfigurada pelo pecado grave, será descoberto aos nossos olhos. Todas as graças que recebemos e todos os pecados que cometemos, tudo nos será manifesto.
“Cada dia, cada instante, a Justiça de Deus registrou nossas ações. Cada momento de nossa existência, cada respiração, cada batida de nosso pulso, se assim posso me exprimir, cada manifestação de nossos pensamentos, tem conseqüências eternas. E esta história sem igual nos será apresentada um dia” 108.
Para a alma que tiver amado o bom Deus, o Juízo Particular não será senão o momento inicial de seu triunfo eterno, mas para aquela alma que tiver morrido em pecado grave, será o começo de sua maldição sem fim.
"Aquilo que o homem semear, isso também colherá” (Gl 6,8).
Bem-aventurado, portanto, aquele que morrer em estado de Graça Santificante! A morte ratificará para sempre a sua amizade e união com Deus e nunca mais poderá pecar, nem venialmente. Sua liberdade estará imovelmente fixada em Deus, Sumo Bem. Acabou para ela toda possibilidade de ser tragada pelo inferno: “Vem, minha esposa, sai do lugar do pranto, da cova dos leões que te quiseram devorar” (Ct 4, 11).
Saindo do julgamento, esse Eleito será conduzido por seu Anjo da Guarda ao local no Céu que Deus lhe predestinou ‘desde antes da criação do mundo’(cf. Mat 25,34), desde sempre. E então, no Céu, dar-se-á a última consumação da Vida Sobrenatural a que Deus quis nos elevar: a Graça Santificante presente naquela alma será transformada, atingindo seu estado mais perfeito possível, tornando-se Visão Beatífica, a glória essencial do Céu, o que faz a felicidade suprema dos Eleitos.
A Visão Beatífica é simplesmente a Graça Santificante sem os véus de mistério que Deus lhe impôs nesta vida e que a impedem de manifestar-se em seu excelso esplendor. Passados, porém, os limites deste mundo de prova, Deus concede à Graça Santificante, presente na alma que morreu possuindo-a, que se manifeste em todos os seus efeitos, plenamente. Além disto, Deus então também acrescenta à Graça Santificante uma nova qualidade, que a aperfeiçoa ao ponto mais sublime: aquilo que os teólogos chamam de “Lumen Gloriae”, isto é, a “luz da glória”. Chegou, enfim, a tão esperada hora, em que o que não se vê torna-se visível: “Porque as coisas que se vêem são passageiras, e as que não se vêem são eternas” (II Cor 4, 18).
A Graça Santificante, transformada em Visão Beatífica, faz então com que a alma veja a Deus, Face-a-face, conhecendo-O da mesma maneira inefável com que Ele se conhece, e amando-O da mesma forma inexprimível com que Ele se ama.
Será um modo novo de conhecimento e de amor, muito mais perfeitos que os desta vida. A alma conhecerá e amará a Deus não de modo humano, mas segundo o próprio modo divino (embora não no mesmo grau que Deus Se conhece e Se ama). E pelos séculos dos séculos a alma jamais de fartará de conhecer e de amar esse Ser Infinito que a escolheu para Si.
Para aquele que morrer em estado de Graça Santificante, a principal e essencial recompensa será nada menos que infinita: Deus mesmo, Deus infinitamente perfeito em todas as perfeições, Deus infinitamente amável, Deus infinitamente amante.
A Fé será substituída pela Visão, e a Esperança pela Posse. Somente a Caridade permanecerá, mas elevada a intensidades inconcebíveis para nós que ainda nos arrastamos entre os gelos desta terra de pecado.
A alma chega assim ao auge de sua participação na Natureza Divina. Sua divinização (essa palavra é só um modo de falar) é levada à perfeição, quer dizer, mais que nunca a alma se torna semelhante a Deus e unida a Ele (embora sem deixar de ser só uma criatura infinitamente inferior ao Criador). Retomando a comparação da alma em estado de Graça a um pedaço de ferro em brasa, diríamos que nunca o ferro esteve tão abrasado. E contudo, como já dizia São Tomás de Aquino109, entre este oceano de glória que é a Visão Beatífica, e a Graça Santificante que podemos possuir já nesta terra, não há diferença essencial, substancial. Apenas lá é manifesto e consumado o que por ora ainda é oculto e em desenvolvimento. Quem possui a Graça Santificante, possui já o essencial do Céu em sua alma.
Morrer em estado de Graça Santificante é a única condição posta por Deus para salvarmo-nos eternamente. E quanta Graça Santificante possuirmos ao morrer, tanta Visão Beatífica possuiremos por toda a eternidade. Realmente, pois, bem se pode deduzir daqui que não há nada que seja de maior importância para alguém neste mundo do que a Graça Santificante. Quem tem a Graça, tem tudo.
Afora a Visão Beatífica, outros prêmios também esperam os Eleitos no Céu. (E as boas obras que, embora feitas em estado de Graça, não tiverem concorrido para aumentar de fato a Graça Santificante na alma, como explicamos ao tratar do mérito (nº. 5), terão nestes prêmios acidentais a sua recompensa.)
Que doçura não experimentará a alma na convivência bem-aventurada com os Anjos e Santos, sobretudo na companhia da Santíssima Mãe de Deus?
Que alegria não experimentará ao recordar-se do bem que fez, dos sacrifícios que teve de fazer, tão pequenos em comparação das recompensas sem fim que trouxeram? Sua consciência lhe cantará eternamente a vitória que alcançou sobre o pecado. Cada mérito adquirido lhe será causa dum novo êxtase de bem-aventurança.
Que paz não experimentará ao considerar que nunca, jamais, sequer correrá o mínimo risco de que seu estado paradisíaco acabe ou mesmo só diminua? Nunca mais terá de qualquer coisa a sofrer. E para sempre, sempre.
“Caudais de delícias inundarão as nossas almas, e transportá-nos-ão num interminável arrebatamento, dentro dessa bem-aventurança que é Deus. A alegria será nossa vida (...)”110
Quem descreverá as maravilhas do Paraíso? Se já o universo material encerra belezas incríveis, que não será então o reino do sobrenatural, lá onde um Deus se entretêm com Seus Eleitos? Se tantas e tais belezas naturais daqui desta terra oferece até aos pecadores e àqueles que sabe que irão blasfemá-l’O eternamente, que não terá Ele preparado para Seus Filhos, Seus Eleitos, Seus Amados? Se já o exílio é tão belo, que não será a Pátria?...
Como já dizia até mesmo um filósofo pagão: “Depois da morte esperam pelos homens coisas que eles não esperam nem imaginam” 111.
E São Paulo, depois de ter numa visão contemplado um pouco do Céu, no-lo diz textualmente: “Nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pelo pensamento do homem, o que Deus preparou para aqueles que O amam” (I Cor 2, 9).
Você quer, meu irmão, mergulhar nesse oceano de felicidade um dia? Trate, então, de morrer em estado de Graça Santificante. Mas como a morte pode chegar a qualquer instante, trate também de viver sempre em estado de Graça. E não se esqueça de que tanto mais glorioso será o seu Céu quanto mais tiveres reunido méritos para a eternidade. Coragem, pois! Quanto mais boas obras, melhor! E “bem-aventurado aquele servo a quem o seu Senhor, quando vier, achar procedendo assim” (Mat 24, 46).
Se, porém, não fizermos nesta vida boas obras suficientes para expiarem as dívidas que contraímos para com a Divina Justiça pelos nossos pecados cometidos e já perdoados quanto à culpa e pena eterna, teremos então, mesmo morrendo em estado de Graça, que fazer uma parada no Purgatório antes de irmos para o Céu. Sendo severa como é a Justiça Divina e senso nossas dívidas grandes como são, é possível que essa temporada no Purgatório seja bem longa, talvez de séculos até. E que não se pense ser brincadeira o que se sofre no Purgatório: sem falar nos outros sofrimentos, qual não será a dor causada por aquele fogo que lá envolve as almas? Não é um fogo como o da terra, mas um fogo sobrenaturalmente provocado pelo poder da Justiça Divina, um fogo cuja capacidade atormentadora é nada menos que milagrosa, visto ser capaz de torturar até os espíritos (que normalmente não são sujeitos à dor por causas materiais).
São Tomás de Aquino afirma que as dores sofridas no Purgatório superam todos os sofrimentos possíveis nesta vida112. Pensando nisso, os Santos se entregaram às maiores penitências neste mundo, a fim de não terem de passar pelo fogo terrível do Purgatório. E se eles, que não tinham dívidas tão grandes quanto as nossas, tremiam ante a lembrança desse fogo, qual não deverá ser então o nosso temor? Sejamos, pois, prudentes, e paguemos agora o que devemos à Justiça Divina, tanto quanto pudermos. Como já dizia o Padre Bernardes: “Tanto quanto nesta vida pagamos, tanto na outra não devemos” 113. Aqui podemos expiar nossos pecados com obras muito mais fáceis do que o ter de suportar aquele fogo, além do que, durante esta vida nossas boas obras e sofrimentos suportados podem também nos adquirir novos méritos para a eternidade, ao passo que no Purgatório o sofrimento serve só para pagar as dívidas, e não para merecer novas recompensas. Por isso é que Santo Afonso pediu a Deus que lhe concedesse sofrer seu Purgatório antes mesmo da morte, e foi ouvido: doenças terríveis o torturaram dia e noite por vários anos. Em meio, porém, aos seus agudos sofrimentos, Afonso se consolava dizendo: “Dói muito, mas não é fogo! Não é fogo!” 114.
Santa Catarina de Gênova, após ter tido uma visão do Purgatório, disse: “Que coisa terrível é o Purgatório! Confesso que nada posso dizer e nem conceber que se aproxime sequer da realidade. Vejo que as penas que lá padecem as almas são tão dolorosas como as penas do inferno” 115.
Os tormentos das almas do Purgatório, entretanto, por mais intensos que sejam, um dia terão fim. Uma alma sai dessa prisão ao acabar de expiar seus pecados, ou ao ser liberta devido às orações de pessoas da terra, ou, no máximo, estará lá até o dia do Juízo Final, quando terá fim o Purgatório e todos os que lá estiverem irão para o Céu. Há, todavia, uma prisão, muito pior, destino dos que morrem em estado de pecado mortal, e que nunca terá fim. Chama-se inferno.
Basta cometer um pecado grave para se perder a Graça Santificante, e como sem Graça Santificante ninguém entra no Céu, logo também basta morrer com um pecado grave na alma para perder-se eternamente. E se um pecado grave já basta para ser condenado, que dizer então daqueles que amontoam crimes e indignidades em sua vida? Como já dissemos, cada pecado a mais que se leva para o inferno é lá punido com castigos a mais também, quase como se a cada culpa correspondesse um novo inferno (quem quiser se perder, então, por misericórdia de si mesmo, pelo menos reduza a quantidade de seus pecados...).
O inferno é um pesadelo que nunca acaba e, diferentemente dos pesadelos que afligem o homem dormindo, aqui trata-se dum pesadelo real. Infelizmente, muitos só crerão no inferno quando começarem a sentir as suas chamas, e muitos que deveriam advertir as pessoas a respeito dele, se calam criminosamente. Mas não é por não crerem noo inferno ou se calarem sobre ele, que ele deixa de existir. Deus nos revelou e nos ensina categoricamente através de Sua Igreja, que o inferno é a punição dos que morrem em pecado grave, e é uma punição tremenda e que nunca terá fim.
E ainda que o inferno não fosse horrendo como é, só o fato dele ser eterno o tornaria um castigo sem comparação. Imagine-se qualquer dor que padecemos na terra sendo perpetuada, eternizada, condenando-nos a agüentá-la dia e noite, para sempre... Isso já seria medonho, e jamais compensaria cometer pecado algum a um tal preço.
“Para ter uma idéia da eternidade, imaginemos uma bola de aço do tamanho do mundo, e um pássaro esfregando nela suas asas uma vez a cada mil anos. Quando a bola tiver sido gasta, a eternidade estará ainda começando” 116...
“Quando uma alma condenada, vertendo uma lágrima por século, tiver vertido bastantes lágrimas para alimentar todos os rios do mundo, não estará mais perto da redenção que no início. Terá apenas começado a sofrer” 117...
No entanto, os sofrimentos infernais são incalculavelmente piores que os da terra, segundo o testemunho dos Santos (especialmente daqueles que viram o inferno), dos teólogos e de várias revelações particulares (inclusive de exorcismos).
“Minha é a vingança; Eu darei o merecido” (Hbr 10, 30-31).
Ali, o condenado estará cercado daquele fogo sobrenaturalmente dilacerante, mais ainda do que um peixe no mar é cercado de água. Acima de si a alma só verá gigantescas massas de fogo e, sob seus pés, abismos também de fogo. Se olha para os lados, horizontes intermináveis de fogo é o que contempla, e dentro de si mesma o que sente é fogo, visto que este a traspassa, sempre matando-a sem nunca dar-lhe fim. Não é um fogo comum, mas milagroso, que não causa apenas a dor de ser queimado, mas também todas as outras dores, como a de ser esmagado, serrado, triturado, esquartejado, etc., e suas dores atormentarão a alma na medida exata dos pecados que ela tiver cometido em vida. A alma descobrirá então, por exemplo, se valia a pena assistir as novelas da televisão ao preço de ter os olhos fritos sem cessar, para sempre... Mas já será demais.
Toda aquela podridão e feiúra que o pecado mortal deixa na alma, lá se manifestará em toda a sua plenitude. São Boaventura disse que se o mau cheiro de um só dos condenados fosse sentido na terra, bastaria para extinguir a raça humana, pois todos morreríamos118. As almas condenadas e os demônios são verdadeiros monstros, e quais feras se despedaçam mutuamente num ódio indescritível. Seu ódio só não é maior que o seu desespero: lembram-se continuamente de que estão ali por sua própria culpa; lembram-se de naquele mesmo momento poderiam estar felicíssimos no Céu, mas trocaram tudo por uns míseros e brevíssimos prazeres da terra; lembram-se da facilidade com que podiam ter se salvado, enquanto tinham o tempo, que desperdiçaram, e que nunca mais voltará; lembram-se, afinal, e sobretudo, de que nunca mais sairão dali, nunca, nunca... Nem a mais leve esperança de alívio lhes resta, e elas sabem disso, e seu desespero por isso é simplesmente insondável.
“O sentimentalóide superficial que afirmava ‘eu não creio no inferno’ ou ‘Deus é demasiado bom para permitir que uma alma sofra eternamente’, verá então que, afinal de contas, Deus não é uma vovozinha complacente. A Justiça de Deus é tão infinita como a Sua Misericórdia” 119.
Até o momento da morte, Deus perdoa qualquer pecado, desde que a alma pelo menos Lhe diga, sinceramente, que se arrepende de todos os seus pecados por amor d’Ele e promete não mais pecar, confessar-se e empregar os meios para de fato vencer o pecado em sua vida. Se a alma fizer isto, quer dizer, se pelo menos fizer um ato de contrição, até ao instante da morte, Deus a perdoa, ficando ela ainda, porém, comprometida a confessar-se depois (se puder) e a pagar os seus pecados com penas temporais (neste mundo ou no Purgatório). Mas, se o pecador sair deste mundo sem ter feito nem mesmo um ato de contrição, está tudo perdido para ele.
“São Jerônimo dizia que, dentre cem mil pecadores que teimam em viver no pecado até à morte, apenas um só se salvará no momento supremo. São Vicente Ferrer afirmava que a salvação de um desses pecadores seria um milagre maior que a ressurreição de um morto. Que arrependimento se pode esperar na hora derradeira de quem viveu amando o pecado até àquele instante?” 120
“Estai prevenidos, porque na hora em que menos pensais virá o Filho do Homem” (Lc 12, 40).
Há uma pena no inferno que ainda supera, e muito, o tormento do fogo e todos os outros tormentos: é a chamada pena de dano, a qual consiste num misterioso sofrimento sobrenatural precisamente por se estar separado de Deus, Sumo Bem para o qual a alma fôra criada. Aqui na terra, os pecadores nada sentem quando se separam de Deus pelo pecado e matam a própria alma privando-a da Graça Santificante. Mas na eternidade, pelo contrário, aquele que morreu em pecado grave e, portanto, se privou para sempre da Graça Santificante, sentirá, experimentará realmente em sua alma um imenso sofrimento sobrenatural pela falta da Graça Santificante, que ele fôra criado para possuir. Será esta uma dor tão grande, que os outros castigos infernais não serão nada diante dela. Atualmente, para nós que ainda estamos na terra, tanto esta dor essencial do inferno, que é a pena de dano, quanto a alegria essencial do Céu, que é a Visão Beatífica, escapam ao nosso conhecimento, visto não termos nem com o que compará-las no universo natural. Também acerca da pena de dano podemos dizer que nunca olho algum viu, nem ouvido algum ouviu, nem coração jamais imaginou neste mundo, o que a Justiça Divina tem preparada para aquele que ultraja a Deus com o pecado mortal. Tinha, pois, razão, aquela alma do inferno que, numa revelação privada, disse à sua amiga ainda viva: “Clara, o inferno pode-se errar ao descrevê-lo, mas não se exagera nunca” 121...
E estava também certo o Venerável João de Ávila quando dizia que “quem crê na eternidade e não vive como santo, devia estar encerrado numa casa de doidos!” 122 Sim, porque a única insanidade maior do que pecar, é só a de deixar-se ficar no pecado, sem se converter imediatamente, sabendo-se que a qualquer momento a morte pode chegar e...
“Se a árvore cair para o norte ou para o meio-dia, em qualquer lugar onde cair aí ficará” (Ecl 11, 3).
“É mister, pois, que preparemos nossas contas antes que chegue o dia do vencimento. Se durante a noite de hoje devesses morrer, e ficasse decidida assim a tua salvação eterna, estarias bem preparado? Quanto não darias, talvez, para obter de Deus a trégua de mais um ano, um mês, um sequer! Por que agora, já que Deus te concede tempo, não regulas tua consciência? Acaso não pode ser este teu último dia de vida? ‘Não tardes em te converter ao Senhor, e não o adies, porque Sua irá poderá irromper de súbito e, no tempo da vingança, te perderás’ (Ecl 5, 8-9)” 123.
Por nada deste mundo vale a pena perdermos a nossa alma. Façamos, pois, agora, enquanto ainda é tempo, estas reflexões do Padre Vieira, que qualquer alma na eternidade compreende sobremaneira:
“Que coisas são as riquezas, senão um trabalho para antes, um cuidado para logo e um sentimento para depois? As riquezas, diz São Bernardo, adquirem-se com trabalho, conservam-se com cuidado e perdem-se com dor. Que coisa é o ouro e a prata, senão uma terra de melhor cor? E que coisa são as pérolas e os diamantes, senão uns vidros mais duros? Que coisa são as galas, senão um engano de muitas cores? Que coisa é a formosura [corporal] senão uma caveira com um pano por cima? Tirou a morte aquele véu, e fugis hoje do que adoráveis ontem. Que coisa são os gostos, senão as vésperas dos pesares? Quem mais os canta, esse os vem a chorar mais. (...) Que coisa são todos os passatempos da mocidade, senão arrependimentos depositados para a velhice? E o melhor bem que podem ter é chegarem a ser arrependimentos. Que coisa são as honras e dignidades, senão fumaça? Fumaça que sempre cega, e muitas vezes faz chorar?... Que coisa é a fama, senão uma inveja comprada? (...) Que coisa é toda a prosperidade humana, senão um vento que corre por todos os rumos? Se diminui, não é bonança, se cresce, é tempestade. Finalmente, que coisa é a mesma vida, senão uma lâmpada acesa, vidro e fogo? Vidro que com um movimento se desfaz, fogo que com um assopro se apaga. Estas são as glórias do vosso mundo e dos vossos reinos (...) E por estas glórias falsas, vãs e momentâneas, damos aquela alma imortal que Deus criou para a glória verdadeira e eterna” 124...
É urgente, portanto, que preparemos desde já, e sem mais tardança, a nossa morte, que será nada menos que o nosso momento eternamente decisivo, o que requer que façamos muitas boas obras (oração, penitências, esmolas, recepção dos Sacramentos, etc.), e que não façamos o que é mau (isto é, o pecado grave sobretudo, e o pecado venial também). E tudo isso, é claro, sempre firmes na Fé Católica, que é o único caminho que leva à salvação.
Não importa o que tenhamos de sofrer para fazer o bem sobrenatural e evitar o pecado: qualquer sofrimento ou dificuldade desta vida não é nada perto das dores que nos aguardariam no além, seja no Purgatório, seja no inferno. E, por outro lado, também não há comparação entre os sofrimentos da vida presente, e a glória eterna que os recompensará no Céu, se nos salvarmos (cf. Rm 8, 18; II Cor 4, 17). “O Céu, por muito que nos custe, sempre é barato” 125. São Pedro de Alcântara, um dos santos mais penitentes, apareceu, já falecido, à Santa Teresa de Ávila, repleto de felicidade celestial, e disse-lhe: “Ó ditosa penitência, que tamanha glória me há alcançado!” 126 Logo, ninguém deve pôr limites aos seus esforços pela eterna salvação. O demônio tanto faz pela nossa perdição, e nós nada faremos por nosso próprio bem? Coragem, pois! Que nada é demais quando uma eternidade está em jogo... Enquanto ainda é tempo...
Conclusão
“Logo que o último dos eleitos tenha alcançado o grau de amor que lhe é destinado, o universo se desfará, como se desmancha uma máquina perfeita, mas sem utilidade para o futuro.
E que importa a Deus esta máquina do mundo, por mais aperfeiçoada que seja? Ele pode construir sem fadiga mil outras, mais poderosas e mais belas. É com as almas que o Seu pensamento se ocupa. Os acontecimentos que absorvem a atenção dos homens, as revoluções, os abalos sociais, a sucessão dos impérios, são para Deus brinquedos de criança.
A inocência conservada ou recuperada, um ato de caridade, uma resolução de pertencer-Lhe, um suspiro dirigido ao Seu Coração, uma oração, é isso que põe em movimento o Céu. (...)
Ele faz da santificação das almas o Seu único interesse. (...)
Por que as revoluções, as guerras, as epidemias, os grandes males sociais? Por que as perseguições, a opressão de países fracos, o triunfo da brutalidade? Por que os flagelos públicos, os lutos das famílias, as hecatombes de vidas humanas, as lágrimas das mães? A razão humana tem vistas curtas. Há almas de escol, muito numerosas talvez, que serão purificadas e santificadas por essas provações, como há almas que sem elas nunca se salvariam. O mundo inteiro não vale uma única alma. Para suscitar um só ato de amor a mais, mesmo que seja de uma pequena alma desconhecida lá no fundo de um vilarejo, Deus permitiria abalos terríveis” 127.
Quem escreveu estas palavras foi o Padre Joseph Schrijvers, e, sem dúvida, ele está inteiramente certo. Como aprendemos com São Tomás de Aquino128, o mínimo bem sobrenatural de um só indivíduo supera infinitamente o máximo bem natural de todo o universo129 e, por paralelo, pode-se dizer também que o mínimo mal sobrenatural de uma só alma é infinitamente pior do o máximo mal natural de todo o universo.
Quer dizer: mais vale um só grau de Graça Santificante numa só alma, do que a própria existência de todos os seres abaixo de Deus. E o aniquilamento da existência de todos os seres criados, inclusive da própria Virgem Maria e da Humanidade de Cristo, seria um mal menor do que o cometimento de um só pecado venial. Quem não compreender esta escala de valores aos olhos de Deus, expõe-se a não compreender nada da própria ordem do universo.
Deus é o Sumo Bem, infinitas vezes infinitamente infinito130 em todas as perfeições possíveis, e Sua própria Sabedoria e Justiça exigem, pois, que em todas as Suas obras Ele não busque outro fim senão a Sua mesma Glória. Uma coisa é amável na medida em que é boa, perfeita. Ora, Deus, sendo o Sumo Bem e a Suma Perfeição, e conhecendo-Se perfeitamente como tal, não pode fazer menos do que amar-se também infinitamente e ter em Si mesmo o centro absoluto de todas as Suas obras e interesses. Em nós isso seria egoísmo e loucura, mas em Deus é simplesmente a mais sublime justiça: Ele merece. Assim é que o sentido do universo e de toda a Criação não é outro senão a mesma Glória de Deus. E Deus leva a ordem universal das coisas a glorificá-l’O mediante um plano por Ele concebido desde toda a eternidade, onde cada uma das criaturas entra com uma participação única e rigorosamente prevista, isto é, predestinada. O objetivo de tudo é a glorificação do Altíssimo. Não conhecemos, porém, os detalhes desse plano eterno de Deus; sabemos, todavia, que Ele sempre faz tudo com perfeição, e que Seu objetivo sempre é alcançado. A liberdade dos anjos e dos homens em nada afeta o plano eterno de Deus, antes, pelo contrário, é justamente prevista e causada por este como parte da obra. O todo, porém, dessa obra de glorificação de Deus, só o conheceremos no dia do Juízo Final131, quando todos os véus forem abertos e os enigmas todos revelados.
Existimos para participar desse plano eterno de Deus e contribuirmos para a Sua maior Glória. Esse é o sentido geral e essencial de nossa existência, bem como o da existência de todos e cada um dos demais seres. Porém, os outros seres, que são apenas matéria, são destinados a glorificarem a Deus apenas através da vida natural, ao passo que nós, que somos compostos de matéria e espírito, e os anjos, que são puros espíritos, somos destinados por Deus a glorificá-lo também mediante uma vida sobrenatural, ou seja, a vida da Graça Santificante. Esta Vida Sobrenatural é infinitamente superior (isto é mais valiosa e mais perfeita) a toda a vida e existência natural das criaturas, por ser uma participação na Vida e na Natureza do mesmo Deus. Trata-se duma participação meramente acidental, limitada e parcial, que não nos transforma em outros tantos deuses, nem faz com que Deus se torne uma parte de nós ou vice-versa. No entanto, assim mesmo essa participação na Natureza Divina significa algo de mais precioso ainda do que tudo que existe na ordem das criaturas, uma vez que ela insere ao que a possui na própria ordem do divino, do infinito, do eterno. Quer dizer: possuir a Vida Sobrenatural (a Graça Santificante) é algo essencialmente superior em qualidade a possuir qualquer vida natural, seja esta humana ou mesmo angélica.
E nós, que ainda vivemos neste mundo, temos a grande de possuir esta Vida Sobrenatural, graças à Misericórdia Divina e ao Sangue de Jesus, e assim contribuirmos, da melhor maneira, ao grandioso plano de Deus para o universo: a Sua Glória. Basta que obtenhamos a Graça Santificante, conservemo-la e aumentemo-la em nós, e morramos possuindo-a. E foi precisamente para isto que escrevemos estas páginas: para ajudar o nosso prezado leitor a lançar-se resolutamente nesta aventura divina que é a Vida Sobrenatural.
As pedras, as plantas e os animais têm de se contentar com sua simples existência natural, como também nós teríamos de o fazer, se a bondade de Deus não se tivesse dignado nos convocar para esta Vida Divina, este dom acima de todos os direitos de toda e qualquer natureza criada, este inefável mistério da Graça Santificante. Deus nos escolheu, desde toda a eternidade, para nos dar esta oportunidade que um número infinito de outras criaturas jamais receberá. Enquanto ainda é tempo, temos a grande chance de nos tornarmos, pela Graça, participantes da Vida e da Natureza do próprio Deus, e só quem pudesse compreender plenamente quem e o que é Deus, poderia compreender também o privilégio que essa participação significa. Pode-se compreender, porém, que se trocarmos isso tudo pela mesquinhez do pecado, uma eternidade inteira de remorsos infernais não bastará para chorarmos nossa loucura e desgraça.
Está em seu poder, prezado leitor, possuir essa Vida Sobrenatural, está em seu poder. Um ato de contrição agora mesmo, e ela será sua, eternamente sua, e nada nem ninguém a poderão tirar de você, a menos que você o queira, consentido num pecado grave. E se você já a possui, então um ato mais fervoroso de amor a Deus agora mesmo, e ela será mais sua, mais eternamente sua.
Os olhos não vêem, mas agora mesmo a sua alma está luzente com um sol, ou apodrecida como um cadáver, dependendo de você estar em estado de Graça Santificante ou em estado de pecado mortal. No primeiro caso, um mérito a mais, e sua alma estará mais luzente. No segundo, um pecado a mais, e ela estará mais podre. E da forma como a sua alma estiver no momento da morte, assim estará para todo o sempre. Simples e trágico, mas extremamente real: Graça ou pecado, Céu ou inferno, a isto se reduz a nossa existência, a nossa eterna existência, e a escolha é nossa. O mistério da Predestinação se realiza no tempo precisamente através de nossas escolhas.
Muito embora Deus cuide também de nossa vida natural, o que realmente Lhe interessa é a nossa Vida Sobrenatural, uma vez que nesta consiste a mais excelente glória que as puras criaturas Lhe podem prestar, além de ser igualmente o maior bem que Ele pode comunicar às Suas criaturas. Ele não hesita, por isso, em permitir ou enviar os maiores sofrimentos naturais a muitas pessoas, para daí recolher ao menos um pouco de bem sobrenatural de ao menos uma alma. E Ele sabe que está certíssimo no que faz, como nós mesmos poderemos ver quando chegarmos ao outro mundo, donde, de um ângulo totalmente sobrenatural, se tem uma visão bem mais clara dos acontecimentos do mundo dos mortais...
Em outras palavras: o que importa para Deus é o sobrenatural, não o natural, e é também o que deve ter valor aos nossos olhos. Viver em estado de Graça é infinitamente mais importante do que ter saúde física, emprego, dinheiro, diplomas, fama bem-estar, harmonia familiar, etc. Cometer um pecado, ainda que só venial, é infinitamente pior do que ter graves doenças, cair na miséria, ser preso e humilhado, fracassar em tudo, perder todos os entes queridos, etc. Para ganhar ao menos um mérito para a eternidade já compensaria ficar 60 anos paraplégico numa cama. Para evitar o cometimento de ao menos um pecado venial de uma só alma, ou para levar um só alma a adquirir ao menos um mérito sobrenatural a mais, já compensaria fazer o máximo de apostolado de que formos capazes. E ainda que soubéssemos com certeza que determinada pessoa há de ir para o inferno, ainda assim valeria a pena derramar-mos todo o nosso sangue para ajudá-la a possuir a Graça ao menos por uns momentos de sua existência... O menor, o mais mínimo bem sobrenatural da mais miserável das almas, tem mais valor que a própria existência do universo. Quanto mais o nosso espírito estiver embebido dessas verdades, mais nos teremos aproximado do ponto de vista que Deus tem das coisas132.
Por enquanto, toda esta realidade sobrenatural que nos cerca mantém-se envolta de mistério e segredo. Mas virá o dia, prezado leitor, em nome da Fé eu lhe prometo, em que com seus próprios olhos você verá o esplendor da Graça Santificante, o horror do pecado, o caráter sacramental, a influência da Comunhão dos Santos, as Virtudes Infusas, etc., mas então você já estará do outro lado do túmulo, e o tempo de adquirir bens sobrenaturais já terá passado, para sempre... Ah! meu caro leitor, queira o bom Deus nos ter elegido, a mim e a ti, para morrermos em estado de Graça, a fim de O contemplarmos, face-a-Face, pelos séculos eternos! Veremos então que o que se disse aqui nestas páginas ainda não era nada perto da realidade. Jesus Crucificado e a Virgem Maria nos livrem de ir para o inferno! Assim, deixando para traz as sombras da vida mortal, poderemos nos encontrar, um dia, naquela bem-aventurada pátria onde, sob a luz da glória, o Sobrenatural já não será para nós o que não se vê...
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ANEXO:
Oração universal para tudo que diz respeito à salvação133
(Papa Clemente XI)
Pai Eterno, meu Senhor e meu Deus, creio em Vós, dai-me porém fé mais firme.
Espero em Vós, mas dai-me esperança mais segura.
Eu Vos amo, mas dai-me amor mais ardente.
Tenho um verdadeiro pesar de ter pecado contra Vós, mas dai-me pesar mais
profundo.
Eu Vos adoro como a meu princípio; por Vós suspiro como por meu último fim; eu Vos dou graças como a meu perpétuo Benfeitor; eu Vos invoco como a meu Defensor propício nas tentações.
Dignai-Vos, Senhor, dirigir-me com a Vossa Sabedoria, conter-me com a Vossa Justiça, consolar-me com a Vossa Clemência e proteger-me com a Vossa Onipotência.
Eu Vos consagro e ofereço, ó meu Deus, todos os meus pensamentos, para que sejam só de Vós; as minhas ações, para que sejam a Vós conformes; enfim, os meus sofrimentos, para que sejam por amor de Vós suportados.
Eu me conformo com a Vossa Vontade, porque Vós o quereis.
Eu Vos suplico, Senhor, que alumieis o meu entendimento, inflameis a minha vontade, purifiqueis o meu coração e santifiqueis a minha alma.
Fazei, ó meu Deus, que não me eive a soberba, que a lisonja não me entre no coração, que o mundo não me engane, nem satanás me enrede.
Animai-me, Deus meu, com a Vossa graça, para limpar a minha memória, refrear a língua, guardar os meus olhos e conter todos os meus sentidos.
Fazei, Senhor, que eu chore os meus pecados passados, resista às tentações, reprima as más inclinações e pratique as virtudes que me são tão necessárias.
Deus de bondade, enchei o meu coração de Vosso amor, de ódio de mim, de caridade para com o próximo e de desprezo a tudo que é mundano.
Fazei, Senhor, que jamais me esqueça de ser submisso e obediente aos meus superiores, compassivo e caritativo para com os inferiores, fiel aos amigos e indulgente para com os inimigos.
Lembrar-me-ei, ó Jesus, da Vossa ordem e do Vosso exemplo, para amar os inimigos, sofrer as injúrias, fazer bem aos que me perseguem, orar pelos que me caluniam.
Vinde, meu Deus, em meu auxílio, para que eu possa moderar os sentidos com a mortificação, a avareza com a esmola, a ira com a brandura e a tibieza com a devoção.
Tornai-me prudente nas empresas, constante nos perigos, paciente nos infortúnios e humilde na prosperidade.
Fazei-me, Senhor, atento na oração, sóbrio no alimento, diligente nas minhas obrigações, firme nos meus propósitos.
Inspirai-me a solicitude de guardar sempre a pureza do coração, um exterior modesto, uma conversação edificante e uma conduta exemplar.
Fazei que sem cessar me aplique a domar a rebeldia da natureza, a cooperar com a Vossa divina graça, a observar a Vossa Lei e merecer a salvação.
Espero santificar-me com a sincera Confissão dos meus pecados, com a fervorosa Comunhão do Sagrado Corpo do Senhor, com o contínuo recolhimento do espírito e com a pura intenção do coração.
Ensinai-me, ó meu Deus, quão pequeno é o que é da terra, quão grande o que é divino, quão breve o tempo, quão dilatada a eternidade.
Concedei-me Senhor, que me prepare para a morte, que tema o Vosso Juízo, que escape do inferno e entre no Paraíso.
Pelos merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
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Notas Complementares:
1- Padre Antonio Vieira, Sermões, Lello & Irmão Editores, Porto: 1959, t. X, p. 32 (Sermão de Nossa Senhora da Graça).
2- Suma Teológica I-II, 113, 9 ad 2. Citação e tradução do original pelo Padre
Antonio Royo Marin, O.P, in: Teologia de la Perfeccion Cristiana, p. 119, e tradução nossa do espanhol, como em todas as outras citações de obras em espanhol.
3- As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 369. Todas as citações de “As Mais Belas Páginas de Bernardes” são de autoria do mesmo Padre Bernardes.
4- São Luís Maria de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, nº 6.
5- Seguimos aqui a classificação apresentada pelo Padre Antonio Royo Marin, O.P, in Teologia de la Perfeccion Cristiana, p. 28.
6- Compêndio de Teologia Ascética e Mística, nº 106.
7- Citado pelo Cônego Jerônimo Ribet, in: A Ascética Cristã, p. 24.
8- Princípios de la Vida Espiritual, p. 233.
9- Padre Júlio Maria, in: O Segredo da Verdadeira Devoção para com a Santíssima Virgem, p. 33.
10- Mons. Francisco Olgiati, in: As Verdades Básicas do Cristianismo, p. 49.
11- Idem, p. 51. Cita aí a obra “A Graça e a Glória”, do Pe. Terrien.
12- Citação de Mons. Francisco Olgiati, in: As Verdades Básicas do Cristianismo, p. 51.
13- Padre Antonio Royo Marin, obra citada, p. 123.
14- Padre Meschler, S.J., in: O Dom do Pentecostes, p. 148. A referência
anterior à Santa Brígida é extraída da obra: Preparação para a Morte, de Santo Afonso de Ligório, p. 161.
15- Padre Antonio Vieira, S.J., Sermões, Lello & Irmão Editores, Porto: 1959, t. X, p. 33-34 (Sermão de Nossa Senhora da Graça).
16- Padre Antonio Royo Marin, obra citada, p. 123.
17- “A dignidade mais soberana, mais sobrenatural e mais divina que cabe em
pura criatura, é a Dignidade de Mãe de Deus. Os teólogos lhe chamam dignidade em seu gênero infinita, porque todo outro nome é menor que sua grandeza. Posta, pois, em balança, esta dignidade assim infinita, qual pesará mais, a dignidade de Mãe de Deus, ou a Graça?
A dignidade de Mãe de Deus sempre anda junta com a Graça, e muita Graça; mas, separada a Graça da dignidade, e a dignidade da Graça, digo que muito mais pesa a Graça que a dignidade.
Ainda disse pouco.
Muito mais pesa um só grau de Graça em qualquer homem, que toda a dignidade de Mãe de Deus.
Não me atrevera a tanto, se não tivera por fiador desta portentosa verdade o mesmo Filho de Deus, que tornou a Virgem Mãe Sua. Exclamou a mulher das turbas: (...) Bem-aventurada a Mãe que trouxe nas entranhas tal Filho. Respondeu o Senhor: (...) Antes te digo que mais bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam. Santo Agostinho comparou a maternidade da Virgem com a Graça da mesma Virgem, e diz que foi mais bem-aventurada pela Graça que pela Maternidade (...). Mas Cristo não faz a comparação entre a dignidade da Mãe e a Graça da Mãe, senão entre a dignidade da Mãe e a Graça de qualquer homem que guarda Seus Mandamentos (...).
Pois, Filho de Deus e da Virgem Maria, a Graça de qualquer homem é maior felicidade, é maior dita, é maior bem, que a felicidade e dignidade infinita de ser Mãe Vossa?
Separada essa dignidade da Graça (como a mulher das turbas a considerava), sim.
E senão, vede-o nos efeitos da mesma dignidade e da mesma Graça na mesma Senhora. A dignidade fe-la Mãe; mas a Graça fe-la digna; a Dignidade fe-la Rainha; mas a Graça fe-la Santa; a dignidade levantou-a sobre todas as criaturas; mas a Graça uniu-a ao mesmo Criador; a dignidade fez que Ela comunicasse a Deus o que Deus tem de homem; a Graça fez que Deus Lhe comunicasse a Ela o que Deus tem de Deus (...).
Quereis agora ver esta mesma soberania na Graça de cada um de vós? Ouvi com assombro ao grande Agostinho, não já comparando a dignidade de Mãe de Deus com a sua Graça, senão a Graça de qualquer homem com a dignidade de Mãe de Deus: (...) O nome e dignidade de Mãe de Deus, ainda posto na Virgem Maria, é um título terreno, em comparação da alteza celestial e divina a que se levantam por meio da Graça e união com Deus os que fazem Sua Vontade. (...) De maneira que a Graça de qualquer criatura humana que faz a Vontade de Deus, por vilíssima que seja em tudo o mais, é maior bem, e maior felicidade e de maior peso e preço, que a mesma dignidade de Mãe de Deus (...).
Entendamos bem este ponto, cristãos. (...)
A dignidade de Mãe de Deus é um poder tão soberano e supremo, que domina a todos os homens, a todos os reis e monarcas do mundo, que domina a todos os anjos e a todas as jerarquias, e que até ao mesmo Deus, enquanto Filho, tem obediente e sujeito (...).
A dignidade de Mãe de Deus é uma alteza tão sublime, tão remontada, e tão incompreensível, que nem a podem conceber os entendimentos humanos, nem a podem alcançar os entendimentos angélicos e seráficos, nem o entendimento da mesma Virgem Maria a pode compreender, porque só Deus, que Se compreende a Si mesmo, pode compreender e conhecer plenamente o que é ser Mãe de Deus.
Finalmente, a dignidade de Mãe de Deus é de tal maneira a última raia da Onipotência Divina, que não havendo coisa no mundo que não possa Deus fazer outras sempre maiores e melhores em infinito, maior e melhor Mãe não a pode Deus fazer.
E sendo tão infinitamente grande, e tão impossivelmente melhor que toda [outra] esta dignidade de Mãe de Deus, posto em balança da outra parte um só grau de Graça de Deus, pesa mais esta pequena Graça, que toda aquela imensa dignidade.
Quem me dera agora uma voz que se ouvira em todas as cortes do mundo, com que confundira não já a ambição, senão a pouca fé dos que tão louca e cegamente traz fora de si a pretensão daqueles nomes vazios a que o mundo bruto e vil chama dignidades!
Tantos trabalhos, tantos cuidados, tantos desvelos, tantas diligências, tantas negociações, tantos subornos, tantas lisonjas, tantas adorações, tantas indignidades, tanto atropelar a razão, a justiça, a verdade, a consciência, a honra e a vida! E por quê? Por alcançar a vaidade de um posto, de um lugar, de um título, de um nome, de uma aparência; e no mesmo tempo entra a velhinha por aquela igreja, toma água benta com piedade cristã, e adquire um grau de Graça, que pesa mais que todos os lugares, que todas as honras, que todos os títulos, que todas as dignidades do mundo, ainda que seja a dignidade de Mãe de Deus” (Padre Antonio Vieira, Sermões, Lello & Irmão Editores, Porto: 1959, t. X, p. 29-32 (Sermão de Nossa Senhora da Graça), a divisão dos parágrafos é nossa.
18- Citado pelo Padre Tanquerey, in: Compêndio de Teologia Ascética e Mística, nº 118.
19- Padre de Smedt, in: Notre Vie Surnaturelle, segundo o Padre Tanquerey, in Compêndio de Teologia Ascética e Mística,, nº 117.
20- Padre Froget, in: L’Habitation du Saint-Esprit, segundo o Padre Tanquerey, in Compêndio de Teologia Ascética e Mística, nº 118.
21- Esta pequenina oração, denominada de “Triságio Angélico”, e baseada em
Is 6, 1-3, foi recomendada pelo Céu, em revelações particulares, a Santo Antonio Maria Claret (1807-1870), para ser divulgada como de grande eficácia contra os males da modernidade. Ver, por exemplo, o nº 695 da Autobiografia do Santo. A Igreja, por sua vez, concedeu uma indulgência de 500 dias para essa oração, a cada vez que for rezada.
22- Boulenger, in: Doutrina Católica: Os Meios de Santificação: Liturgia, p. 20.
23- Denzinger, in: El Magistério de la Iglesia, nº 802 e nº 825.
24- Padre Meschler, S.J., in: O Dom do Pentecostes, p. 225.
25- Idem, p. 229-230.
26- Compêndio de Teologia Ascética e Mística, nº 645-646. Grifos nossos.
27- “Pelagianismo” é o nome de uma heresia que fez muitos estragos nas almas
do século V, e que ensinava, entre outros erros, que o homem pode fazer o bem e evitar o mal por suas próprias forças, sem necessitar do socorro da Graça Atual. Esta heresia foi combatida especialmente pelo grande Santo Agostinho, Bispo e Doutor da Igreja.
28- Compêndio de Teologia Ascética e Mística, nº 647.
29- O Dom do Pentecostes, p. 245.
30- Princípios de la Vida Espiritual, p. 247 e p. 306.
31- Disse Bossuet:
“Cristãos, o que corrompe nossas devoções até à raiz é que ao invés de as relacionarmos com a nossa salvação, pretendemos fazê-las servir a nossos interesses temporais” (citado pelo Padre Emmnuel André, in: O Naturalismo, cap. 11).
O leitor encontrará um ótimo exemplo de oração totalmente voltada para a Vida Sobrenatural no Anexo ao fim deste trabalho, onde inserimos a conhecida “Oração Universal para tudo que diz respeito à Salvação”, uma oração do Papa Clemente XI (+ 1721), extremamente recomendável a todos.
Perceba também o leitor a grande importância de estudarmos a doutrina da Igreja, para evitarmos os muitos erros na vida espiritual, que estão espalhados hoje mais do que nunca. Não esqueçamo-nos do que já dizia o Padre Faber:
“A teoria não é muito sem a prática; mas, sem uma boa teoria, a prática, as mais das vezes, pouco vale; não é fecunda, nem duradoura. (...) Uma idéia clara é já um grande auxílio”. “A devoção nunca se pode descuidar da doutrina, sem pagar caro no fim. Não há com que satanás possa nos embaraçar mais efetivamente do que com uma devoção que não seja teológica. (...) Um erro de doutrina é duplamente perigoso quando se relaciona com a vida espiritual” (O Progresso na Vida Espiritual, p. 48 e p. 65-66).
32- Mons. Francisco Olgiati, in: As Verdades Básicas do Cristianismo, p. 67.
33- Leo Trese, in: A Fé Explicada, p. 104. A bem da verdade, os pecadores
também podem muito bem realizar atos sobrenaturais (isto é, os atos bons ou indiferentes feitos por algum motivo sobrenatural), e estes, embora não tenham nenhum mérito para a eternidade, são recompensados por Deus, todavia, neste mundo mesmo, principalmente com a graça da própria conversão, donde as boas obras serem muito úteis também aos pecadores, como explicaremos no capítulo sobre o pecado.
34- O Dom do Pentecostes, p. 234.
35- O Naturalismo, cap. 5 e cap. 11.
36- Escola da Perfeição Cristã, p. 474 e p. 477.
37- Suma Teológica, II-II, 24, 6. Seguimos os comentários de Padre Antonio
Royo Marin, O.P, in: Teologia de la Perfeccion Cristiana, p. 294-297; 417-424. Advertimos que esta doutrina do ato mais fervoroso é uma tese de São Tomás de Aquino, mas não pertence ao Magistério oficial da Igreja, sendo ainda de livre discussão entre os teólogos.
38- Preparação Para a Morte, p. 92-93 e p. 98.
39- Catecismos do Cura d’Ars, p. 21.
40- As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 353. Adaptamos, às vezes, algumas expressões do português antigo das citações à ortografia e gramática atual.
41- Idem, p. 287. E diz também o mesmo Padre Bernardes:
“A mortificação é preciosa mais que o ouro, e o ouro pesa-se até por grãos e por escrúpulos; assim, em mortificar nossa vontade havemos de pesar até os grãos e fazer caso até dos escrúpulos. Vinha-me vontade de dar uma desculpa, calei-me: eis aqui um grão. Desejei perguntar por uma novidade, não a perguntei: eis aí outro grão. Nasceu-me uma suspeita contra o meu próximo, lancei-a fora: eis aqui outro grão. Pediram-me os olhos ver uma curiosidade, abaixei-os: eis aqui outro grão. E de muitos grãos temos depois uma seara; a cada ato destes, se é feito por amor de Deus, corresponde ao menos um grão de Graça e outro de Glória. Pois achais que rendeu pouco o grãozinho da mortificação em não ver uma flor por ver a Deus em melhor grau?”
42- Ejercício de Perfeccion y Virtudes Cristianas, p. 16-17.
43- Citado pelo Cônego Jerônimo Ribet, in: A Ascética Cristã, p. 82.
44- Preparação Para a Morte, p. 265. E afirma também o Padre Bernardes:
“Se achas, alma, que Deus te inspira alguma coisa de Seu serviço, não repares em dificuldades para empreendê-la, que o Senhor mesmo as alhanará. E se te acovardares a inconvenientes, e temeres o trabalho, nunca obrarás virtudes, porque a virtude sempre se vai por montes e sempre custa suor e fadiga, pois o seu caminho é longo e áspero. Importa, pois, aconselhar-te com a graça, e não com a natureza. E nota, para a tua consolação, que o mesmo cansar é sinal que sobes, e o subir de que caminhas para a parte do Céu, e contra o peso da natureza, que puxa para as coisas terrenas” (As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 417).
45- Idem, p. 181.
46- Homil. XXX in Evang.; citado por Mons. Ascânio Brandão, in: O Breviário da Confiança, p. 22.
47- São João Maria Vianney citava entre lágrimas esta palavra do Senhor à Santa Teresa. Catecismos do Cura d’Ars, p. 134.
48- Ato de Fé:
Eu creio firmemente que há um só Deus, em três pessoas realmente distintas, Pai, Filho e Espírito Santo, que dá o céu aos bons e o inferno aos maus, para sempre. Creio que o Filho de Deus se fez homem, padeceu e morreu na cruz para nos salvar, e que ao terceiro dia ressuscitou. Creio tudo o mais que crê e ensina a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, porque Deus, verdade infalível, lho revelou. E nesta crença quero viver e morrer.
Ato de Esperança:
Eu espero, meu Deus, com firme confiança, que pelos merecimentos de meu Senhor Jesus Cristo me dareis a salvação eterna e as graças necessárias para consegui-la, porque vós, sumamente bom e poderoso, o haveis prometido a quem observar fielmente os vossos mandamentos, como eu proponho fazer com o vosso auxílio.
Ato de Caridade:
Eu vos amo, meu Deus, de todo o meu coração e sobre todas as coisas, porque sois infinitamente bom e amável, e antes quero perder tudo do que vos ofender. Por amor de vós, amo meu próximo como a mim mesmo.
A Igreja concede grandes indulgências para a recitação destes atos, sobretudo se se lhes acrescenta o Ato de Contrição (para este, veja o capítulo 3 do presente trabalho).
49- As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 431.
50- Padre Bernardes, in: Luz e Calor, 1ª parte, p. 222.
51- O Dom do Pentecostes, p. 181 e p. 184-185.
52- A Ascética Cristã, p. 82.
53- “A vida espiritual apresenta ordinariamente três fases sucessivas e ascendentes. Na primeira, chamada via purgativa, ou dos principiantes, desfaz-se a alma dos engodos do pecado e se depura pela resistência às tentações violentas que lhe ameaçam a vida da Graça. Na segunda, mais desafogada do lado dos sentidos, considera a alma o termo da jornada, que é o Céu, e se vai exercitando nas virtudes, tendo em mira o prêmio. É a via iluminativa, ou dos que progridem. Na terceira, que tem o nome de via unitiva, já não é tanto o receio do inferno que na alma predomina, nem o desejo do Céu, mas unicamente a aspiração de agradar a Deus e de se unir ao Soberano Bem [embora o receio do inferno e o desejo das recompensas celestes sempre devam subsistir na alma]” (Cônego Jerônimo Ribet, in: A Ascética Cristã, p.12).
54- Cf. Is 11, 2-3. Para falar sobre os Dons, baseamo-nos, de modo especial, em: Padre Antonio Royo Marin, O.P, in: Teologia de la Perfeccion Cristiana; e Padre Meschler, S.J., in: O Dom do Pentecostes.
55- Citado pelo Padre Antonio Royo Marin, O.P, in: Teologia de la Perfeccion Cristiana, p. 596.
56- Fato narrado por Fray Contardo Miglioranza, OFMConv., in: Santa Verônica Giuliani, p. 164-165. Não recomendamos a imitação literal deste feito.
57- As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 455.
58- Idem, p. 432. E acrescente-se que, pecando, nunca uma alma será
verdadeiramente feliz. Como já dizia São João Maria Vianney: “Ide de mundo em mundo, de reino em reino, de riqueza em riqueza, de prazer em prazer, não achareis a vossa felicidade. A terra inteira não pode contentar uma alma imortal mais do que um punhadinho de farinha na boca de um esfomeado pode saciá-lo” (Catecismos do Cura d’Ars, p. 109).
59- Fato narrado pela Revista Cruzada Eucarística, agosto/setembro de 1990, p. 245-246.
60- Castelo Interior, cap. II.
61- Citado pelo Padre Alonso Rodriguez, S. J., in: Ejercício de Perfeccion y
Virtudes Cristianas, p. 1453. Qual não será, pelo contrário, a gravidade do crime do escândalo, isto é, de levar o próximo ao mal, proporcionando-lhe uma ocasião de pecado? Os que matam a vida sobrenatural de uma alma, sem dúvida, fazem pior do que se matassem a vida natural de mil pessoas. Para com eles a vingança divina será terrível: “Eu lhes sairei ao encontro como uma ursa a quem roubaram os seus filhotes” (Os 13, 8).
62- Citado por Emílio Gonzalez, in: A Perfeição Cristã segundo o espírito de S. Francisco de Sales, p. 92.
63- Idem, p. 92.
64- As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 444.
65- Jo 3, 5: “Em verdade, em verdade te digo que quem não renascer por meio (do Batismo) da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus”. Os inocentes que morrem sem o Batismo vão, pois, para o Limbo, que é uma espécie de inferno onde não há fogo nem sofrimento algum, mas onde também não se vê a Deus, dado que a Visão Beatífica requer, indispensavelmente, a presença da Graça Santificante na alma. Talvez o Limbo dure só até ao dia do Juízo Final e, então, as almas que lá estejam sejam levadas para o Céu, mas é muito possível que, na verdade, o Limbo dure para sempre. (Sobre a existência do Limbo: cf. Denzinger 493a).
66- Cf. Cânon 750 (Código de Direito Canônico de 1917).
67- Cf.: Padre Antonio Royo Marin, O.P, in: Teologia de la Perfeccion Cristiana, p. 524: “Quando o exige assim a salvação eterna do próximo, posto em extrema ou quase extrema necessidade (por exemplo, uma criança que vai morrer sem Batismo se nós não o administramo-lo), estamos obrigados por caridade, sob pecado mortal, a atender-lhe, ainda com grave perigo da [nossa] própria vida corporal.
As aplicações deste princípio são variadíssimas, sobretudo em casos de ginecologia (é um crime o aborto voluntário, ainda o chamado ‘terapêutico’ para salvar a vida da mãe, posto que se sacrifica a vida eterna da criança – que morre sem Batismo – para salvar a vida temporal da mãe, que vale infinitamente menos) ou na assistência espiritual a enfermos contagiosos, empestados, etc.”
68- As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 392.
69- Padre Faber, in: O Progresso na Vida Espiritual, p. 339.
70- A palavra “divinização” que empregamos para indicar o que realizam na alma a Graça Santificante, a Comunhão Sacramental e a Visão Beatífica, não deve ser entendida nem em sentido panteísta nem em sentido gnóstico. O panteísmo diz que a alma e Deus são a mesma coisa, e a gnose diz que Deus é uma parte da alma. Essas duas teses estão erradas e são absurdas: o Criador e a criatura jamais podem se confundir. Empregamos, pois, o termo “divinização”, na falta de outro melhor, mas apenas em sentido católico, isto é, designando aquela semelhança e união sobrenatural entre a alma e Deus, operada pela Graça Santificante, pela Comunhão Sacramental e pela Visão Beatífica.
71- “Refere-se na vida de Santa Maria Madalena de Pazzi que, achando-se [ela] um dia em oração diante do Santíssimo Sacramento na igreja de seu convento, onde os sacerdotes ouviam a confissão de diversos penitentes, arrebatada em êxtase, [ela] viu que sobre aquelas almas, antes desfeiadas com a mancha do pecado, no momento da absolvição, descia o Sangue de Jesus Cristo, tornando-se elas nesse momento brancas, formosas e resplandecentes” (Emílio Gonzalez, in: A Perfeição Cristã segundo o espírito de S. Francisco de Sales, p. 626).
72- Mons. Francisco Olgiati, in: As Verdades Básicas do Cristianismo, p. 70.
73- Diz o Padre Bernardes: “Voltarei os olhos para o inferno e verei quanto deseja o diabo perverter uma alma: se na sua mão estivera comprá-la a troco de todo o mundo, e de mil mundos, no caso que foram seus, e não houvesse outro meio para adquiri-la, nada duvidaria dá-los por uma só alma. (...) Entre as revelações de Santa Brígida está uma, em que aparecendo o demônio em presença de Deus e a mesma Santa na ocasião em que certa alma ditosa subia deste mundo ao Céu, e perguntando-lhe o Senhor, para doutrina nossa, que dera ele por tê-la às unhas, respondeu: Que, se desde a terra até ao Empíreo [isto é, até ao Céu], houvesse uma coluna toda armada de agudas e talhantes espadas, e ele tivesse corpo sensitivo como o homem, por todas fôra subindo e arrojando-se e encravando-se sem fazer caso de despedaçar todas as suas entranhas, a troco de poder enfim alcançar aquela alma, e que com maior ímpeto e peso lhe pedia o espírito buscá-la e destruí-la, do que uma grande torrente se despenha desde uma rocha altíssima sobre um profundo vale” (As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 427).
74- Caso narrado pela Revista Catolicismo (nº 603), março de 2001.
75- “A Graça Santificante que o Espírito Santo nos comunica, é uma participação da Graça Santificante criada que santifica a Humanidade de Nosso Senhor. Deus nos faz participantes dela, mas sem empobrecer-se” (Padre Scrijvers, Princípios de la Vida Espiritual, p. 233-234).
76- Nosso Senhor disse à Santa Matilde: “Ofereça a meu Pai Celestial ou a Mim, a minha pureza e inocência pela pureza que lhe falta; ofereça a minha humildade pela sua soberba; minha piedade e caridade pela sua dureza e tibieza; e, finalmente, toda a minha Vida Santíssima pela sua, descuidada e imperfeita. Ofereça, também, seus desejos, pensamentos, palavras, orações, lágrimas, dores, angústias e obras, porque assim unidas [a Meus Méritos] serão muito aceitas a Deus. Qualquer oração santa penetra os Céus, mas a que vai unida com Minhas orações é muito mais excelente, e de mais valor e merecimento” (Citado pelo Padre Bernardes, in: Luz e Calor, 2ª parte, p.138).
77- “Um poderoso rei vê um menino do povo, abandonado de todos e falto de tudo, e ordena a um príncipe da sua corte que o tome sob a sua proteção, o eduque com o maior cuidado e não o deixe de dia nem de noite. (...) Terna imagem do que Deus faz por nós pelo ministério dos Anjos!” (Padre Chaignon, S.J., in: Meditações Sacerdotais, vol. III, p. 729).
78- Como escreveu uma piedosa freira, falecida em 1938: “Oh! Como é belo o mundo do espírito! E tão real que, em comparação com ele. A vida exterior não passa de pura ilusão e fragilidade” (Irmã Maria Faustina Kowaslka, in: Diário: A Misericórdia Divina na minha alma; nº 884. Congregação dos Padres Marianos, Curitiba: 1995).
79- Cf. Denzinger, nº 714 (e vários outros números). Entretanto, aqueles que estão fora da sociedade visível da Igreja sem culpa própria, isto é, de boa-fé, por ignorância, podem ainda se salvar se pelo menos tiverem um tal desejo da verdade que, se não fosse a sua ignorância, abraçariam a Fé Católica, e observarem, pois, o que souberem ser necessário para a salvação. Mesmo nesse caso, porém, eles só se salvam porque sua reta vontade os faz pertencer à Igreja ao menos implicitamente, isto é, o seu desejo sincero da verdade, a qual por ignorância desconhecem, os torna católicos implícitos, unidos espiritualmente à Igreja, embora exteriormente estejam fora d’Ela, de modo que, realmente, ninguém se salva se não for católico. Deus quer, todavia, que todos os homens pertençam plena e visivelmente à Sua única Igreja, donde o dever de trabalhar pela conversão dos pagãos, hereges, cismáticos e excomungados. Quanto ao cisma, vale lembrar que, se existirem dúvidas fundamentadas acerca da legitimidade da eleição de um Papa, não serão cismáticos os que não o reconhecerem até o esclarecimento do caso. Quanto aos que dizem que “qualquer religião salva”, sabendo que a Igreja condenou essa tese, eles mesmos deixam de ser católicos portanto, tornando-se hereges. Quem, conscientemente, não crê em tudo o que a Igreja ensina, ou não condena tudo o que a Igreja condena, simplesmente não é católico.
80- Considere-se o que diz Dom Chautard em sua clássica obra “A Alma de Todo o Apostolado”: “A vida ativa deve proceder da vida contemplativa, traduzi-la e continuá-la exteriormente, desligando-se dela o menos possível. (...)
É mister receber antes de comunicar, diz o Pseudo-Dionísio (...). Nas coisas divinas o Criador estabeleceu esta ordem: aquele que tem por missão distribuí-las, deve ser o primeiro a participar delas e a encher-se com abundância das graças que Deus quer dispensar às almas por seu intermédio. Então, mas somente então, lhe será permitido tornar os demais participantes delas.
Quem desconhece esta palavra de São Bernardo aos apóstolos: ‘Se sois prudentes e sábios, sêde reservatórios e não canais’? O canal deixa correr a água recebida, sem guardar uma só gota dela. Ao invés, o reservatório enche-se primeiro, e depois, sem se esvaziar, verte torrentes incessantemente renovadas sobre os campos que fertiliza. Dos que se devotam às obras [de apostolado], quantos há por aí que são apenas canais, ficando secos mesmo quando procuram fecundar os corações! ‘Há hoje na Igreja muitos canais, mas reservatórios mui poucos’, ajuntava com tristeza o abade de Claraval [São Bernardo].
Toda a causa é superior ao seu efeito; logo, para aperfeiçoar os outros é mister uma perfeição maior do que para qualquer [um] se aperfeiçoar a si mesmo. Como a mãe não pode amamentar o filho senão na medida em que ela própria se alimenta, assim também os confessores, os diretores de almas, os pregadores, os catequistas, os professores devem primeiro assimilar a substância de que hão de nutrir em seguida os filhos da Igreja” (Dom Chautard, “A alma de todo o apostolado”, 2ª parte, nº 2).
81- Como explica o Padre Júlio Maria: “Toda boa obra, feita em estado de Graça [Santificante], tem duplo mérito: um mérito de justiça e um mérito de conveniência.
O mérito de justiça é absolutamente pessoal, e não pode ser cedido a outrem: é o salário do nosso trabalho. O mérito de conveniência é uma gratificação suplementar, de que podemos dispor em benefício de terceiros.
Assim toda boa obra merece, como ‘merecimento de justiça’, um aumento de Graça na terra e de Glória no Céu: isto é pessoal. Nem a Graça, nem a Glória que deverá coroá-la um dia no Céu, podem ser cedidas.
Esta boa obra, entretanto, merece, em segundo lugar, por merecimento de conveniência, uma gratificação. É desta gratificação que podemos dispor à vontade, beneficiando os outros.
Este mérito de conveniência é duplo: impetratório e satisfatório.
Impetratório, enquanto, por essa boa obra, obtemos um favor qualquer que temos em vista. Por exemplo, pode-se fazer uma esmola em vista de obter uma cura, perseverança de uma vocação, correção de um defeito, aquisição de uma virtude, graça estas independentes do mérito pessoal [de justiça] que adquirimos pela esmola.
Satisfatório, enquanto satisfazemos, diante de Deus, com o que há de penoso nesta boa obra, com o que impõe de sacrifício e de privação, a dívida de nossos pecados” (O Segredo da Verdadeira Devoção para com a Santíssima Virgem, p. 105).
82- Padre Scrijvers, in: O Dom de Si, p. 127-130.
83- Citado pelo Padre Mariano Pinho, S.J, in: O Coração Imaculado de Maria à Luz de Fátima, p. 160. Note-se que não basta oferecer orações pelos pecadores: é preciso também sacrifícios, penitências. A um pároco que se queixava a São João Maria Vianney de não conseguir converter seus paroquianos, o Santo respondeu: “Tendes, porém, jejuado? Tendes feito vigílias? Tendes-vos deitado em cama dura? Tendes-vos aplicado a disciplina [isto é, açoitado-se]? Enquanto não chegardes a isto, não julgueis ter feito tudo!” (Catecismos do Cura d’Ars, p. 138-139).
84- Catecismos do Cura d’Ars, p. 138.
85- Citado pelo Padre Germano de Santo Estanislau, in: Gema Galgani, p. 196.
86- Citação de Frei Contardo Miglioranza, OFMConv., in: Santa Verônica
Giuliani, contra-capa. Não esqueçamo-nos, contudo, que a oração e o sacrifício não dispensam o apostolado direto, tanto mais necessário quanto mais as almas de nossos dias estão corrompidas e desamparadas. É de lamentar-se que muitos se preocupem mais com o bem das pessoas neste mundo do que com a eternidade delas... Dizia São João Crisóstomo: “Se vês que um cego vai cair numa fossa, lhe estendeis logo a mão; pois vendo cada dia a nossos irmãos a ponto de precipitar-se no abismo do inferno, como nos poderemos conter e deixar de socorrê-los?” E diz ainda: “Ainda que deis todas as vossas posses aos pobres, (...) mais é converter uma só alma que tudo isso” (Citado pelo Padre Alonso Rodriguez, S. J., in: Ejercício de Perfeccion yVirtudes Cristianas, p. 1340 e 1345). É absurdíssima a indiferença dos cristãos ante a gigantesca proliferação do pecado mortal em nossos dias. Como se lamentava São Bernardo: “Coisa singular! Cai por terra uma besta de carga e não falta quem se apresse a levantá-la; cai uma alma na culpa, e ninguém se incomoda para ajudá-la”... (Citado por Emílio Gonzalez, in: A Perfeição Cristã segundo o espírito de S. Francisco de Sales, p. 370).
87- “Quando o Espírito Santo, Seu Esposo, A encontra [Maria] numa alma, Ele se apodera dessa alma, penetra-a com toda a plenitude, comunicando-Se-lhe abundantemente e na medida que lhe concede Sua Esposa; e uma das razões por que, hoje, em dia, o Espírito Santo não opera nas almas maravilhas retumbantes, é não encontrar Ele uma união bastante forte entre as almas e Sua Esposa fiel e inseparável” (S. Luís de Montfort, in: Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, nº 36).
88- “A indulgência é a remissão da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa, remissão que a Igreja concede fora do Sacramento da Penitência (...), aplicando-nos as satisfações superabundantes de Jesus Cristo, da Santíssima Virgem e dos Santos, as quais formam o que se chama o tesouro da Igreja” (Catecismo Maior de São Pio X, nº 793 e 795).
89- As condições gerais para ganhar as Indulgências são: estar em estado de Graça Santificante, ter a intenção geral de ganhá-las (em rigor, basta formular uma vez por todas a intenção de ganhar todas as Indulgências de que se for capaz durante a vida e nunca retratá-la) e cumprir as obras prescritas para a concessão da Indulgência. Para ganhar uma Indulgência Plenária é indispensável, também, arrepender-se (por motivo sobrenatural) de todos os pecados cometidos em toda a vida, inclusive dos veniais, e estar disposto a não mais cometer nenhum pecado, nem venial.
90- Gustavo Corção, no seguinte texto digital:
http://www.permanencia.org.br/gustavocorcao/Artigos/descoberta.htm
91- “Uma conta é a dos pecados singulares, outra a dos de reincidência; diferente peso têm os pecados de fragilidade e de ignorância, dos de negligência e de malícia; um peso é o dos pecados dos sacerdotes, religiosos e homens de oração, e outro é o peso dos pecados de pessoas seculares e com menos luz do Céu. Diferente é a medida da paixão que passou logo, da do rancor que durou tempos; diferente é a medida da pena que padece o pecador convertido à hora da morte, da que padece o que tinha perseverado largo tempo em graça de Deus” (As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 70-71).
92- Preparação para a Morte, p. 150 e p. 152.
93- “Bom é esperar em Deus, mas a esperança que se não acompanha de boas obras chama-se presunção, e a presunção não salva, antes confunde” (As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 61).
“Assim como o caminhante, se vai bem armado e acompanhado, não teme os perigos da jornada, assim nesta vida (que é uma jornada para a eternidade) aquele que faz muitas obras boas leva o coração quieto, porque estas são as armas que o defendem e os companheiros que o alentam” (Idem, p. 42).
94- As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 429.
95- Citado pelo Padre Alexandrino da Costa Monteiro, S. J., in: “Palmas e
Lírios: Vida dos Santos e Beatos da Companhia de Jesus”, p. 279.
96- Citado por Frei Manoel da Madre de Deus, in: Práticas Mandamentaes, p. 721.
97- Denzinger, nº 805 e nº 826.
98- O Progresso na Vida Espiritual, p. 406-407.
99- Citado por Santo Afonso, in: Preparação para a Morte, p. 123.
100- Citado por Mons. Ascânio Brandão, in: Breviário da Confiança, p. 226.
101- Idem, p. 226.
102- De modo algum pretendemos atacar a santa Virtude da Esperança, mas apenas o erro da presunção de salvar-se sem méritos sobrenaturais, pecado este muito propagado nos tempos atuais, de diversas formas. Sobre a virtude da Esperança, ouçamos estas reflexões de Romano Amério:
“A esperança cristã é firmíssima e, sem embargo, admite a incerteza sobre a salvação eterna própria. Calvino [um herege do século XVI] cria encontrar contradição entre a firmíssima esperança e a incerteza, e ensinou que todo cristão deve estar seguro, pela misericórdia de Cristo, de chegar salvo à vida eterna (...).
Mas a solução que intenta eliminar da esperança todo elemento de incerteza, confunde as duas essências: a fé, que é segura, e a esperança, que é incerta. E são inigualáveis, não podendo-se esperar aquilo de se está seguro, nem crer conseguir infalivelmente o que somente se espera. Que Deus premie aos justos com a vida eterna é certeza de fé, não objeto de esperança; mas que Deus me premie a mim em particular, [isso] é objeto de esperança. Tal esperança é firmíssima, se contemplo a fidelidade e potência de Quem me promete a vida eterna; [mas] é, sem embargo, pura esperança (expectação em suspenso), se contemplo minhas boas obras, que são a condição exigida para a promessa.
O elemento de incerteza inserido na esperança sobre o estado moral do homem é uma verdade de fé, feita dogma em Trento (ses. VI, cap. II), que definiu ser perpetuamente mutável a vontade do homem durante a vida mortal, e que, portanto, ninguém pode estar seguro de obter a própria salvação. A definição se apóia em Ecl 9, 1: ninguém sabe se [se] é agradável ou não a Deus” (Iota Unum, número 307).
103- O Progresso na Vida Espiritual, p. 405-406.
104- Santo Afonso, in: Preparação para a Morte, p. 103 e106-107.
105- Idem, p. 36.
106- Idem, p. 51. E, se por um lado a morte dos pecadores é péssima, a morte dos justos é, normalmente, cheia de paz e alegria. Conta-nos Santo Afonso que um certo Cardeal chamado Ruffens, sendo condenado à morte por defender a Fé Católica, antes de ir para a execução mandou que lhe trouxessem seu melhor traje, dizendo que ia às bodas. Quando avistou o patíbulo, atirou para longe o báculo em que se apoiava, exclamando fora de si de alegria: “Eia meus pés, caminhai depressa, que o Paraíso está perto!”
Santo Afonso narra também que um caçador, certa vez, encontrou um eremita passando muito mal, todo coberto de lepra, mas que estava a cantar alegremente. Disse-lhe o caçador: “Como é que podeis cantar nesse estado?” E o eremita respondeu: “Irmão, entre Deus e eu não se interpõe outra muralha que este meu corpo, e como agora vejo que ela se vai caindo aos pedaços, que se desmorona o cárcere, e que em breve, verei a Deus, me regozijo e canto” (Idem, p. 79-80).
107- As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 376.
108- Bossuet, citado pelo Mons. Ascânio Brandão, in: Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!, p. 28.
109- Suma Teológica II-II, q. 28, a. 1 ad 3.
110- Padre Meschler, in: O Dom do Pentecostes, p. 301.
111- Heráclito de Éfeso (séc. VI-V a. C.), citado por Giovanni Reale, in: História da Filosofia, vol. I, Paulus, 3ª edição, S. Paulo: 1990, p. 38.
112- Citado por Santo Afonso, in: Escola da Perfeição Cristã, p. 174.
113- As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 148. E Bernardes diz também: “O
pecador que quiser que os golpes da mão de Deus lhe doam menos, tome-os pela sua própria, isto é, faça penitência voluntária, e abaterá as suas dívidas que a Divina Justiça há de arrecadar exatamente” (Idem, p. 164).
114- Citado por Padre André Beltrami, in: “O Inferno Existe: Provas e Exemplos”, p. 60-61. A todos que queiram aprofundar suas meditações sobre o inferno recomendamos imensamente este livro do Padre Beltrami.
115- Citado pelo Mons. Ascânio Brandão, in: Tenhamos Compaixão das Pobres Almas!, p. 49.
116- Padre Amadeo Kirillos, citado por Mansour Challita, in: Os Mais Belos Pensamentos de Todos os Tempos, vol. II, p. 110, Editora Lua Nova Ltda, 4ª ed., Rio:s.d.
117- Dominique Bonhours, idem.
118- Citado por Santo Afonso, in: Preparação para a Morte, p. 218.
119- Leo Trese, in: A Fé Explicada, p. 170.
120- Santo Afonso, in: Preparação para a Morte, p. 54-55.
121- Cf. “O Grito Lancinante de Uma Alma”, Edit. Correio da Rainha da Paz, Curitiba-PR.
122- Citado por Santo Afonso, in: Preparação para a Morte, p. 12.
123- Santo Afonso, in: Preparação para a Morte, p. 43.
124- Padre Vieira, Sermões, EDELBRA, Erechim: 1998, v. I, p. 437 (Sermão da Primeira Dominga da Quaresma).
125- As Mais Belas Páginas de Bernardes, p. 338.
126- Visão contada por Santa Teresa em seu Livro da Vida, cap. XXXVI.
127- Padre Schrijvers, C.SS.R., in: O Dom de Si, p. 16-17 e 28-29.
128- Suma Teológica I-II, 113, 9 ad 2.
129- Diz o Padre Vieira:
“E se me perguntardes (...) que coisa é bem sobrenatural, haveis de saber que é um bem o qual na nobreza, no preço e na dignidade, excede a todos os bens da natureza, assim visíveis, como invisíveis. E para que declaremos este excesso com algum exemplo, será como um diamante comparado com as pedras da rua? Será como o sol comparado com a sombra? Será como um homem comparado com uma formiga? Será como um serafim comparado com uma borboleta? Não. Porque a pedra e o diamante, o sol e a sombra, o homem e a formiga, o serafim e a borboleta, tudo são coisas naturais e criadas por Deus enquanto autor da natureza, e como são naturais, nenhuma delas tem comparação com o que é sobrenatural. Tanto assim que, se Deus criasse, como pode, outros mil mundos mais perfeitos que este, e povoados de criaturas muito mais nobres e excelentes, sempre o sobrenatural as excederia incomparavelmente, porque é grau muito superior a tudo o que compreende em si a esfera da natureza. E tais são a Graça e a Glória (...)” (Sermões, Lello & Irmão Editores, Porto: 1959, t. X, p. 32 , Sermão de Nossa Senhora da Graça).
130- Expressão utilizada pelo Padre Vieira na obra citada no número acima, p. 191.
131- Juízo Final é o nome que se dá à Segunda Vinda de Jesus, quando Ele aparecerá em glória e majestade no céu, para julgar publicamente a todos os vivos e mortos (os quais para tanto ressuscitarão todos), pondo fim, dessa maneira, à história da humanidade neste mundo. Em nada, porém, este Juízo público alterará a sentença já pronunciada sobre cada um dos mortos no Juízo Particular que se segue imediatamente à morte de cada um. Quanto ao dia em que ocorrerá este evento final, não o sabemos.
132- “Quanto os céus estão elevados acima da terra, assim se acham elevados os meus caminhos acima dos vossos caminhos, e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos” (Is 55, 9).
133- Oração extraída da obra: Adoremus: Manual de Orações e Exercícios Piedosos, de Dom Frei Eduardo J. Herberhold, OFM, p. 135-137.
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Bibliografia
- Bíblia Sagrada. Vulgata, tradução do padre Matos Soares, Edições Paulinas, 22ª edição, São Paulo: 1966.
- El Magistério de la Iglesia. Enrique Denzinger, Editorial Herder, 3ª ed., Barcelona: 1963.
- Catecismo Maior. São Pio X, Serviço de Animação Eucarística Mariana, Anápolis: 2005.
- Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Ad. Tanquerey (1854-1932), Livraria Apostolado da Imprensa, 4ª ed., Porto: 1948.
- Preparação para a Morte. Santo Afonso de Ligório, editor: Frei Cristóvão Pirolli, Anápolis: 2000.
- Teologia de la Perfección Cristiana. Padre Antonio Royo Marin, OP, BAC, 7ª ed., Madrid: 1994.
- Práticas Mandamentaes. Frei Manoel da Madre de Deus, Livraria Chardron, 5ª ed., Porto: 1902.
- O Coração Imaculado de Maria à luz de Fátima. Padre Mariano Pinho, SJ, Universidade Católica do Paraná, Curitiba: 1984.
- Ejercicio de Perfección y Virtudes Cristianas. Padre Alonso Rodríguez, SJ, (+ 1616), Editorial Testimonio, 3ª ed., Madrid: s.d.
- O Dom do Pentecostes. Padre Mauricio Meschler, S.J. (1850-1912), Vozes, Petrópolis: 1945.
- O Naturalismo. Padre Emmanuel-André, Permanência, edição eletrônica no seguinte link:
http://www.permanencia.org.br/revista/teologia/Emmanuel/naturalismoindex.htm
- As Verdades Básicas do Cristianismo. Mons. Francisco Olgiati, Editora Vera Cruz, Rio: 1943.
- A Fé Explicada. Leo J. Trese, Quadrante, 7ª ed., S. Paulo: 1999.
- A Alma de Todo o Apostolado. Dom Chautard (1858-193